O Labirinto dos Deuses

By AlineDoria

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*Obra registrada * PLÁGIO É CRIME - LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. S... More

Índice
Notas da Autora
Book Playlist - Soundtrack
Mito de Origem - Spinoff
O Camping de Treinamento
A Sala dos Deuses
As Estrelas
A Prova Final
Minha Vez
Timothy, Seu Idiota
Abra Sua Mente
Histórias
Eu te Odeio
A Clareira
O Que Foi Que eu Fiz?
Treze
Para Sempre
Sozinha
Teorias
Lembrar do Passado Para Não Esquecer o Presente
Paradoxo
Ilusões
Coisas de Meninos
A Última Flecha
Descanse em Paz
A Tentação de Daniel
A Caverna Interior
Adeus, Pandora
Um Nome (Final)
Agradecimentos

A Cerimônia de Abertura do Labirinto

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By AlineDoria

Depois da Floresta nos arredores da cidade era possível ver os portões do Labirinto, todo fim de mês as crianças que haviam feito treze anos eram levadas pra lá e deveriam chegar ao fim. As portas do outro lado eram abertas quase no mesmo instante e, geralmente, elas chegavam lá cerca de uma semana depois. Nem todos chegavam ao fim e ninguém nunca questionou isso, acatando como uma vontade dos Deuses. Havia uma unica instrução muito clara: atravessar o Labirinto da justiça dos Deuses.

~~

Uma garota de doze anos e meio, com um cabelo castanho longo, olhos castanhos e a pele queimada de sol me encarava pelo reflexo do espelho, ela fez a mesma careta que eu enquanto tentava desembaraçar o cabelo. Terminei e o prendi num rabo de cavalo. Estava quase atrasada, fiquei de encontrar com Zac atrás da biblioteca antes da cerimônia de abertura do Labirinto desse mês e eu não queria perder. O meu mês estava chegando e eu definitivamente não estava pronta, pelo menos tinha que ter certeza que fiz tudo o que podia para estar.

Enfiei na mochila tudo o que estava esparramado pela escrivaninha e desci correndo tropeçando no pequeno Timothy no ultimo degrau, só tive tempo de murmurar um "desculpa" enquanto continuava correndo para a rua bem a tempo de pegar o ônibus quase saindo do ponto a dois quarterões de casa.

Zac é meu vizinho, somos amigos desde que eu me lembro de existir e uma informação realmente importante sobre ele: ele é a unica pessoa que eu conheço de verdade, o único amigo que entrou e saiu do labirinto, ele tem catorze anos. As coisas ficam mais difíceis quando você simplesmente não se lembra de nada que passou lá dentro, então a gente faz pesquisas e ele tenta me ajudar na minha preparação porque minha vez está chegando. Claro que existe mais gente, meus pais também estiveram lá, mas eles não falam sobre isso. Eu o encontrei me esperando nas mesas de madeira atrás da biblioteca com alguns livros, ele ajustava os óculos ou tirava os fios loiros da frente dos olhos enquanto lia, então viu que eu havia chegado e tirou algumas coisas do banco para me sentar.

_Oi Pan!

_Oi Zac, desculpa o atraso.

_Sabe, eu realmente não acho que isso vai nos ajudar.

_Eu não espero que você se lembre, acho que tem alguma razão para apagarem as memórias. eu queria entender como essas coisas funcionam.

_Escuta Pan, eu estou preocupado com outra coisa. No meu mês entraram vinte crianças, mas saíram só treze, aconteceu alguma coisa lá dentro. Você precisa tomar muito cuidado.

Aquilo me chamou atenção. Eu sabia que nem todos saiam, mas aquilo realmente me chamou atenção. Pra mim esse labirinto tinha realmente um significado que as pessoas não estavam levando a sério, algumas pessoas acreditavam que existia uma organização por trás, uma conspiração que tirava as crianças da população por algum motivo, eu acreditava que a resposta certa era a mais simples.

_Zac, você acredita que foram mesmo os Deuses que criaram esse Labirinto?

_Faz muito tempo, a gente não sabe no que acreditar, não é? A verdade é que ninguém que está aqui hoje viu isso acontecer, pode ser qualquer coisa.

_Você se lembra de algo de quando saiu? Não de dentro do Labirinto, mas quando saiu...

_Hmm. Talvez, talvez tivesse algo na porta de saída, uma inscrição talvez, eu realmente não posso dizer o que.

_Nós temos a instrução de atravessar, alguém recebeu essa instrução pela primeira vez. Você não acha que deve ter alguma regra para seguir?

_Tipo um jogo?

_Não exatamente. Mas se devemos entrar de um lado e sair do outro a resposta certa é sempre a mais simples: entrar de um lado e sair do outro, eu acho que pode ter sido mesmo os Deuses, talvez tenha regras.

_Pan, os livros de história antiga falam da reconstrução das cidades, das grandes descobertas, mas tudo isso depois do Labirinto. Não conseguimos descobrir quando tudo deu errado na civilização apenas pelos livros.

_Ou o que fizemos de errado né? O que a humanidade fez de errado para ser punida com o Labirinto. Mas isso deve ser mais do que religião. Quem sabe o Labirinto não seja realmente uma punição... - ele me olhava com cara de "tem certeza que não é perigoso pensar demais?"

Eu não pude continuar. Ouvimos soar uma sirene aguda por toda a cidade anunciando que a cerimônia devia começar em uma hora, o sinal durou dois minutos e parou. Deviamos ouvir outro sinal quando faltasse meia hora, quinze minutos e cinco minutos. Ninguém era obrigado a estar presente além dos familiares das crianças que entrariam no Labirinto aquele mês, mas era dado o aviso porque muitos se interessavam em estar presente.

Guardamos nossas coisas e seguimos algumas pessoas que rumavam para a floresta, o caminho era longo e provavelmente levaríamos algum tempo até chegar aos portões, eu devia encontrar meus pais e meu irmão lá, insisti que gostaria de ver a cerimônia já que a minha entrada no Labirinto estava chegando. Timothy parecia mais nervoso que eu, ele era esperto mas não entendia muito bem. Eu já treinava há um bom tempo, acho que ninguém se sente preparado mas eu não tinha medo. Pra mim era como um rito de passagem e era isso que ensinavam a gente na falta de uma explicação melhor.

_Pan - Zac sussurrou do meu lado - o que você disse sobre o Labirinto não ser uma punição? O que quer dizer com isso?

_Você acredita, Zac, que pode ser mesmo dos Deuses? - respondi no mesmo tom em meio as pessoas que aumentavam.

_Onde quer chegar?

_Zac - segurei seu braço fazendo-o parar de andar enquanto as pessoas passavam por nós - E se não houver qualquer conspiração por trás, e se estivermos perseguindo e pesquisando algo que não existe? E se o Labirinto for dos Deuses e não for uma punição, for um ensinamento? - ele me encarava como se eu tivesse dito algo realmente proibido e assustador.

_Então, você é religiosa?

_Não, mas acho a hipótese válida. Que tal?

_Assustador.

Continuamos andando, mas senti que ele estava pensando de verdade no que eu havia dito. Eu não era religiosa, não acreditava em castigo divino, mas acreditava de verdade em ensinamentos, se os Deuses achavam que havia algo errado com a civilização, se a humanidade chegou ao caos e os Deuses decidiram que precisávamos reaprender e criaram o labirinto, isso podia fazer sentido, essa podia ser a resposta mais simples. Por que não? Era isso o que nos contavam e nos ensinavam.

Eu só percebi que havia algo errado quando Zac me puxou pelo braço até uma arvore, estávamos perto da orla da floresta e já era possível ver os portões do Labirinto, onde havia algum tumulto. Um aglomerado de gente em volta do cordão de isolamento discutia com os policiais enquanto as crianças eram preparadas e aconselhadas dentro de algumas tendas. A gente ainda estava longe e não dava para entender, as pessoas em volta aceleraram o passo e outras até correram mas Zac me guiou por entre as arvores até a orla e ficamos observando de longe. Logo senti alguém puxando minha blusa e reconheci o cabelo preto meio espetado de Timothy, meus pais vinham atrás dele.

A nossa frente as crianças eram organizadas do lado de dentro do cordão de isolamento enquanto o tumulto ficava mais confuso, porém mais audível. Uma voz estridente gritava que as autoridades deviam fazer algo a respeito do decrescente numero de crianças que saiam do labirinto, outra voz respondia que era a vontade dos Deuses e a população devia aceitar. Um padre local respondeu concordando. Outra voz gritou que estava entregando seus gêmeos naquele momento em meio a prantos e que era obrigação das autoridades devolvê-los, as organizações já não tinham mais como explicar que nada podiam fazer depois que as crianças cruzavam os portões e um grupo de manifestantes em prol do fechamento do Labirinto começava a se formar. Antes que a confusão aumentasse, os grandes portões metálicos foram abertos e as quinze crianças entraram quebrando o protocolo e pulando a sessão solene, imediatamente após sua entrada eles se fecharam novamente. Nós fomos embora sem ver como deram um jeito de dispersar todos.

Voltamos para casa enquanto mais curiosos cruzavam a floresta, aglomerados sempre atraem curiosos, filas sempre atraem mais gente, deviam estudar isso. Quem sabe os Deuses não estavam certo. Pior, quem sabe não serviu pra nada e estamos indo para o mesmo rumo que a humanidade foi no passado? Zac me acenou da rua e foi para a casa dele, fez bem, meus pais não pareciam bem mas não estava muito claro se era pela confusão ou porque eu entraria no Labirinto em alguns meses.

A televisão mostrava alguns manifestantes que ficaram em frente aos portões fechados e minha mãe desligou, parece que eles pediam o cancelamento do Labirinto. Pensando bem nunca disseram o que acontecia se não mandássemos as crianças pra lá. Eu puxei Timothy para cima enquanto meus pais conversavam na sala e no caminho escutamos meu pai dizer que deviam mostrar o que acontecia lá dentro, eu acho que minha mãe respondeu que os Deuses não queriam que vissem. Aquilo me fez pensar. Deixei para depois, entramos no escritório e me joguei no sofá.

_Você já tem dez anos Tim, devia começar a treinar.

_Eu vou esperar você voltar, então pode me contar como é lá dentro.

_Você sabe que as pessoas não se lembram como é. - mentira. Eu estava preocupada em não voltar depois do que Zac disse.

_Ninguém?

_Ninguém.

_Porque?

_Eu ainda não sei, mas gostaria de descobrir.

_Mas, então você pode me treinar quando voltar, você ainda vai se lembrar do seu treino?

_Vou. Eu só vou esquecer do que aconteceu lá dentro. - eu ainda estava preocupada em não voltar. - faz assim, a gente começa a treinar agora, pode ser? Eu ainda tenho alguns meses antes de ir, você quer?

_Quero.


Eu sorri e foi como selamos nosso acordo. Nesse momento ouvimos a voz do meu pai chamando para comer e descemos, eles pareciam preocupados e não falamos sobre a cerimônia como se de alguma forma tivéssemos combinado isso também mesmo que não fosse verdade. Tivemos vários outros tipos de conversas inúteis até o final da noite.

Eu não lembro de pegar no sono mas sei que sonhei com a cerimônia do Zac. Eram vinte crianças de treze anos e tinha umas cinco tendas com quatro em cada uma sendo preparadas e aconselhadas. do lado de fora os familiares e amigos aguardavam para conversarem com eles. Meia hora se passou até me chamarem junto com os pais de Zac e entramos na tenda em que ele estava, nos deixaram ficar lá por mais meia hora. Eu dei uma olhada rápida na mochila dele, ou ele ia enfrentar algo muito perigoso ou não tinham a menor ideia do que tinha lá dentro e prepararam ele para tudo. Dei um abraço e desejei boa sorte, depois me arrependi por não dizer outras coisas.

Então retiraram todos que não fossem os membros do labirinto das tendas e os levaram para o lado externo do cordão de isolamento, já as crianças membros foram colocadas do lado interno do cordão. Então os portões se abriram e o comandante Alceu Norriton tomou o microfone:

_Cidadãos de Cristalyn, eu declaro aberto o Labirinto da Justiça dos Deuses, nesse nono mes do ano. Aguardamos ansioso pela saída de cada um de vocês, que a passagem pelo Labirinto lhes traga o amadurecimento da vida, assim como queriam os Deuses. - ele então olhou para as vinte crianças. - Podem entrar. - as crianças entraram e os portões se fecharam as costas deles - nesse momento as portas de saída já estão abertas, assim que cada um sair levaremos para o centro de recuperação e encaminharemos a sua residencia. A cerimônia está encerr..

_Pan - alguém me sacudiu, algo no fundo da minha mente reconheceu a voz de Zac mas boa parte de mim insistia em continuar dormindo - Pan - ele continuou, eu abri os olhos e o vi na minha frente, eu queria perguntar como ele chegou no meu quarto mas estava com muito sono para isso, deixei ele continuar - eu pensei no que você falou, em tudo, Pan. Você vai sair do labirinto, você é diferente. E preciso que faça uma coisa por mim, por nós, prometa que vai se lembrar o que tem na porta de saída.

Como alguém em sã consciência fala algo tão sério para uma pessoa meio dormindo? As palavras entraram em foco na minha mente aos poucos, joguei a coberta pro lado e me sentei ao seu lado, eu nem tinha certeza se era dia lá fora, será que ele passou o tempo inteiro pensando nisso? Eu não seria idiota de fazer essa promessa né? Quem faz uma promessa que não pode cumprir? Eu olhei pra ele e vi que nunca tinha falado tão sério, ele acreditava em mim porque sua vez já tinha passado, droga.

_Eu prometo.


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