Quando finalmente despertou, Mateus se assustou ao ver os olhos vermelho-esbugalhados da namorada injetando sobre o seu rosto um irrequieto par de íris castanhas.
O seu vulto feminino flutuava logo acima dele, feito um pássaro de longas asas negras e ansiosas. Os volumosos cabelos de Camila caiam-lhe quase pela cara e obscurecia ainda mais a visão que Mateus tinha da penumbra do seu quarto. Do seu rosto encoberto emanava um calor febril que ardia em pequenas lufadas junto com a sua respiração acelerada.
Todo aquele emaranhado de formas noturnas recortava do teto do apartamento de Mateus um negativo contra a luz bruxuleante das lâmpadas de emergência do corredor térreo, luzes que, em caso de blackout, deveriam servir para indicar as rotas de fuga do prédio. Afinal, havia dobrado o valor do condomínio por causa daqueles malditos enfeites natalinos de segurança. Seria bom mesmo que funcionassem.
Aquilo que ali acontecia, pensou Mateus, poderia muito bem ser um sonho ruim, do tipo onde você acredita que acordou, mas aí se inicia o cronômetro do segundo tempo do pesadelo e você continua fodido. Como naquele filme do sonho dentro do sonho dentro de outros sonhos. Sonhos fodidos, porém. Várias camadas da mesma cebola onírica podre e fodida. "Primeiro a boca, depois os olhos", conjecturou Mateus consigo ao tentar focalizar as vistas na mulher que envolvia seu cabeça numa gaiola de braços.
Era como se afogar no escuro. "Merda", Mateus praguejou sem falar, sentindo o gosto de sangue na boca.
No meio da escuridão que em parte sua silhueta descabelada projetava, Camila inspecionou o rosto de Mateus, apertando os olhos como se procurasse uma moeda num bueiro.
_ Mateus?!_ a voz de Camila saiu rouca, num trôpego pela garganta sonolenta. Seus olhos ainda dançavam freneticamente nas órbitas se acostumando com a pouca luz que entrava pela janela do segundo andar e tentava fazer uma "avaliação de cenário", como aprendera no curso de socorrista.
Abaixo dela, o que podia ver, eram grossas sobrancelhas que faziam um zigue-zague sobre um nariz franzido, a cara de Mateus comprimida numa caricatura dolorosamente parecida com o Willy Coiote após ter a cabeça golpeada por uma bigorna ACME. Era quase engraçado. Por Deus, se não era.
Demorou pouco mais de um segundo até a mente de Camila se recuperar da letargia do sono. Ela tinha ouvido há não mais que duas semanas aquele mesmo som durante a madrugada. O riso de Mateus naquele dia, afetado e conciliador, ecoou na sua memória, tão claro quanto a imagem do sexo que fizeram depois do ocorrido.
Feito o sinal de emergência que se acende no painel de um carro prestes a pifar, a mente de Camila se acendeu. "Aconteceu de novo então", ela pensou.
Retesando os ombros, Camila afrouxou os braços torneados em volta de Mateus. Levantou o pescoço e endireitou as costas. Soltos, os cabelos desceram rente ao seu colo, emoldurando as clavículas marcadas, rolando numa cascata negra entre os seios quase nus.
Ainda entrecortada, a sua respiração havia descido para um padrão mais aceitável. Não pega bem uma motorista de ambulância se desesperar. Sabe como é.
Agora a luz porejava timidamente entre os dois.
Mateus ainda exibia a mesma expressão congelada de dor. Seu pomo-de-adão vibrava numa frequência baixa feito um motor em ponto morto num dia frio. Com força, ele havia apertado os lábios até descorarem, transformando a boca numa linha horizontal e cianótica.
_ Hum _ gemeu Mateus agudamente, num tom estranho e cômico, como se tivesse saboreado e aprovado o gosto de uma refeição chique. "Meus cumprimentos ao chefe" diriam os dois em outras circunstâncias.
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Silêncio
ParanormalO resultado de uma doença autoimune, o estresse da vida cotidiana ou poderia ainda ser algo, digamos, inexplicável?
