O sangue escorria pelas manchetes sensacionalistas do jornal. A tinta preta derretia pela ação infernal do sol de primavera. A cidade vazia, a banca abarrotada de livros, revistas e jornais.
A movimentada rua: deserta.
Apertava o cadarço do coturno que escondia parte das finas pernas. Uma camisa preta entre aberta. Uma corrente de prata que dava sustentação a um crucifixo grande, surrado e que até envergava o pescoço de nosso personagem.
O suor escorria pelo rosto. Delineava a maçã do rosto, como se a tivesse...
Um óculos escuro escondia as noites em claro. O suor, em certo ponto, se aventurava no emaranhado de pelos grossos e toscos na barbicha preta. A pele branca, os cabelos longos, crespos e pretos.
O sol, é, o sol incendiava até os pensamentos de Pedro...
Naquela tarde, se escondia do sol frontal, sentado no banco metálico acoplado a banca de jornais. Metal quente, mormaço, vazio, o vazio que lhe consumia a existência.
No bolso da camisa, um bilhete escrito as pressas. Dobrado em quatro, socado no bolso, com pressa e umidificado, agora, pelo suor...
Tinha aproximadamente 25 anos, cinco anos na banca. Um emprego falso para o verdadeiro ofício. Era conhecido, no caminho do meio, como o caçador de promessas.
Era misterioso, de poucas palavras, nunca aparecia nas ruas empoeiradas de São Paulo sem os óculos, com lentes escuras, as luvas de couro com os dedos a mostra, o crucifixo, e o maço de cigarro.
Se apresentava como Pedro Taj Mahal. No bilhete, escrito com caneta estereográfica azul:
"...de quem de diz que o seu esposo estava tão apaixonado que lhe foi fiel toda a sua vida e, após a sua morte, ficou tão afetado que não tardou em segui-la para a morte".
O relógio marcava 17:17, quando fechou a banca. Arrumou suas coisas e foi até o estacionamento onde deixava sua motocicleta durante as horas do expediente falso. O fone de ouvido dentro da cavidade auricular, o som estridente da bossa nova, o capacete de couro e o motor estridente da Harley Davison, preta e toda cromada.
O vento frio dilacerava-o, no anoitecer, naquele final de tarde. Desceu a serra como uma flecha, ziguezagueando as curvas da rodovia. Uma garoa e a neblina retiraram toda a visibilidade da pista. Em certa altura do caminho, adentrou uma trilha de chão batido, já coberta por barro. E seguiu para uma antiga trilha tupi. Percorreu o caminho por pelo menos 10 minutos, chegando a uma cabana de palha, na beira da serra, d'onde se podia ver as luzes da cidade de Praia Grande.
Parou o veículo, postou o capacete em um feixe, e seguiu para a trilha que perpassava a cabana. O barro impregnava seu coturno. Iluminava o caminho com o celular. E chegou até uma lápide. Retirou do bolso um punhado de sal e alguns versos de tupi antigo.
E gritava por Ticê, tomando uma bebida fermentada de mandioca deixada ao pé da lápide para o ritual. Cavou, com ajuda de uma pedra, uma pequena cova e enterrou o bilhete.
Antes de subir na moto, fez uma pesquisa rápida no Google sobre o termo "Anhangá":
... Deus tupi, muito poderoso, tinha fama de castigar as pessoas ruins e cruéis, qualquer um que olhasse em seus olhos era atingido por uma loucura que seria capaz de acabar com a alegria da vida, levando a pessoa para a morte. Este era o esposo da deusa Ticê.
A moto não funcionava. A neblina encobria a visão, a bateria do celular acabara. Pedro, só ao pé da cabana de palha. Uma tempestade vinha comendo a serra da baixada. E o único lugar para se abrigar era a casinha de sape. E foi o que ele fez, com receio, se aproximou da cabana e da porta feita por gravetos...
Uma voz feminina era levada ao seus ouvidos pelo vento. Entrava em sua mente e conseguia estabelecer um mórbido diálogo:
- Pedro, Pedro, viestes?
- Encontrastes o que era meu por direito, Pedro? Encontrastes?
Embriagado pela bebida e hipnotizado pelas palavras: desmaiou.
Acordou, jogado em sua poltrona.
Procurou o maço de cigarro no bolso da frente, estava com frio. Se dirigiu ao banheiro e percebeu algo estranho: estava sem reflexo!
Foi assim que nosso herói descobriu que deixara a vida dos vivos para trás...
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Contos Juvenis
Short StoryColetânea de contos e outras histórias confeccionadas pelos alunos do poeta e escritor Antonio Archangelo em oficinas de escrita coletiva realizadas pelo WhatsApp com discentes da Rede Estadual do Estado de São Paulo durante a pandemia de COVID-19. ...
