Era uma vez um mundo belo, florido e cantante...
Onde as árvores cresciam até tocar os céus, e suas flores perfumavam até a podridão mais profunda, de tal modo que mal cheiro não se sentia.
A relva alta cobria toda a terra como um grande carpete verde, vez ou outra bordado por flores de mil cores. Era tão alta que, quando um animal morria, não se via. A feiúra do mundo era engolida pela grama.
Ali não havia noite. Nem mesmo dia.
A claridade era eterna.
Ninguém dormia.
O clima era quentinho e confortável. Corças e coelhos corriam, saltavam, brincavam, sem pensar no amanhã...
Ah. É mesmo. Que cabeça a minha.
O amanhã não existia.
Era uma terra cultuada pela beleza, glorificada pela grandeza.
E justamente ali, na terra bela e desejada, habitava uma velha caverna. Fria. Escura.
Os mais valentes animais mantinham distância. Diziam que em seu interior demônios transitavam. Que quem se aproximasse não voltava.
Portanto, nenhum dos seres viventes sequer ousava pronunciar seu nome.
A VOZ DA RELVA
Ao sopro de uma brisa fria, ergueu-se o grito da mamãe cervo.
Chamava pelo filho desaparecido. Mais um sumido.
- Eu o vi passeando perto da caverna - sussurrou uma voz na relva.
- Quem disse isso? - perguntou curioso, Ítalo.
O farfalhar da grama foi tudo o que se ouviu. Todavia, foi rompido pelo estalar de galhos.
Os passos da mãe se apressaram, enquanto os demais familiares, tentando contê-la, de vista a perdiam.
O som repentinamente cessou. Eles a alcançaram.
E eis o grito da senhora cervo, ofegante, aos prantos:
- CUSPA MEU FILHO!
A velha caverna respondeu, calma:
- Não está comigo, nobre senhora. O perigo não está em mim, mas em vosso meio jaz escondido. Anda sob a luz, de modo que, ofuscando vossa visão, não pode ser visto. Na vossa beleza passa despercebido. Refugia-se em mim apenas para descanso.
- Espera... Cadê o Ítalo? - um familiar sussurrou, mas passou despercebido.
- MENTIRA! NÓS NOS CONHECEMOS! SÓ ME DIGA ONDE ESTÁ MEU FILHO!
- Não está comigo - respondeu calmamente. - Lamento, mas seu corpo, devorado, jaz no vosso meio perdido. Por temerem a escuridão, o mal se fortalece e renova. Enquanto, por ser desconhecido, passa despercebido.
A mamãe desabou.
Mais uma ausência.
Mais uma criança.
Que a velha e feia caverna levara - e não há de voltar.
ADEUS
Ruíram diante dela para o julgamento.
Sem direito à palavra. Eis a condenação.
- Culpada! - sem perdão.
Gritava a multidão.
Diziam que só a morte dela traria salvação.
Nenhum grito.
Nenhuma lágrima.
Apenas uma triste aceitação.
E com um espinho da mais majestosa roseira perfuraram-lhe o coração.
Mesmo assim, os sumiços prosseguiam.
DENTINHO
Um dente-de-leão balançou com o vento. Um pequeno talo foi levado, contra a vontade, para a boca da caverna morta.
YOU ARE READING
...Era Uma Vez...
Short StoryPequenos contos pra exercita a imaginação. *Violência *Gatilhos *Dark Fantasy *Romance *Aventura
