Alita Santeiro nunca se sentiu completamente pertencente ao mundo em que nasceu.
Aos vinte anos, sua vida é aparentemente comum: faculdade, trabalho na biblioteca, uma melhor amiga e as pequenas fugas que encontra entre livros, trilhas e o misterios...
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Eu não lembro exatamente quando comecei a subir naquela torre. Mas lembro da primeira vez que senti que precisava. É diferente, não é vontade, não é escolha...
É como se alguma coisa dentro de mim me empurrasse, insistisse, puxasse por um lugar que eu nem sabia que existia, até não conseguir mais ignorar e fingir que nada estava acontecendo.
Naquela noite, o vento estava mais frio do que o normal. Cortante. Sentia como se pontas de gelo afiadas invadissem incessantemente a minha pele escaldante e trêmula.
Subi os primeiros degraus com cuidado, apoiando a mão na estrutura enferrujada. O metal rangia a cada passo, como se reclamasse da minha presença ali. O som ecoava no vazio ao redor, alto demais para um lugar que parecia... esquecido.
A torre ficava afastada o suficiente da cidade para que ninguém viesse por acaso. E mesmo que soubessem onde encontrá-la, seria extremamente difícil chegar até ela, não sem algum esforço. Era preciso querer.
Ou precisar.
E eu precisava.
Sempre precisava.
Não sei explicar o que me levava até lá. Não era bonito. Não era confortável. Não era seguro e muito menos aconchegante. Era frio, esteticamente feio e perigoso.
Mas, ainda assim, era o único lugar onde minha cabeça ficava em silêncio. Ou pelo menos... menos barulhenta. Sem ruídos, talvez.
Continuei subindo aquela escada íngreme e enferrujada. Dez metros. Ou até mais.
O vento aumentava conforme eu me aproximava do topo, puxando meu cabelo para trás, gelando meu rosto, invadindo a roupa como se quisesse atravessar minha pele. Quando alcancei a plataforma, segurei firme na grade antes de dar o último passo.
O ferro estava frio. Quase congelado. Senti a minha mão queimar com o contato. Era uma dor bem-vinda naquele momento.
Soltei o ar devagar, apoiando o peso do corpo ali, olhando a cidade ao longe.
Pequena.
Distante.
Insignificante.
Luzes espalhadas como se fossem suficientes para iluminar alguma coisa. Mas não eram. Nunca eram. Apenas uma ilusão criada para gerar conforto e aceitação.
Fechei os olhos por um segundo. Respirei fundo. E, pela primeira vez naquele dia... meu peito não parecia tão apertado. Senti até uma estranha calma brotar em meu interior, como se finalmente os meus fantasmas tivessem encontrado paz.
Não sei quanto tempo fiquei ali. Minutos. Talvez mais. O tempo naquele lugar sempre funcionava diferente, era antagônico ao resto do universo.