Ele era um babaca

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Eu sempre fui boa em organizar eventos, considerando minha falta de escolaridade, é claro. Não terminei o ensino médio. Estava muito ocupada fugindo de casa e dando à luz à Sarada.

Vivendo nas ruas eu aprendi que sabedoria e inteligência são duas coisas distintas. Eu não me considero uma pessoa sábia, não tenho embasamento científico sobre muitas coisas, nem tenho um diploma com meu nome para pendurar na parede de casa. Contudo, eu sou uma pessoa inteligente. Eu sei usar minhas qualidades e sorrisos para tomar vantagem de aberturas humanas.

Em minha adolescência eu não fiz escolhas muito sábias; aos 15 anos eu estava grávida morando nas ruas. Precisei aprender a conseguir dinheiro para não morrer de fome e ter um teto acima da minha cabeça. Eu roubei, enganei e traí a confiança de muitas pessoas. Sobrevivência. Esse era o mantra da minha vida. 

Para mim, este velório é apenas mais um evento de alta classe. Burgueses fingindo que se importam, orçamento, reserva do estabelecimento, data, estacionamento, flores, caixão. Tudo foi minuciosamente organizado e planejado por mim, especialmente sua data.

Me casei com Madara Fukkatsu 2 anos atrás, no início tudo foi exuberante. Apesar de ser 25 anos mais velho, ele tinha um físico impecável, suas três grandes escolas de ioga além de oferecer um lucro exorbitante moldaram seu corpo. 

E que corpo.

O conheci em uma aula, quando ele ainda era professor. Madara foi me auxiliando com os movimentos e eu fingia ser péssima nisso. Com uma mão ali e outra aqui, em 4 meses ele me pediu em casamento. Sua ex-esposa, Mito, ficou furiosa, é claro. Não queria compartilhar a herança de seu filho com uma mulher de 30 anos que aparentava ter muito menos. "Essa garota tem idade para ser sua filha", Mito dizia em seus telefonemas conturbados quando pedia dinheiro a Madara.

Eu gostava do Madara. Isso mesmo. Gostava. Verbo no Pretérito Imperfeito. Apenas uma ação foi necessária para eu conjugar o verbo.

Digamos que eu sou apaixonada por eufemismo, quem não adora? Então vamos dizer que eu precisei agendar sua morte. 

Quando o vi passando a mão pelo corpo da Sarada do mesmo jeito que fazia no meu, com apelo sexual, percebi que Madara teria que morrer. 

Ele tinha uma "boa" desculpa, estava ajudando a Sarada com os movimentos, e assim como sua mãe, era péssima em ioga. 

Vá à merda. 

Eu conheço essa história. 

A mãe se casa e o padrasto abusa da enteada. Eu passei por isso. Eu não iria deixar ninguém encostar a mão na minha filha novamente. Graças a isso, percebi que velhos hábitos nunca morrem, eu amo planejar eventos de qualquer maneira.

– Madara era o melhor. Depois de ser mãe solteira por tanto tempo, ele foi um anjo que caiu do céu. – disse chorosa, segurando o lenço e enxugando as minhas lágrimas. 

Sou uma ótima atriz. Preciso manter essa atuação digna de um Oscar o velório inteiro. Não posso chamar atenção ou atrair desconfianças para a causa da sua morte. Preciso demonstrar ser uma esposa em luto, inconformada. 

Eu fungo. Que Deus abençoe a maquiagem à prova d'água.

– Oh, Sakura, pobrezinha. Vocês estavam tão apaixonados. Madara sempre falava da Sarada e do Haru nas reuniões. – Megumi repousa a mão no meu ombro, me consolando. 

Megumi é a vice-presidente do Madara, uma senhora de quase 60 anos muito bem conservada. Seus cabelos caíam em ondas negras até os ombros. Sua pele estava luminosa e viçosa contra a luz fria da funerária. Quero ter essa pele quando chegar nessa idade.

– Sim, ele era incrível com a Sarada e o Haru, tratava como se fossem filhos dele. Eu não acredito que ele se foi. 

Senti um olhar queimando minha nuca. Eu não precisava me virar para saber que era a ex-esposa do Madara. A ouvi sussurrando minutos atrás “o coitado do meu bebê vai perder a herança para aquelazinha, ele era um babaca”. Tenho que concordar com ela, Madara era um babaca quando queria.

Não guardo remorso de sua morte. Ele teve uma vida longa e feliz. Uma vida fácil. Nunca passou necessidade na vida. Nunca precisou procurar restos de comida no lixo de um restaurante como eu.

Olhei meu relógio no pulso. Mais meia hora e posso ir para casa preparar a mudança. Não seria inteligente continuar em Houston, Texas, depois de tudo. 

As causas de sua morte foram declaradas como naturais. Ataque cardíaco. Não há investigação. Não sou suspeita. Mas não quero continuar morando nesse Estado perto da Mito. Sei que ela vai brigar judicialmente pela herança uma hora ou outra. Quero uma nova vida, esquecer todos que me lembram do Madara.

Um sonho – ou talvez uma lembrança antiga – me fez recordar de Massachusetts. 

Não me julgue, eu realmente acredito em sonhos. E signos. É o nosso subconsciente nos ajudando a tomar decisões. 

Certo, dessa vez vai ser diferente.

– Mamãe, quero ir pra casa. – Haru puxou meu vestido.

Me abaixei para ficar na sua altura, brincando com seus fios rosados. 

– Nós já vamos, meu amor. – ele sorri, tímido.

Depois de engravidar da Sarada e ficar 9 meses agonizantes ansiosa para ver o rostinho do meu bebê e perceber que era a cara do pai, fiquei orgulhosa quando meu segundo filho, Haru, nasceu uma perfeita cópia de mim. 

Ele tinha cabelos rosados lisos e olhos verde-claros, não puxou em nada o seu pai. Fiquei aliviada com isso. 

Oh, esqueci de dizer, tenho 2 filhos com 2 pais diferentes. 

O pai da Sarada, Sasuke, é um bom pai na medida do possível, aventureiro nato. Ele é fotógrafo e desde os 18 anos viaja pelo mundo tentando encontrar algo que eu não sei o que é. 

O pai de Haru, por outro lado, odiava viajar. E ele está na cadeia agora.

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⏰ Last updated: Apr 13, 2021 ⏰

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Cereja e TomateWhere stories live. Discover now