— Anda, olha pra cá.
Um tapa forte foi desferido na cara de João Paulo, aquilo o fez acordar de seu transe. Estava confuso, enquanto o policial fardado à sua frente o olhava com raiva. Ele segurava um cacetete, e o garoto conseguia ver o sangue pingar da arma.
— Eu não sei de nada senhor…
— Fala, porra. — O policial novamente bateu em João. — Cadê a droga? Você acha que um preto favelado como você teria condição de comprar aquilo?
Na parede estava a prancha nova de surfe que havia comprado, realmente um material caro para a condição financeira que o garoto tinha.
[ . . . ]
Naquela época do ano chovia bastante na cidade de Cocais, no Rio de Janeiro¹. O mar estava agitado aquele fim de tarde, e João Paulo estava saindo da escola. Planejou durante a semana inteira em descer de ônibus até o bar em que seu primo Marcos, de vinte anos, trabalhava. Marcos nunca ligou para os estudos, mesmo que João insistisse para seu único familiar próximo, além de seus pais, procurar ter um futuro bom, o jovem não queria. E então, conseguiu emprego em um bar na praia, dizia que era seu único. João Paulo nunca acreditou que aquele era somente o trabalho do primo, já que ele estava sempre usando relógios, joias e roupas caras. Não que Marcos pudesse juntar seu dinheiro, ele sabia que não juntava, já que estava sempre gastando em bebidas e festas. João sabia que seu primo se envolvia com drogas.
Quando, finalmente, desceu no ponto de ônibus na avenida principal, andou durante dois quarteirões até o bar em que Marcos trabalhava. O local ficava na esquina, era pequeno e aconchegante. Seu primo estava lá, com a calça dobrada até os joelhos, usando chinelos, uma camisa branca e um pedaço de lenço amarrando os dreads; limpava a entrada do bar que logo iria abrir.
— Marcos?
— E aê, menor! — Marcos largou o esfregão e correu com os joelhos um pouco dobrados para não escorregar até o primo.
Abraçou João Paulo, deixando seu uniforme um pouco molhado de sabão. Ele não se importava, o mais novo era como um irmão para si.
— É aqui que você tá trabalhando? Parece legal.
João Paulo olhava o lugar. Definitivamente, se um dia conseguisse juntar dinheiro suficiente, iria levar sua mãe no lugar. Queria sentar com ela, rir, comer algo e conversar sobre coisas que não fossem conta de luz ou compras do mês.
— Tô mano. O patrão é foda e os playboy que cola aqui tudo dá gorjeta. Tô te falando, pelo certo… Enfim, vem cá, eu disse que eu tinha um bagulho procê.
Marcos segurou no ombro de João Paulo e o puxou para os fundos do bar. Passaram pelo corredor da cozinha que já exalava um cheiro bom da grelha. Já nos fundos, havia uma porta semi aberta e João jurou ver um homem com uma arma ali. Tentou enxergar melhor até tomar um tapinha na nuca de Marcos.
— Vem logo Jota Pê!
Na esquerda havia uma porta que levava a uma área aberta. Ali tinha uma bicicleta, que provavelmente era de um funcionário, uma pequena casa de gás fechada com as placas para tomar cuidado e, encostada na parede, uma prancha de surf nova.
— Feliz aniversário, maninho.
— Porra… cê ta brincando comigo?
Fazia anos que João não recebia um presente de aniversário. Há dois anos atrás, Marcos prometeu que iria dar ao primo algum presente bom, mas nunca achou que de fato receberia um.
— Eu disse que iria te dar um presente, não disse? — Marcos comentou enquanto carregava nos braços uma caixa embrulhada. Entregou ao primo e esperou de braços cruzados pela sua reação.
Ao abrir a caixa, João Paulo viu que havia um kit completo. Quilhas, Parafina e Leash, tudo novinho! Bem diferente da que ele tinha em casa, que estava rachada, desbotada e seu Leash estava prestes a arrebentar.
[ . . . ]
— Capitão Almeida, precisamos falar com você.
O policial que batia em João Paulo foi interrompido por outro que entrou na casa. Ele, então, cochichou algo em seu ouvido que o fez pestanejar.
— Que merda… E você me fala isso agora?
— Mas foi o senhor que…
— O senhor o caralho! Só diga que atiramos em legítima defesa!
João Paulo ouvia a conversa entre os homens sem acreditar. Como isso foi legítima defesa?
[ . . . ]
Da entrada do Morro da Laranja até sua casa não demorava muito a pé. O ônibus deixava João Paulo no fim de linha e o garoto subia as escadas até a casinha em que morava. Estava feliz, carregando sua nova prancha. Destrancou a porta de casa e assim que ela se abriu, sua mãe o puxou com toda força para dentro.
— Graças a Deus, meu senhor! Meu filho, onde você tava? — A mulher apalpava o rosto do filho enquanto o pai chegava correndo do quarto dos fundos, o abraçando.
— Eu tava com o Marcos. Eu avisei que iria chegar mais cedo.
— Cê tava com o Marcos? Ele quem te deu essa prancha? Eu já falei para você não andar com aquele traficante de merda! Aposto que foi com o dinheiro da droga que ele comprou isso.
— Não pai, ele tá trabalhando agora e…
Uma bala perdida atravessou pela janela, fazendo os três se assustaram e correram para trás do sofá. Eles ouviam do lado de fora a polícia gritar com todos da rua. Mais tiros, até que a porta de casa foi arrombada. Os pais de João Paulo se levantaram com as mãos para cima, como sempre faziam. Não tiveram a chance de falar. Diversos tiros foram dados e os dois corpos caíram mortos no chão.
[ . . . ]
João queria gritar, socar, quem sabe até matar o homem responsável pelo que aconteceu, mas estava sem força. Seu olho estava inchado, o sangue saia pelo seu nariz. Sua visão ficou cada vez mais turva. Depois de alguns segundos viu uma equipe de enfermeiros chegar em sua casa e seu corpo foi colocado em uma maca. Só então, João Paulo apagou.
(1: Cidade fictícia)
YOU ARE READING
Caramuru
Teen FictionApós a porte violenta de seus pais por conta de uma abordagem policial em sua casa, João Paulo passa a morar com seu tio do outro lado da cidade. Em um bairro rico e predominantemente branco, o garoto encontra na capoeira uma maneira de resistir ao...
