O sol brilhava forte por entre as copas das árvores, os dois homens caminhavam a passos firmes pelo terreno gasto por rastros de carroças. Um deles, o mais alto, vestia uma capa com um capuz preto, cobrindo o rosto. O outro usava roupas simples, surradas e sujas de terra, com a cabeça protegida por um chapéu de palha.
Depois de uma curva, era possível ver o final da floresta. Por fora das árvores um enorme vale verdejante ia até onde a vista alcançava e, no meio de tudo, uma enorme construção de pedra rustica.
— Finalmente está pronto!
— O que é? — perguntou o homem com o chapéu de palha.
— São as Masmorras do Terror! — o outro respondeu animado. — Meu novo covil cheio de armadilhas mortais e monstros perigosos.
— E pra que serve?
— Perdão?
— Esse negócio aí de masmorra cheia de coisa perigosa. Pra que serve?
— Ora, primo, como assim? Não é óbvio? — indagou o homem de capa.
— Se chamasse só "masmorra" seria óbvio. É afastada, difícil acesso. Perfeita pra prender uns caras bem barra pesada, não pra encher de armadilha e monstro. O rei voltou a decretar pena de morte?
— Pena de morte? Acho que não... espero muito que não, na verdade.
— Então por que esse monte de complicação?
— Não entendi aonde vamos chegar com essas perguntas. — disse erguendo uma sobrancelha por debaixo do capuz.
— Tu num é engenheiro?
— Sou, me formei com mérito e o caramba a quatro.
— E não sabe pra que o rei quer essa masmorra cheia de coisa sem lógica?
— Mas o rei não tem nada a ver com isso, primo! — o homem de manto negro ergueu as mãos para o céu. — Essa obra é totalmente minha! Particular!
— Por que fazer uma prisão privada perigosa desse jeito? — o homem tirou o chapéu e coçou a cabeça.
— Zeca... — o homem de preto vacilou, procurando as melhores palavras. — As Masmorras do Terror não é um complexo carcerário para subtrair a liberdade daqueles julgados culpados de crimes e retirados do convívio em sociedade.
— Então, primo Orlock, por que cargas d'água ocê construiu uma masmorra se ninguém será preso aqui?
— "Ninguém" é uma palavra muito forte. — Acrescentou Orlock.
Zeca encarou o primo. Orlock tentou manter seu semblante neutro, mas a testa úmida já dava sinais de nervosismo.
— Tá bom — Zeca finalmente rompeu o silêncio. — A viagem foi longa, ocê estava tão animado pra me mostrar tudo isso que mal conversamos em casa. Podemos voltar ao início?
— Podemos, sem problemas.
— Certo. Você construiu uma masmorra, encheu ela de armadilhas mortais e monstros perigosos.
— Exatamente.
— Ninguém além de mim sabe algo sobre isso?
— Perfeitamente — Orlock respondeu mais animado.
— O que deixa óbvio que este lugar não está a serviço do reino para prender criminosos perigosos.
— Corretamente — disse o engenheiro encapuzado mostrando um largo sorriso.
— Eu vou colocar de outra forma. Qual o SEU objetivo com tudo isso?
— Agora sim, primo Zeca! Era por isso que eu estava esperando!
— Pois diga de uma vez.
— As Masmorras do Terror estão cheias de tesouros valiosos, protegidos pelos monstros mais perigosos que eu encontrei. Atrairei, assim, a atenção de aventureiros destemidos que tentarão, em vão, caçar as recompensas ali guardadas!
— E como chamar atenção desses aventureiros?
— Eu reuni um pequeno grupo de velhos decrépitos e com cara de quem passou por poucas e boas. Treinei-os para identificar grupos de jovens aventureiros idiotas e contar alguma lorota qualquer que os convença a adentrar meus domínios em busca das minhas riquezas.
— Tem certeza de que vai dar certo?
— Sem dúvidas! Um grupo de jovens motivados e com uma espada na mão é capaz de qualquer coisa.
— E quem vai tomar conta de tudo isso nesse meio tempo? Quem faz a manutenção das armadilhas?
— Meu seleto grupo de asseclas malignos, ora bolas!
— E a alimentação dos monstros?
— Na verdade, preciso de um pouco de ajuda nessa parte. — Orlock confessou. — Tem um espaço bom atrás das masmorras para criar gado e plantar alguma coisa, só me dá umas dicas depois.
— Sem problemas. Posso te perguntar só mais uma coisa?
— Pode sim.
— Quais seus planos a longo prazo?
— Entrar para os anais da história, é claro. Tenho tudo planejado: depois dos primeiros grupos entrarem nas masmorras não saírem de lá com vida, minha lenda se espalhará naturalmente. Acho que vou sequestrar a princesa quando ela completar 16 anos de idade, só para dar uma agitada. Quando minha fama de vilão estiver consolidada, é só gozar de todo prestígio maligno e rir, no pós vida, de um bando de idiotas em busca de atos de heroísmo.
— Tenho certeza de que dá pra entrar pros anais da história de forma mais simples...
— Até dá, mas por pouco tempo, heróis são esquecidos. Atos de bondade passam batido ao longo dos anos. Entretanto, primo Zeca, o mal é eterno. Todos temem o retorno daqueles que praticam o mal. Eu não quero acabar como alguns parágrafos em um livro esquecido. Não... EU SEREI LEMBRADO PARA SEMPRE!
Zeca encarou o primo balançando os braços para o alto enquanto ria de forma esquisita. Sabia que Orlock não era como o resto da família, mas esperava algo... diferente.
— Agora tudo está mais claro pra mim, primo. Tomara que dê tudo certo.
— Agradeço, Zeca. — respondeu prontamente recuperando a compostura.
— Daqui a pouco vai escurecer, melhor ir embora. Amanhã a gente voltar pr'eu ver a área de plantação.
— Claro, claro. Estou ficando com fome. A tia fez mesmo o bolo de banana? — Orlock lambeu os lábios ao lembrar do bolo favorito.
— Claro que fez, depois de tantos anos você lembra de fazer uma visita, o mínimo que a ocasião pede é um bolo de banana.
— Oba! então vambora.
— Primo.
— Fala, Zeca.
— É meio tarde pra te falar isso, mas acho que você precisa de terapia.
— Mas eu faço.
— Sério?
— Claro que sim, acha que é fácil cuidar de uma obra desse tamanho? A fase final foi bem estressante.
— É...
Zeca vacilou um pouco, era melhor não dizer o que ele estava pensando.
— Faz sentido... faz sentido.
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Masmorras do Terror
Historia CortaMasmorras abandonadas cheia de tesouros e monstro são comuns em universos de fantasia, mas quem as constrói? arte da capa retirada em: https://www.r2pg.com.br/2017/05/30/dungeons/
