Existe no Brasil algo muito interessante chamado Capote. Quem já leu aquela história de Gogol vai imaginar um casaco com um capuz, que se usa normalmente por causa da chuva ou quando o frio é intenso. Mas não é desse tipo de capote que estou falando. É um animal. Em uma de suas férias Natália conheceu esse bichinho. A família foi visitar uns amigos numa fazenda, num lugar chamado Pedra Branca, um pouco distante da cidade onde moravam.Chegaram lá à noite, depois de viajar muitas horas. A estrada, sempre vazia, ficou mais vazia ainda depois que entraram em uma que não tinha mais asfalto. Ela teve medo de se perderem no meio do mato. Mas, como estavam seguindo o carro de uns amigos, pensava: "Eles devem saber onde estamos indo". Olhou para os irmãos sonolentos, ignorando completamente qualquer medo ou necessidade de saberem onde estavam.À noite, a única coisa realmente visível – ainda mais para uma criança sonolenta e assustada – era o alpendre da casa, iluminado por um lampião. Tinha uma escadinha estreita de três degraus, feitos com aquelas pedras de granito. Era da largura do pé de um adulto, mas, para ela, parecia suficientemente larga. Quando subiu as escadas, sentiu que havia entrado em outro mundo. O telhado não parecia muito alto e as telhas eram claras – conhecia telhas vermelhas, mas não daquela cor. A parede que perfazia todo o alpendre era larga e baixa o suficiente para deitar como se estivesse num sofá.A porta de entrada era pintada de azul. A tinta ainda deixava ver as linhas da madeira; ao ultrapassá-la dava para perceber que a parede era muito grossa, devia ter um metro de largura. Natália sentiu-se entrando em um daqueles casarões antigos das novelas. Dentro da casa fazia frio. Não tinha muita mobília: um sofá de três lugares, de couro peludo, uma mesinha com um vaso e algumas cadeiras. Uma senhora a levou até a cozinha e deu-lhe um copo com água. Estava com muita sede, foi uma viagem longa. Ela tirou a água de uma vasilha grande, feita de barro. Era um pote. A menina nunca tinha visto um pote na vida. A água era fresca e muito gostosa.Olhando para o teto num canto da cozinha, observou que tinha um botijão de gás pendurado, com uma lâmpada grudada nele. Mas ele não pegava fogo! Como isso era possível? Lembrava um coreto de praça: um teto azul, as colunas, uma proteção de vidro com uma luz dançando alegremente como um chumaço de algodão pegando fogo. Teve medo, muito medo. Nos dias seguintes evitaria passar perto daquilo, com receio de que ele resolvesse explodir exatamente quando ela passasse ao lado.A casa inteira tinha um cheiro que misturava barro, madeira, querosene e galinha cozida. Mas não é qualquer galinha: era galinha caipira. Ela tem um cheiro apimentado, cheiro de avó, cheiro de fazenda, de liberdade, de fantasia. De dar vontade de parar ali mesmo e ficar para o resto da vida. Mas ela e os outros precisavam jantar e dormir para conhecer o lugar no dia seguinte.Os donos da casa os acomodaram os visitantes nos quartos, divididos entre as mulheres da casa e as visitas. No alpendre ficaram todos os homens, incluindo os meninos. A menina pensava nos inúmeros perigos a que estariam vulneráveis. Dormir lá fora era o mesmo que dormir nas calçadas. Não seria perigoso? Não, disseram. Aqui tudo é calmo, sempre dormimos com as portas abertas. Era outro mundo.Por esse motivo, a janela do quarto também ficaria aberta. Deixaram uma vela acesa em cima de uma cômoda. Natália tinha medo de janelas abertas, tanto quanto de velas acesas. Nunca se acostumou com velas. Parecem saídas de filmes de terror. Quando falta energia, tem sempre algum perigo oculto nas sombras por detrás das portas. Ela passou a metade da noite com os olhos esbugalhados, olhando ora para a janela, ora para a porta, ora para a vela.Ela acordou cedo, com o canto rouco do galo e surpresa porque nada grave havia acontecido. Nem um ladrão ou mesmo um espírito da mata entrou pela janela. O vento fresco determinou-se a esfriar seus medos durante toda a noite. Sentiu muito frio. O cheiro gostoso do café já havia tomado conta da casa. Era a bênção da meia-parede, comum nas casas de fazenda. Uma forma de acordar toda a família com a alegria de um novo dia. Excelente convite do mundo para se viver com disposição!Natália sentou-se na cama e percebeu que todas já tinham levantado. Esfregou os olhos e calçou os chinelos. Não costumava acordar tão cedo. Enquanto procurava os chinelos, admirou-se por estar tão faminta.A fome é muito mais benevolente quando se está numa fazenda. Ela vem inteira, mas com a promessa de uma satisfação tão completa quanto. É que a comida parece feita de outra coisa que nas cidades. É uma substância misteriosa, com um poder de alimentar não apenas o corpo, mas também a alma. Comeram cuscuz e tomaram café. Tinha leite que foi tirado da vaca naquela manhã.- Vamos tomar banho no rio!Os filhos dos donos da casa faziam os planos para as traquinagens do dia. Tomariam banho de rio. "Que rio? Não vi nenhum", pensava Natália, tomando o restante do café na caneca de alumínio. Não viu nada mesmo na noite anterior, porque só a luz do lampião na varanda não foi suficiente para que ela enxergasse ao redor. Tinha mesmo um rio indo por um caminho nos fundos da casa. Eles andaram um pouco, passaram por uma cacimba que estava com a parede quebrada.- Ninguém mais chega perto. Uma mulher morreu afogada aí. Ela caiu e ficou com o pé preso num galho que tem no fundo.- Como vocês sabem que tem um galho no fundo?- Eu não sei, os adultos que disseram.- Se jogar um balde dá pra chegar até o fundo.- Então, como a mulher se afogou?- Oxe... Era mais cheia na época.Ela sentiu um arrepio, parecia ver a mulher espiando abaixada, por detrás da parede da cacimba. Eles continuaram a andar. O estreito caminho agora estava ladeado de flores. Algumas árvores baixinhas, cajueiros, uma mangueira ali e outra acolá, e, água!Era uma correnteza barrenta, marrom. Parecia um rio de cappuccino. As margens estavam cheias de plantas, mas não tinha lugar onde sentar e nem mesmo pra se encostar, sem ficar com os pés na beirada afundados no barro encharcado. Dava a impressão de ver as raízes das árvores experimentando a temperatura da água, indecisas ainda se mergulhavam ou não. As crianças começaram a tirar os chinelos.- Não pode ir para o meio, a correnteza lá é forte.- É melhor ficar aqui perto.Ficaram no mesmo lado da margem em que desceram. Próximos à subida do caminho pelo qual tinham vindo. O barro vermelho enlameava no contato com a água. Parecia argila para fazer potes de barro, como aquele da cozinha, cheio de água.- Tem um local na margem do rio onde eles pegam barro pra fazer potes e panelas.- Como eu imaginei... – disse Natália, quase em pensamento.Ela sentia como se tivesse se enfiando em um charco, afundando numa gosma, que, infelizmente, não tinha gosto de cappuccino – Argh!. Nunca tinha entrado num rio e tinha que ser justamente daquela cor? Nos filmes os rios eram quase transparentes. Porque a água ali não poderia ser do mesmo jeito?- Essa água não é contaminada?- Não! É claro que não!- Ei, vamos lá ver se tem jenipapo?- O quê? – Quinzinho olhou com cara de quem tivesse ouvido um palavrão.- Jenipapo. É uma fruta. Vai dizer que vocês não conhecem?Artur, filho do dono da casa riu deles. Argos parecia pensativo. Como alguém não conhece Jenipapo?- Vamos lá. – concordaram todos.Saíram do rio pingando bicas e foram enlameando o caminho estreito de barro. Caminharam até a trilha ao lado da casa e atravessaram a pequena ponte de madeira. "Não vi isso ontem à noite", pensava Natália, "é capaz de alguém cair aqui se inventar de caminhar à noite nesse lugar", ela apoiou os pés na madeira velha, com certo receio.- Vamos ter que passar perto da cerca. Cuidado com o touro.- TOURO!?!? – gritaram Natália e Quinzinho.- Ainda bem que ninguém tá de vermelho – falou Argos.As crianças caíram na gargalhada. Ernesto prometeu dar um 'olé' no touro. Quando passaram perto da cerca, avistaram as vacas ao longe, alheias e preguiçosas. Nada do tal animal feroz e assustador, com chifres de dois metros.- Conversa que tem esse touro gigante. – Quinzinho estava desolado, chutando as folhas secas no chão.- Ai! – Natália sentiu os espinhos de carrapicho nas pernas.- Se ele não está perto, a gente pode aproveitar e passar por dentro da cerca, que fica mais perto pra chegar até o pé de jenipapo. – Artur falava sério como um adulto.- É mesmo, senão teremos que dar a volta. – Argos falava, olhando distante.O sol estava quase a pino. Ainda não era meio-dia, e, mesmo tendo tomado banho no rio, estavam suando muito. Natália tentava se refrescar abanando-se com uma folha grande que tinha pegado de alguma planta. Nem sabia que planta era aquela.- Isso aí é folha de croc. O leite dela queima.Ela olhou a folha assustada, e largou. Eles caminhavam tranquilos, quando alguém apontou e berrou:- O touro tá vindo pra cá! Corre!Eles mais gritavam do que corriam. Estavam a uns cinco metros do arame farpado. Mas teriam que atravessar aquelas pontas afiadas! Alguém segurou para que os outros passassem. Natália foi a última. Deixou quase metade da blusa na cerca.- Droga! Rasgou o fundo do meu calção! – Artur berrou, quase chorando.- Arranhei o braço.Quinzinho estava com a cara vermelha. Não dava pra saber se era da corrida ou porque estava chorando. Ele tinha se arranhado feio.- E o jenipapo? – Natália parecia não ligar para o sofrimento da corrida. Afinal, foi pra isso que se arriscaram.- É bem ali. – apontou Argos.Era uma árvore imensa, com folhas escuras. O tronco era tão largo que parecia ter mais de cem anos. Tinha tantos caminhos de cupim no tronco que ela estava quase listrada. Os frutos eram marrons e, no chão, parecia um lameiro.- Que cheiro horrível! – Natália já fechava o nariz com a gola da blusa.- É bem a Lilica que está fedendo! – Argos olhava implicante para a irmã.Os meninos já troçavam. Ela tinha caído no chão na fuga por causa do touro e, como estava ainda muito molhada do banho no rio, parecia saída de um filme apocalíptico.- Abestados! Vocês tão muito limpos, né?Natália olhava para os frutos no chão, incrédula. Eles pareciam uma gosma de um marrom amarelado e malcheirosa. Ela estava enojada.- Alguém come isso?Gelatina lhe dava nojo, imagine um negócio daqueles. Lilica adorava e já estava escolhendo, planejando qual derrubaria primeiro. Artur achou um galho comprido e cutucava uma fruta que estava mais acessível ao tamanho dele.- Você tem que experimentar antes de ficar com essa cara de megera. – falou Lilica, sem se distrair de sua atividade.- Tá brincando? Eu não vou comer isso!- Nunca ouviu falar que os melhores licores são os de jenipapo? – Argos falava com um ar de sério.- E daí? Que diferença faz? Eu não bebo licor!- Só podia ser gente da cidade mesmo... – disparou Artur.- Nada a ver.- Tudo a ver.Argos estava aborrecido. Esse povo da cidade não entende nada mesmo. Vivem trancados em suas casas, deitados na cama e jogando vídeo game. Não entendem nada da vida, de correr, de plantas ou de bichos. É uma velha história que mais parece coisa do futuro. Eles por acaso não sabem de onde vem a comida que comem?- Da fábrica. – Quinzinho fez troça.- Quero saber quando não tiver ninguém pra plantar a comida de vocês.Natália sentiu vergonha de si mesma, por ter sido tão clara na sua manifestação de asco. Ela tinha nojo de tudo, mas nada justificava sua atitude. Argos tinha razão sobre as pessoas da cidade. Ela mesma não fazia ideia de como cuidar de uma árvore. Mas, árvores crescem naturalmente nas florestas – elas precisam das pessoas das cidades?- Se não tiver gente pra plantar, os cientistas e tecnólogos vão cuidar disso. Não vai faltar comida se faltarem pessoas na roça.Todos olharam incrédulos para Ernesto. Essa foi a coisa mais cruel que eles tinham ouvido em suas vidas, até mesmo seus irmãos Quinzinho e Natália não acreditaram. E por acaso plantas nascem nos pisos frios dos laboratórios?- É o que você pensa. Mas, garanto pra você que nenhum ser humano pode viver sem conhecer nada da natureza. Somos humanos quando somos capazes de conhecer e respeitar a vida. Fora isso, seremos projetos de máquinas.Argos calou a todos. Estava com o rosto avermelhado. Era alvo demais e seus olhos azuis pareciam quase brancos debaixo daquele sol intenso. Era um garoto de quatorze anos, mas parecia ter a sabedoria de um idoso e a tranquilidade de um gigante. Voltaram para casa, silenciosos. Sentaram no alpendre para descansar do calor e ficaram assim, reflexivos. Os adultos tinham saído para percorrer, de carro, a propriedade.A dona da casa mandou a criançada tomar banho. Demoraram mais de uma hora nessa atividade. Mas, enfim, banhados e frescos, foram chamados para sentarem-se à mesa e almoçar. A refeição preparada tinha muitas opções. Entre arroz, baião de dois, farofa, pirão e galinha frita, um guisado chamou a atenção de Natália. Parecia galinha, mas os ossinhos eram esbranquiçados e muito fininhos. Dava até pra se furar neles se não tivesse cuidado.- O que é isso dona Mirtes?- Ah, isso é Capote.- O quê?Natália já estava de olhos arregalados e fixados nos ossinhos finos.- Capote é um bicho que parece galinha e tem gosto parecido com galinha. Ele tem penas pretas e cinzas, com bolinhas brancas.- É, e ele vive com fome! – troçou Artur.Os filhos da dona Mirtes riram. Natália ainda estava com os olhos pregados nos ossinhos, tentando imaginar o dono deles.- Vocês não dão comida pra eles? – perguntou Quinzinho, surpreso.- Claro que damos! É que ele é um bicho que sofre de baixa autoestima. Vive gritando "Tô fraco! Tô fraco! Tô fraco!".Agora era Quinzinho que estava com cara de palerma. Ernesto não parecia escutar a conversa, ocupava-se em comer. Já enchia o segundo prato, enquanto Natália não tinha comido uma única colher.- Depois do almoço eu mostro pra vocês. – Artur falou, engolindo uma colher de pirão.Quando terminaram foram até o alpendre, onde os adultos já estavam conversando, deitados em redes. Cinco redes armadas, coloridas, davam ao lugar um aspecto ainda mais alegre. Um verdadeiro convite ao descanso do corpo e da mente. Eles foram almoçar e as crianças tomaram seus lugares. Começou uma barulheira de gargalhadas enquanto eles disputavam quem balançava mais alto. Ernesto deitou-se na última, perto de uma coluna, no lado mais afastado.Artur, Argos, Lilica, Natália e Quinzinho foram ver o cercado onde estavam os capotes.- Eles também são chamados de galinha d'Angola.- Galinha de onde? – Natália, sempre com curiosidades específicas.- Angola. É um país africano. Eles vieram de lá, em navios. – Argos falava com ares de inteligente.- Que bicho engraçado. Tão redondo!- Vamos jogar bola!- Vamos!Começou a correria.Ernesto havia dormido por meia-hora e não foi com os meninos ao cercado dos capotes, mas acordou a tempo de juntar-se a eles para jogar. Alguns adultos também se dispuseram e entraram na brincadeira. O calor tinha amenizado. Depois do futebol, resolveram jogar vôlei. Natália sacou e Ernesto, no outro time, rebateu com tanta força que a bola foi muito longe.- Atravessou a cerca!- Acho que está no cercado dos capotes!- Vai pegar Ernesto! É culpa sua!Argos correu na frente. Saltou a cerca com agilidade. Enquanto isso, Ernesto caminhava devagar, com má vontade.- Cadê a bola? Achou?- Não. Pensei que pudesse estar aqui. Veja do outro lado.Por fora da cerca, os meninos observavam os capotes que estavam nervosos, correndo de um lado para o outro.- Nada. – falou Ernesto, aborrecido.- Acho que um dos capotes deve ter engolido.- Quê!? – Ernesto voltou-se de uma vez para Argos, olhando-o como se quisesse fulminá-lo.Um "Uau!" em coro veio do lado de fora da cerca. As crianças estavam agora admiradas, olhando para aqueles bichinhos.- É... Não tá vendo? Porque acha que são redondos? Eles se aproveitam e engolem. Eles gostam de engolir bolas de futebol.- Eu tenho cara de criança pra você contar uma história absurda dessas?- Tô falando sério. Um dos capotes engoliu a bola.- Com essas cabecinhas mixurucas? Nem pensar. Idiotice!- Elas esticam. Como as jiboias. E depois voltam ao normal.Ernesto olhou por um instante para os capotes. De fato, era um bicho esquisito, muito redondo. Parecia eternamente assustado e com cara de maníaco. Entre a meninada, Anderson, o mais novo de apenas cinco anos, já começava a abrir o berreiro. A bola que estavam usando na brincadeira era dele.- Calma... Calma. Era só brincadeira. Aqui está a bola.O menino sorriu e enxugou uma lágrima com as costas da mão esquerda. Ernesto ficou ali, embasbacado com a invenção de Argos e a anatomia do capote.
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A anatomia do Capote
ContoCrianças se reúnem em uma extasiante brincadeira, num sítio no interior do sertão. Um deles irá descobrir que a diferença entre crianças do interior e da cidade é bem mais complexa do que poderia imaginar. O livro completo com várias histórias está...
