PRÓLOGO - APENAS UM SONHO?

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O céu estava completamente encoberto por nuvens, e a manhã de domingo amanhecera chuvosa. As gotas batiam contra a janela e deslizavam lentamente pelo vidro, acompanhadas pelo som do vento que soprava lá fora. Deitada em sua cama, Alessandra se deixava envolver pelo clima aconchegante. O corpo enrolado nos lençóis formava um casulo quente e confortável, enquanto o rosto afundado no travesseiro a mantinha em um estado de quase transe, imersa em uma sensação profunda, entre o sono e a vigília. Acima dela, o som dos roncos do irmão quebrava o silêncio do quarto.

O espaço era pequeno, uma beliche dividia o ambiente e, apesar da bagunça espalhada, o quarto tinha seu charme acolhedor. Ela não dormia de fato, mas também não estava desperta. Presa entre o barulho da chuva, o vento e os trovões, mergulhava em uma espécie de êxtase hipnótico, onde realidade e sonho se confundiam.

Em meio a esse estado, ela sentiu o frio do piso sob seus pés, embora não tivesse consciência de ter se levantado. Sentada na beira da cama, olhou ao redor. Sobre a mesinha, repousava o computador simples, mas útil, cercado por livros empoeirados, folhas soltas e desenhos colados nas paredes. Canetas e lápis de diferentes tipos denunciavam sua paixão pela arte.

De olhos fechados, movida por algo inexplicável, abriu a gaveta e puxou uma folha de ofício. Deitou-se no chão gelado, ainda com a camiseta larga do Guns N' Roses - presente de sua melhor amiga, Jully - e começou a rabiscar. Os traços saíam rápidos, intensos, sem qualquer pausa. Primeiro pareciam confusos, arredondados, sem lógica. Aos poucos, porém, foram tomando forma.

Um cenário de completa destruição surgia no papel: carros em chamas, corpos espalhados, manchas escuras que lembravam sangue derramado por toda parte. O caos revelava-se como a queda de um avião no coração de uma grande cidade. Sem perceber, Alessandra desmaiou sobre o chão frio, ainda com o grafite preso em seus dedos.

 Sem perceber, Alessandra desmaiou sobre o chão frio, ainda com o grafite preso em seus dedos

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- San! San, o que você está fazendo aí?!

A voz do irmão soou distante, enquanto uma forte dor de cabeça a despertava. O relógio do celular marcava 11h30. Quando abriu um dos olhos, viu-se deitada no chão, o papel ao lado, rabiscado com aquela cena macabra, e o lápis ainda preso em sua mão.

- Oi... Nick... - murmurou, chamando-o pelo apelido carinhoso.

- O que você está fazendo aí, no chão? - perguntou Henrique, assustado. Ele a balançava, preocupado, pois jamais havia visto a irmã dar sinais de sonambulismo.

- Eu... não sei... minha cabeça dói... - respondeu, tentando se sentar aos pés da cama.

A chuva havia cessado e o sol brilhava forte lá fora. Zonzo, o corpo pedia descanso, mas ela abriu a janela e observou os becos e vielas que levavam até a rua principal. Poucas pessoas caminhavam por ali.

- Ei, eu sabia que você desenhava, mas não essas coisas estranhas - disse Henrique, franzindo a testa. Ele segurava a folha rabiscada com uma mistura de espanto e curiosidade. - Que viagem é essa, San?

- Hã...? Eu não fiz isso! - respondeu, assustada.

- Ah, então foi quem? Eu até desenho, mas nunca dormindo! - ele riu, girando o papel como se buscasse sentido naquilo.

- Eu não... lembro - murmurou, levando a mão à testa. - Espera um pouco.

Levantou-se e foi até o banheiro. Encara-se no espelho: a pele negra parecia ainda mais pálida, os cabelos cacheados caíam em desordem, cobrindo metade do rosto, e os olhos castanhos, profundos, refletiam um ar de mistério. Molhou o rosto com água fria, tentando despertar, e voltou apressada ao quarto.

- Deixa eu ver, Nick! - arrancou o papel das mãos dele e observou os traços com mais atenção. - Meu Deus...

- O que foi, San? - ele a encarava, intrigado.

Com a respiração acelerada, ela percebeu a verdade. A cena desenhada era idêntica ao pesadelo que tivera momentos antes.

- Eu sonhei com isso... - disse, com a voz embargada.

Henrique, incrédulo, levantou-se irritado.

- Você só pode estar brincando comigo, né? Eu achei que você tivesse desmaiado de verdade, fiquei preocupado! E no fim era só um sonho? - reclamou, saindo do quarto e batendo a porta com força.

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Três dias se passaram desde aquele episódio. Era quarta-feira, e Alessandra voltava da escola exausta. Enquanto caminhava, falava ao telefone com Jully.

- Tá certo, sua besta... também te amo. Mas vou desligar, cheguei em casa agora.

Abriu a porta e foi recebida por seus cachorros, sempre animados. Mas estranhou o silêncio da casa: todos estavam reunidos na sala, fixos diante da televisão.

- Noticiário em família? - ela brincou, mas a expressão séria de sua mãe a cortou no mesmo instante.

- Venha ver essa tragédia - disse a mulher, com voz grave.

Alessandra se aproximou do sofá. Na tela, a reportagem transmitia imagens de São Paulo: um avião com 120 passageiros havia perdido o controle e caído no centro da cidade, destruindo prédios e casas. A explosão resultara em 355 mortos.

O sangue lhe gelou nas veias. As imagens que passavam eram as mesmas que estavam em seu desenho. Não era apenas uma semelhança. Eram idênticas.

Era o seu desenho.

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