Seus cabelos estavam tingidos de roxo naquele dia. Continuavam macios como sempre, e Luke não poderia ter gostado mais. Na verdade, Luke gosta de tudo em Michael. Tudo mesmo. Cada pequeno pedacinho dele. Seja seus cabelos falsamente bagunçados, seus lábios vermelhos ou seu complexo sobre o próprio corpo. Ele era uma bagunça harmoniosa, que conforta-nos apenas em observá-lo. Não haviam palavras exatas para descrevê-lo, apesar do esforço de Luke.
Luke nunca parou para pensar sobre isso, sabe? Ele sempre afastou o sentimento, tentando negar e mascarar, mas em seu interior ele sabia que a batalha travada contra seu amor por Michael seria perdida de modo humilhante. Nisso, Luke era apenas um guerreiro de gênio fraco em meio a um turbilhão de pensamentos, hábeis em confundir seus sentidos.
Não pense que amar Michael era algo fácil. Ainda mais na situação de Luke. Ele não podia amar Michael. Não podia nutrir um sentimento que acabaria o fazendo definhar de dentro para fora. Não podia, sabendo de como o sentimento que fazia seu coração incendiar também o faria arder em agonia. Ele sequer entendia porquê se sentia assim. Só doía. Doía bastante. Amar Michael com cada átomo do seu ser, cada gota de sangue que corria por suas veias e cada sinapse em suas terminações nervosas. Michael era parte dele, e nada mudaria isso. Michael não sabia disso, mas que mal faz fantasiar algo para sua satisfação? Satisfação não, ilusão. Luke era perfeitamente enrolado e confundido com cenas sobre eles que aconteciam apenas em sua mente, mas capazes de fazer ele pensar que eram lembranças reais. Michael sequer sabia do que passava pela cabeça de Luke. Nunca parou pra pensar, e também não importava. Não fazia diferença, porque ele nunca ia sentir o mesmo que Luke sentia. No fucking way.
Luke poderia se perder por horas, desligar-se do mundo apenas admirando Michael. Ele era uma obra-prima. Feita em perfeição, harmoniosa e a representação do equilíbrio. Tudo bem, sua personalidade não era bem assim, mas vê-lo dormindo fez Luke tirar essas conclusões. Michael é capaz de fazer você querer imprimir fotos dele e colá-las por todo o seu quarto. Ele é capaz de fazer você querê-lo do lado em todos os 86400 segundos do dia, apenas o ouvindo e vendo, acompanhando aquele amontoado de rebeldia e tinta capilar. Aquele reboliço inconstante de sentimentos que é capaz de fazer você querer descobrir tudo. A verdade é que você nunca vai. Ninguém nunca conhecerá Michael por inteiro. Nem ele mesmo conhecia.
Luke não se preocupa com isso. Apesar de doer, Luke está satisfeito em apenas ele ter conhecimento dessa bagunça que passa no seu coração. Ele não espera ser correspondido, para ser sincero. Amar vem de você, e cabe apenas a você esperar que a recíproca seja verdadeira. Amar assim é estar em uma barco sozinho, girando o barco em círculos sem chegar a lugar algum. É necessário dois para que avance. É necessário dois remos para sair do lugar. Para evoluir. É necessário outra pessoa remando. Luke não sabe sobreviver sozinho no barco. Ele não sabe como lidar com isso se um dia o barco virar e ele cair. E isso vai acontecer um dia, sem dúvida. Ele não sabe nadar. Tudo que ele fará vai ser assistir a superfície se afastar e entregar-se ao escuro e afogamento. Sentir cada centímetro da sua pele ser corroído e a dor sendo substituída pelo vazio. Outra vez, está se deixando levar por suas inseguranças. Não há apenas ele no mundo, Luke. Para ele sim, mas não é bem assim que funciona. São sete bilhões de pessoas partilhando esse planeta com você. Ninguém é insubstituível. É preciso controle. Controle o seu barco, Luke. Aprenda a nadar. Viva para você. Esqueça-o.
Luke não conseguiria. Ele nunca conseguiria.
"Reme comigo." Luke sussurrou para o garoto adormecido em seu colo.