Capítulo 1

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Rodrigo*


Mais um dia de trabalho, estou cansado, muito trânsito nessa manhã em São Paulo.
Recebo um chamado pelo aplicativo, a pessoa está no hospital, sigo pelo GPS mesmo sabendo o caminho, já é automático.
Quando chego no local, vejo uma moça, confiro o nome no aplicativo e pergunto, pois só tem ela ali parada e percebo que ela está um pouco distante.

- Maria?!

Ela olha, acena, confere algo no celular (talvez a placa do carro) e vem em direção ao carro. Quando ela vem andando, vejo sua roupa toda branca (deve ser médica), cabelo preso em um rabo de cavo, olhos e cabelos bem escuros. Seu rosto é muito lindo, porém parece triste, cansado.
Disfarço o meu olhar quando ela entra no carro, não posso ficar olhando a moça descaradamente, ela pode até ficar com medo, até porque, ela está sozinha, e mulher sozinha pegando um carro de aplicativo é perigoso e elas morrem de medo, não vou fazer com que ela além de triste, fique com medo.

- Bom dia! - digo.
- Bom dia. - Ela responde com um ar distante.

Sigo o caminho que ela colocou no aplicativo e ficamos em silêncio por um tempo. Depois de alguns minutos que pareciam uma eternidade causada pelo silêncio absoluto, a moça começa a chorar, eu percebo porque ela soluça, então olho pelo retrovisor, e fico um pouco incomodado, não gosto de ver ninguém chorando, principalmente mulher, então me arrisco a perguntar:

- Desculpa a pergunta, mas posso saber o que aconteceu?

Ela me olha assustada limpando as lágrimas e balança a cabeça afirmativamente. Fico esperando pra ver se ela vai dizer alguma coisa, mas parece que ela não quer. Quando estou quase desistindo de animá-la, ele fala:

- Foi só mais um plantão cansativo, muitas coisas acontecem, mas hoje um menino de cinco anos faleceu, ele não aguentou... - ela fala limpando mais uma lágrima que sai dos seus olhos, e ouça sua voz doce e baixinha.
- Sinto muito - digo e mudo de assunto, porque esse assunto me deixa um pouco triste também.
- Então, você é médica? - ela levanta o rosto e me olha de um jeito que eu não sei dizer o que se passa na cabeça dela, e me arrependo de ter mudado de assunto.

Ela respira fundo parecendo aliviada e responde:

- Não, eu sou enfermeira, ajudo em tudo que me colocam no hospital, me apego muito com os pacientes, principalmente com as crianças, eu vivo pra isso, trabalho e trabalho, acaba que as pessoas ficam fazendo parte da minha família, e quando acontece uma tragédia dessas, eu fico assim...
- Continua - eu digo - estou gostando de ouvir.
- É que já está chegando na minha casa, e eu não tenho mais o que dizer. - Ela sorri em meio as lágrimas e eu percebo que estamos mesmo chegando ao destino.
- Bom, quem sabe você não pede pelo meu carro de novo por acaso.
- Sim, quem sabe. - Ela sorri novamente.

Que sorriso lindo! Como ela é linda!
Chego no destino dela e digo:

- Então até, e espero que da próxima você me dê boas notícias.
- Obrigada e bom trabalho! - ela diz sorrindo e saindo do carro.

Ela realmente é muito linda! Fico hipnotizado esperando até que ela entre pelo portão, e a essa altura eu já nem lembrava em manter a postura pra ela não pensar que eu sou um maluco assassino.
Levo um susto com o celular apitando, indicando que tenho outra corrida ali perto, aceito a corrida e sigo meu caminho, antes que a moça chame a polícia.


.


Depois de um dia longo de trabalho, chego em casa. Tem uma coisa que não me sai da cabeça, aquela moça linda, toda de branco, tristinha e com a voz doce. Ela não saiu da minha cabeça desde que entrou naquele prédio, ela entrando e saindo do meu carro não sai de jeito nenhum da minha mente, já tentei mudar o pensamento, mas não consegui. Sei que parece até loucura, mas esse tempo todo que trabalho com isso, eu nunca olhei pra alguém diferente igual aconteceu com essa moça.
Será que irei vê-la novamente? O destino faria com que nós nos encontremos novamente?
Faço tudo que tenho que fazer em casa e me deito, torcendo para que possa encontrá-la novamente algum dia. 


Estava EscritoWhere stories live. Discover now