Esperei que os dois voltassem pra casa.
Jake nunca tinha se dado ao trabalho de avisar que estava bem por mensagem antes, e só aquilo já parecia um progresso pra mim. Phil disse que iria com a gente... só de pensar em nós três vivendo juntos, a minha pele já ficava eriçada.
Vamos fazer dar certo. Mesmo sendo complicado... eu sei que a gente consegue. O mais difícil eu já consegui: os dois poderiam se bicar pra sempre, mas no fundo já se gostavam muito mais do que queriam admitir.
Olhei para fora pela janela da sala, sem perceber o quanto queria que eles voltassem logo.
Me lembrei que Jake havia deixado o notebook na cozinha e fui até lá. Coloquei o meu nome em base 64 e a tela destravou.
O fundo agora era outra foto minha: eu estava toda travada, com aquelas roupas que escolhi só para chamar o máximo de atenção possível, quando o plano era que Jake hackeasse o celular da Millie no Aurora. O mesmo dia que ele deu aquele "show" no banheiro, com Phil na sala.
A lembrança me fez morder um sorriso e sacudir a cabeça. Tinha que dar o meu melhor pra me concentrar em encontrar o exame de DNA de novo, e também quem sabe mais alguma informação sobre a mãe de Jake. Quando de repente, notei uma coisa:
Eu nunca vi o rosto do Nathan.
Jake não se parecia quase em nada com a mãe, exceto pelos olhos claros e fundos. Peguei meu celular e procurei pelo ig da Hanna. Levei um tempo procurando. Tempo o suficiente para imaginar uma versão mais velha de Jake, talvez grisalho, de óculos... mas quando o encontrei, num post composto de uma sequência de fotos de família—- Uma festa de fim de ano-- joguei o celular de lado e esfreguei os olhos.
Não se parecem em nada.
Nada.
E agora?
Jake não tem mais ninguém de família...
Sempre achei que família problemática era melhor que família nenhuma.
É como estar preso em uma sala cheia de cadeiras, bagunçando o lugar. Você poderia juntar tudo e jogar fora... mas o que restaria ainda seria uma sala vazia.
E poucas coisas são melhores que o vazio.
Voltei para a sala e olhei pela janelinha da porta.
Eu devia ter ido com o Phil.
Andei de um lado pro outro, pensando em como aquilo poderia mudar a abordagem da Hanna sobre o Jake.
Mas se ela sempre soube... nada mudou. Não é como se ela fosse ser mais leal a um irmão do que a um cara que ela tá apaixonada...
Coitado do Thomas...
Mas pelo menos, se o Thomas souber... talvez ele também fique contra ela. É alguém a menos que já viu o Jake pessoalmente.
É uma vantagem.
Me sentei no sofá e apertei meu ombro, tenso.
Quando comecei a raciocinar assim? O Jake acabou de perder uma família que não era lá essas coisas, e eu aqui pensando em vantagens e desvantagens...
Um ruído metálico soou da porta dos fundos, e uma onda de alívio me atingiu. Eles tinham chegado e voltaram pela floresta.
Corri para destrancar a porta.
Eu nunca vou deixar você. Quis dizer pra ele. Não importa o que aconteça, nós vamos dar um jeito...
Mas quando arreganhei a porta de repente, os olhos que me encararam não eram os de Jake.
Surpreso e assustado, um homem de quase dois metros, e moletom de touca cobrindo metade do rosto na sombra escura- levantou a cabeça de leve.
Uma máscara de Guy Fawkes igual à que Jake usava como avatar quando conversávamos, anos atrás.
Usei toda a força para fechar a porta, mas o homem a segurou aberta. Corri para o quarto, onde Jake havia fechado a arma de David em uma gaveta.
Tá leve demais... Vazia? Cadê as balas?
Girei o corpo assim que senti o calafrio de alguém atrás de mim e estiquei o braço, apontando a glock 19 para um sorriso de plástico. Aquela já era outra pessoa. Este era da minha altura e magro demais nas roupas largas e escuras. Porém, o mesmo "uniforme" era o mesmo: máscara e moletom de capuz.
Contra um eu tenho chance. Mas dois? Com uma arma sem balas?
— Vocês querem o dinheiro de vocês de volta, não é? — Nervosa, acabei falando alto demais, mas decidi manter o tom para fingir que foi de propósito. — Vale a pena levar um tiro por isso?
O homem bem na minha frente inclinou a cabeça. O pescoço dele era fino e longo.
Deve ser o adolescente. O cara que se jogou na estrada pra emboscar o David.
O outro, mais alto e corpulento, estava apoiado no frame da porta. Esse moletom...? Pensei e desviei o olhar. Baixei o martelo da glock 19 e deixei o som metálico fluir pelo quarto. Não tem como ele saber que está descarregada.
— Se vocês acham que eu sou a chave só porque-- O hacker usou as minhas fotos no HD, fiquem sabendo: eu não consigo desencriptar nada sozinha. — Olhei de relance para o black hat maior, apoiado no frame da porta. A sombra da máscara atrapalhava demais a ler os olhos, mas ele parecia mais interessado no que eu dizia do que o adolescente. — MAS existe uma chave física. Um pendrive. Vou pegar, e ninguém se mexe enquanto isso, combinado? — Tateei a cômoda sem tirar os olhos do black hat que me encarava bem na minha frente.
Eu não tinha a chave comigo. Jake sempre a carregava com ele, então, pra ganhar tempo, pesquei no bolso da jaqueta o meu pingente localizador. Aproveitei pra olhar a gaveta. Jake tinha esvaziado os bolsos ali.
E eu usei o moletom dele aquele dia... quando peguei o bilhete úmido e abarrotado do banco da varanda.
— ...Estão vendo? — balancei o localizador no ar e depois fechei o punho, sem nunca baixar a arma leve e fria. — Mas eu só vou entregar se vocês saírem da casa. Não quero chamar atenção de ninguém com barulho de tiro, nem sujar as paredes de sangue. O lugar é alugado, sabe?
O black hat menor olhou para o colega no frame da porta.
— Mentirosa. — A voz soou rouca e abafada por baixo da máscara, então não consegui saber de qual dos dois a acusação veio.
— Tô dizendo a verdade. — ergui o queixo. — O Jake deixou pra mim na Iron Splinter. Não entreguei pra polícia porque também quero o dinheiro do HD. Mas pode ser só uma parte, já vocês tiveram todo o trabalho de roubar ele do David.
O Black Hat mais magro se curvou, deixando uma risada seca e assobiada vazar da máscara. Então deu um, dois, três passos na minha direção, mas continuei com o braço esticado, a ponta da arma encostando na bochecha rosada de plástico.
Ele sabe? Que a arma não está carregada? Como?
Tem que ter outro jeito de escapar. Ou pelo menos ajudar os meninos a me encontrar. Mas agora eu já havia mostrado o localizador! Vai ser como Jake disse; assim que eles identificarem o que o pingente realmente é, vão tomar de mim e me levar sem deixar pistas...
Nunca vou ver Phil e Jake de novo, não é?
Plano D então.
D de desespero.
— Eu só não atirei ainda porque quero o dinheiro. — Segurei o pingente com tanta força que os cantos do cubinho dourado machucaram a minha pele. Eu precisava de um milagre. Mas meu coração sabia que eu nunca esperava milagres. — Se não tem acordo... Ninguém vai ter chave nenhuma.
— O quê cê tá...—- — o black hat mais alto deu um passo largo e desesperado para dentro do quarto, mas já era tarde.
Eu tinha jogado o localizador no fundo da garganta e engolido de uma vez, como se fosse um shot, gelado e amargo, com os cantos pontudos arranhando a garganta.
O black hat menor se assustou e prensou o meu braço contra a parede, me imobilizando enquanto o outro apertava o meu pescoço e forçava a minha mandíbula a se abrir.
A pressão dos dedos dele contra os meus dentes não era nada. Jake fazia pior com um carinho. Mas a proximidade daquelas mãos levantou um aroma amargo e terroso que eu conhecia por instinto.
Terra molhada e raízes de centáurea.
Então a lembrança do moletom estava certa.
— Eu menti. — minha voz saiu esganiçada — Isso é localizador. Se você me levar, todo mundo vai saber, William.
Os dois congelaram. William me encarou antes de olhar para o adolescente, que já deixava o meu braço escapar. Ouvi o suspiro pesado atrás da máscara, e William agarrou os meus pulsos.
— Mesmo se você estiver falando a verdade, -- o que seria bastante raro vindo de você -- um localizador não funcionaria no estômago. — William segurou as minhas mãos juntas entre os dedos, pegou uma fita prateada no bolso e colou meus pulsos juntos, partindo a fita com os dentes.
— Não é um localizador normal! — Eu disse, lutando o peso do ombro de William me prensando contra parede enquanto ele arrancava outra tira de fita prateada.
— Esse foi feito especialmente pra mim! Tô dizendo! Vão me encontrar em cinco minutos! — Ele colou a fita na minha boca, apertando a pele e minha nuca para me arrastar para fora.
Me joguei no chão, resistindo o quanto podia.
— "Cinco minutos"... Pega o celular dela! RÁPIDO. — Ele apontou para o adolescente, que saiu tropeçando do quarto para a sala. William agarrou o meu tornozelo e foi me arrastando até a lavanderia. No caminho, arranquei a gaveta da cômoda e arrastei a palma pelo bilhete de agradecimento de William.
Ele não se importou e continuou me arrastando pelo chão, até eu agarrar a perna da cama; no lado que Jake dormia. O chão rangeu alto com a força que ele me puxou contra a força com que me segurei, fingindo que só queria retardar o meu sequestro enquanto prendia o bilhete entre a madeira e o chão.
Quando um baque repentino e forte me atingiu direto no estômago. O black hat melhor tinha me chutado.
Aquilo sim, era ficar sem ar.
A partir daí, não lutei mais. Dor, choque, medo... fiquei arfando, encolhida quando William me tirou do chão, me carregou até a caminhonete e me jogou no chão do passageiro.
— E o Jammer? — Ele perguntou, e o parceiro deu dois tapinhas em um bloco preto retangular.
Eles têm um Jammer?
Eu devia ter pensado-- nisso antes...
Ouvi a partida alta e barulhenta da caminhonete velha, e o black hat colocou um saco de tecido no meu rosto.
Consegui manter a calma por três segundos—- Três. Antes de sentir o ar faltar, abafado com o tecido grudando no meu nariz e minha boca vedada. Me debati como um peixe fora d'água, apavorada com a ideia de me morrer sufocada por acidente antes do cansaço e o calor escaldante do chassi me deixarem tão letárgica quanto um paciente de hospital entupido de anestésico.
Nem tive tempo de prometer nada a ele...