"— Você tem uma doença terminal." — Essa não é uma frase que as pessoas gostariam de ouvir em uma consulta rotineira, mas a partir do momento em que descobri que morreria em pouco tempo, achei aquele pôr do sol o mais lindo que já tinha visto em toda a minha existência. Porém um dia não começa de tarde, então vamos voltar para aquela manhã comum de todos os dias.
Meu nome é Clara e eu tenho 24 anos, trabalho sempre no mercadinho da minha família, tentei fazer faculdade de marketing, mas nunca passei em uma faculdade que coubesse no bolso, então resolvi seguir os negócios que meu pai construiu. Ser caixa de um mercadinho de esquina te proporciona conhecer bastante seus clientes, por exemplo, sempre antes do portão da escola do bairro abrir, duas meninas que estudam na sala da minha irmãzinha mais nova se encontram aqui na frente e começam a conversar sobre as fofocas da escola, hoje foi sobre um garoto corcunda que teve as calças abaixadas em frente a toda a sala e o professor nem fez nada, acho deve ser alguma nova brincadeira dessas crianças de hoje em dia.
Como se não bastasse conhecer a rotina de quase todas as pessoas do bairro, parece que conheço também a rotina do mundo todo, pois, sei que na hora que eu almoço como agora, vai ter uma noticia triste para o jornal noticiar, eu até mudaria de canal, mas a minha mãe ama ver, então não tento discutir, gosto é gosto. A notícia era sobre como as taxas de suicídio por bullying cresciam cada vez mais no mundo, não consigo entender o porquê uma pessoa se mataria, olhe para mim, fracassei em tudo na minha vida e hoje sou feliz apenas sendo uma caixa de um mercadinho de esquina, eu acho... Sou?
No começo da tarde eu preparo uma limonada e vou para a consulta saber dos resultados dos meus exames rotineiros, não estava preocupada até saber do médico que eu tinha uma doença terminal e morreria em pouco tempo. Aquela notícia deveria me destruir completamente, mas apenas me deixou confusa. Quando saí da clínica, o céu estava mais lindo do que nunca, as pessoas estavam mais bonitas e eu estava muito feliz, porque eu ainda estava viva, então ainda poderia fazer algo, e agora eu tinha uma motivação, a morte iminente.
Decidi não contar para a minha família por agora, acho que eles sentiriam uma dor que eu não senti, então ficaria complicado continuar vivendo normalmente e trabalhando no mercadinho sabendo de tudo sobre o bairro, então me preparei e fui trabalhar no turno da noite.
Parecia que aquela noite seria bem comum, até um garotinho corcunda entrar, por mais que eu conhecesse as pessoas do bairro, dele eu não lembrava, parecia que estava trancado no quarto por anos, ele tinha olheiras e estava com uma blusa de frio mesmo com um calor de quase trinta graus. Ele comprou um barbeador meio vagabundo, normalmente eu não perceberia o que estava acontecendo ali pelo piloto automático da rotina, mas aquele dia tinha sido diferente pra mim, eu já sabia reconhecer o sentimento da morte. Foi aí que de relance consegui ver um corte perto do pulso dele e tive a certeza, então comecei a conversar com ele.
— Boa noite menino, vai querer só isso? — Perguntei abrindo um sorriso.
— S-Sim... Só... — Era incrível como a dicção dele era ruim, em apenas duas palavras ele se travou todo pra falar, acho que então isso que é timidez.
Naquele momento eu decidi que pelo menos tentaria ajudar ele nesse momento, então resolvi dar um preço para a minha limonada! O barbeador vagabundo custava cinco reais, então usaria o que estudei de marketing sobre ele!
— Olha garoto, você não tem barba, então eu acho que seria melhor você tomar essa limonada, ela tem bastante vitamina C. — Expliquei animada.
— E-Eu realmente quero só o barbeador... — Respondeu travado de novo...
Aquela limonada não era dali, eu havia feito ela e indo para o hospital e não consegui tomar ela depois de saber da doença, acho que foi esse o jeito que eu senti a dor da morte.
— Sabe, essa limonada é especial pra mim, nem tem ela no mercadinho, ela é de outro mercadinho perto de um hospital do bairro do lado. Eu realmente quero que você a compre em vez do barbeador, por apenas seis reais!!! — Falei tentando negociar.
— Mas... E-Eu trouxe apenas cinco reais para o barbeador... — Respondeu ele com vergonha.
— Pode levar por cinco, mas só se me prometer que amanhã vai me trazer o um que está faltando!
Depois de eu falar isso, ele começou a chorar, apenas disse obrigado e me prometeu que voltaria amanhã com o resto do dinheiro. Eu estava me sentindo mal por parecer que estava forçando ele a comprar aquela limonada, mas quando vi ele em lágrimas percebi que esse pequeno momento em que eu me importei com ele, foi muito especial, mas mal sabe ele que pra mim foi mais importante ainda. A vida me deu limões e com eles consegui uma limonada, mas não poderei aproveita-la, então pelo menos espero que ele consiga.
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Limonada
Short StoryApós uma notícia trágica, Clara começa a ver a vida de outra forma.
