A guerra tinha chegado ao fim. Finalmente o mundo bruxo podia deitar suas cabeças em seus respectivos travesseiros e dormir em paz. Sem medo de que o temido Lorde das Trevas retornasse. O menino que sobreviveu havia, de fato, sobrevivido mais uma vez e salvado a todos.
Harry havia se tornado um herói. Amado e adorado, ele havia se tornado um símbolo de força, coragem e esperança. E agora mais do que nunca ele era aquele sobre o qual os pais falavam sobre quando seus filhos pequenos tinham pesadelos.
No entanto, poucos se questionam sobre os pesadelos do próprio Harry, que acima de tudo era apenas um garoto quando tudo aconteceu. Não que as pessoas pudessem ser culpadas por pensar assim, já que é comum se esquecer desses detalhes sobre alguém que parece tão inalcançável.
Poucos sabiam que mesmo depois de a guerra ter sido ganha, ele travava suas próprias batalhas todos os dias. Seja comer, dormir ou socializar; eram pequenas batalhas que ele travava consigo mesmo. E ainda assim tinha dias em que ele simplesmente não conseguia sair de sua cama. Em alguns dias ele sentia como se um dementador estivesse bem ali, sugando dele toda a felicidade que pudesse ter restado.
Mesmo tempos depois, as vezes ele ainda se sentia... Perdido. Como se uma parte de sua alma, mesmo depois de se livrar daquele maldito pedaço de horcrux, tivesse realmente morrido ou continuado naquela estação de trem com Dumbledore andando infinitamente... E sempre parecia que faltava alguma coisa.
Ainda se lembrava da profunda depressão em que ingressou nos meses seguintes à Grande Guerra. O frio em seu coração, a consciência de que não tinha família. A culpa pela morte de todas aquelas pessoas. A solidão esmagadora que fazia seu peito arder em um fogo frio e lento... Um vazio que não se preenchia nem com o sorriso do pequeno Teddy, seu afilhado.
Poucas coisas faziam Harry querer lutar. Poucas coisas o faziam levantar da cama todos os dias, mas em dias como esse... Em dias como esse ficava impossível sequer chorar. Era como se ele estivesse seco... Completamente drenado de lágrimas, como se até mesmo elas o tivessem abandonado. Hoje era aniversário da morte de Sirius. Não era apenas essa a questão que o fazia se sentir assim. O fato é que durante o ano existem muitos aniversários de morte. Seus pais, Cedrico, Sirius, Dumbledore, Fred, Tonks e Lupin e até mesmo Snape... E esses últimos eram no mesmo dia. No aniversário da vitória. E claro, todos os outros. Tantos nomes... Tantos que morreram... Como disse o Lord mesmo? Que morreram no lugar de Harry antes que o mesmo se entregasse ao seu destino.
Em dias como esse, Harry se tornava obcecado com o "e se?". E se ele tivesse sido mais rápido e dissesse o feitiço mais agilidade quando Rabicho matou Cedrico bem na sua frente? E se ele não tivesse agido com tanta impulsividade no dia em que Sirius morreu? E se ele apenas tivesse parado um segundo a mais para pensar... Ou então, e se ele tivesse aceitado seu destino antes? Quantas daquelas pessoas teriam um destino diferente? Talvez Jorge não evitasse se olhar no espelho, com medo de seu próprio reflexo. Talvez Teddy pudesse crescer tendo seus pais. Então, talvez, só talvez...
Nesses dias Harry tinha medo de tudo. Medo das sombras nos cantos escuros, dos passos no corredor. Do silêncio na sua cabeça... Medo de amar seu afilhado, sua futura esposa, seus amigos e... Bom, ele TINHA uma família. Os Weasley. Eles sempre o acolheram como uma família de verdade, mas é que em dias como esse ele não se lembrava... Ou tinha medo de lembrar. Na verdade, ele tinha medo até de amar a luz do sol que entrava e brincava com seus olhos pela janela aberta. Ele tinha medo de que se amasse... Tudo seria tirado dele novamente.
E era em dias como este que Hermione e Rony invadiam seu quarto e ignoravam qualquer objeção da parte do mesmo. O ouviam gritar com lágrimas nos olhos e com a garganta apertada, e deixavam que ele atirasse coisas pelo quarto até que caísse de joelhos em prantos. E então, com a porta fechada eles o abraçavam. E assim permaneciam até depois de suas pernas ficarem dormentes. Em dias como esse, nem mesmo Gina se intrometia, mesmo estando com o coração na mão por vê-lo daquele jeito.
Todos sofreram perdas com a guerra, principalmente Harry, mas ninguém o entendia melhor que aqueles dois. "O trio de ouro" estavam sempre juntos. Eles entendiam o desespero, a dor e a culpa... E então, depois de se cansar de ficar no chão, eles se sentavam na cama e ficavam lá... Apenas lá. Demonstrando sem palavras que estavam ali um para o outro, os três sentiam que poderiam perder tudo, até a si mesmos como Harry já experimentara, mas nunca perderiam um ao outro. Em dias como esse Harry agradecia a qualquer deus que pudesse existir por tê-los.
Em dias como esse, Harry reaprendia a lutar contra o medo. Reaprendia a sorrir com a risada do pequeno Teddy. A rir das implicâncias de Mione com a falta de tato do Ron. Reaprendia a suspirar de admiração ao ver como o sol deixava o cabelo de Gina mais brilhante. A se sentir querido como um filho quando Molly ralhava para que comesse mais, e Arthur - que ainda não entendia a função de um patinho de borracha - falava sobre seu novo projeto de um carro voador com um sorriso louco nos lábios. E revirava os olhos quando Jorge implicava com seus cabelos e Percy ria discretamente. Em dias como esse ele se lembrava desesperadamente que ele tinha sim pelo que continuar. Em dias como esse todos descobriam novos motivos para lutar. E reaprendiam que toda a sua luta e as suas perdas não foram em vão.
Em dias como esse, Harry se sentia sozinho e cheio ao mesmo tempo. Ele sentia o vazio se preenchendo com o amor dessas pessoas que nunca o abandonariam. Ele se sentia triste ao acordar e então leve ao ir dormir, sabendo que todos eles estariam lá novamente no dia seguinte. E Harry se sentia triste e feliz ao mesmo tempo na maior parte dele. E já havia desistido de tentar entender como isso funcionava, mas sabia que enquanto houvesse amor no mundo, ainda haveria esperança.
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Post War
FanfictionEm dias como esse, Harry precisava lutar para reencontrar um motivo para sorrir.
