Lua, Agatha e Estela

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Playlist A Academia: https://open.spotify.com/playlist/3MoQVTHAxaHwY3yiCoSCpr?si=Fi2GoFMnSUqY2ZSyByeGHg
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Então é assim que tudo termina. É com essa que eu parto, para a minha mais antiga amiga, a morte. Como uma brisa fria de inverno no verão de um penhasco.
Dezembro chegou como uma salvação para Agatha, que não aguentava mais a rotina de escola e os treinamentos da preparação. Aguardar a notificação do e-mail era demais para a garota que atualizava a página a cada cinco segundos.
"Eles disseram que pode demorar até duas semanas para receber a resposta" sua irmã mais velha, Lua, dizia repetidamente em uma tentativa de tirar a atual fissura da mais nova. Após falhar repetidamente, a 'convenceu' a ir com Estela, a caçula, até o centro da cidade. "Eu não tenho condições de trabalhar, ficar de babá de vocês crianças e cuidar da casa. Some daqui!". Agatha relutou um pouco, mas logo foi atrás da menor e a arrastou rua afora.
Nesse mundo existem dois tipos de pessoas: Ativos e Inativos. Sendo o primeiro, seres com um dom único passado geneticamente, Agatha era uma dessas pessoas, assim como boa parte de sua família também o era. Existiam três classificações que os ativos levavam: Tipo C, Tipo B e o mais forte, Tipo A. Todos os ativos eram obrigados a passar pela 'preparação', como era conhecida, ou a "antessala do inferno" como Agatha carinhosamente a chamava – ainda agora conseguia escutar os gritos estridentes seguidos de bengaladas, a alguma mesa inocente, da professora Márcia. A preparação servia para escolher os alunos que seriam intimados pela Academia, e preparar os demais para uma vida comum na sociedade (não queriam mais pessoas explodindo a cabeça de seu chefe em um surto de raiva).
Agatha não estava nem um pouco afim de conhecer a tal Academia, na verdade ficaria mais que grata caso recebesse um e-mail dizendo que não foi convocada.
Fez de tudo para passar o tempo, pegou na lavanderia os ternos que Lua usava em tribunais, pagou as contas, até a sacola de doações obrigou Estela a ajudar a entregar para as freiras do convento local. Colocar aquela criança em um ônibus era sempre uma tarefa complicada, Estela sempre odiou locais fechados – talvez por isso não gostava de brincar de esconde-esconde.
  "Sorvete?" Agatha perguntou.
"Sorvete!" A outra respondeu.
A mais velha acabou por mudar de ideia e pediu um milkshake. Sentadas em um dos bancos da praça, os ternos devidamente protegidos postos meticulosamente a seu lado, sua irmã do outro – ursinho em uma mão, sorvete na outra. Naquele momento, tudo estava bem, como se nada nunca esteve errado.
"Está na hora de limpar esse trapo" Agatha começou o que seria uma longa discussão com Estela, pois esta se recusava a soltar seu ursinho por um momento se quer. A mais nova fechou o rosto em uma careta descontente e apertou seu bichinho de pelúcia para mais perto de si, sua pele morena escura ficava cada vez mais corada. No fim, Agatha conseguiu dobrar a irmã e a convenceu que lavar 'Morceguinho', como era chamada a pelúcia, era uma boa ideia.
"E se o sol fizer mal pra ele? Ele é um vampiro!" Estela chorou.
"A vantagem de ser um urso vampiro é andar no sol!" a irmã retrucou.
Sinceramente, Agatha estava preocupada. Estela estava entrando na pré-adolescência e continuava grudada com aquela pelúcia, não poderia ser algo normal. Se bem que, o que é ser normal?
A vida dos Pertença era longe de perfeita, mas tudo pareceu ir por água abaixo em um nível Titanic quando o pai das meninas, Senhor Carlos, infartou há um ano atrás. Ele ficou bem, mas foi obrigado a se aposentar após o ocorrido. Senhora Margarida, mãe das meninas, tem lidado com essa pilha de emoções ficando brava com tudo – o que em resposta deixava a já irritada Agatha, ainda mais irritada.
Pegaram o ônibus de volta para casa e ao chegarem foram agraciadas pelo cheiro do bolo de fubá que Lua fazia, às vezes, exceto que dessa vez não fora Lua que estava na cozinha, mas sim Senhora Margarida.
"Mamãe voltou!" a menor gritou correndo para os braços da mãe.
"Você faz alguns dias parecerem meses" ela respondeu rindo, apertava a criança contra si. Para as duas, realmente pareciam meses, elas tinham um costume de fazer tudo juntas, era estranho as ver separadas.
"Ah! Oi, Antônia" Agatha gostava de chamar sua mãe pelo primeiro nome apenas para a irritar.
"Agatha!" ela repreendeu, e suspirou sabendo que era em vão "Seja útil e chame a sua irmã" disse com certo desdém, um tom de voz que a filha odiava.
"A minha vida toda" a menina respondeu em um sussurro revirando os olhos e indo até o quarto da mais velha. Senhora Margarida estava sempre paparicando Estela, sendo gentil e agradável, enchendo a menor de agrados – e como sempre, Agatha e Lua eram deixadas de lado.
Pendurou os ternos atrás da porta e se jogou na cama de sua irmã, que estava resolvendo algum problema no computador.
"O que foi, praga?" a mais velha disse sem retirar os olhos do computador.
"Ela está em casa faz cinco segundos e já está me tirando do sério! E onde está papai?" lágrimas começavam a se formar. Agatha não só andava mais irritada que o normal, como também andava mais emotiva que o normal. De acordo com Lua, nossa amiga com nome de pedra preciosa  sempre teve problemas em controlar suas emoções - a primeira vez que ela usou seus dons foi para, literalmente, quebrar todas as louças da cozinha.
"Papai foi ao mercado, de novo. E eu já disse, ligue pra doutora Moreno" Doutora Moreno, psiquiatra da família, também conhecida como uma das poucas pessoas em que Agatha confiava.
Agatha soltou um grunhido infeliz, entregou a mensagem de sua mãe e foi até seu quarto. Só tinha uma pessoa com quem ela iria querer falar, e essa pessoa era Maitê.
'Ei, posso te ligar?'
Mensagem entregue.
Mensagem visualizada.
'Pode, xuxu' foi a resposta.
E então ela discou.
Falar com Maitê sempre a fazia se sentir melhor. Como se um pouco da confusão dentro do seu peito fosse devidamente arrumada, por um momento. As duas se tornaram amigas por conta do temperamento um tanto quanto explosivo de Agatha, para variar um pouco. Deviam ter por volta de quatro anos, um menino estava tentando roubar o lanche de Maitê, e é lógico que Agatha se irritou e atirou a primeira coisa que encontrou no malfeitor, que no caso foi seu sapato.
Desligou o telefone se sentindo mais leve e resolveu que um banho seria uma boa ideia. Não percebeu o quanto as horas haviam passado até sentir fome novamente. Enquanto vasculhava a geladeira por algo que a chamasse a atenção foi agraciada pela presença de Senhor Carlos.
"Pra ajudar a descarregar o carro a bonita não aparece" ele disse brincando.
"Estava fazendo meu papel de filha do meio, desaparecer nas horas mais importunas" ela disse rindo e acabou por escolher o resto do macarrão ao molho vermelho para jantar.
Se Estela era a filhinha de mamãe, Agatha era definitivamente a filhinha de papai. Poderia ficar horas com seu pai que não se cansava, amava ver os projetos malucos, e provavelmente inúteis, que ele inventava e até discutiam seus próprios projetos. Se existe algum experimento caseiro, Agatha e Carlos o fazem. Ela se lembra das férias em que ganhou um kit de laboratório para crianças de sua tia e passou as férias inteiras fazendo todos os experimentos com seu pai – uma das melhores memórias que ela tinha.
Tentar não pensar no e-mail apenas a fazia pensar mais ainda no e-mail. Uma semana e nada. Lua dizia que se Agatha continuasse ansiosa desse jeito ia acabar infartando antes dos vinte anos.
Maitê havia a convidado para ficar o final de semana em sua casa, na esperança que maratonar seus filmes favoritos fosse acalmar um pouco a amiga – ou apenas a distrair. De certa forma funcionou, naqueles dois dias a mente de Agatha estava em paz. Assistiram seus filmes favoritos, dançaram ao som de suas artistas favoritas e fizeram o que Agatha julga como a melhor coisa de todas: Noite do Karaokê. As músicas eram obrigatoriamente bregas, as roupas tinham que ser acompanhadas de plumas, óculos de plásticos ou algum outro acessório ridículo.
Quando separadas, as meninas não se metiam em confusões, Maitê costumava manter a cabeça baixa e Agatha apenas revirava os olhos e ignorava o que quer que fosse – quantas vezes não ficou debochadamente encarando seu professor de física enquanto ele falava algo sobre a sua vida pessoal, o que ela julgava como 'irritante'. Todavia, quando estavam juntas, se metiam em várias confusões (por culpa de Agatha, mas nada que se possa provar). Talvez fosse este o motivo que a mãe de Maitê não gostasse muito dessa amizade, o pai dela, por outro lado, achava muito divertido as formas criativas que Agatha encontrava de sair dos problemas que ela mesma criava.
"Você daria uma bela advogada, sempre achando algo escondido nas entrelinhas" Senhor Marvulle disse uma tarde. Ele tinha um grande apego a família de Agatha em geral, o que não era uma surpresa visto que ele e o Senhor Pertença eram amigos. Lua era muito grata a esta amizade, pois foi assim que conseguiu seu estágio e seu primeiro emprego como advogada.
Não sabe ao certo que horas era quando foi dormir, tudo que sabe é que Maitê estava no chão abraçada com uma vaquinha de pelúcia, travesseiro de um lado e lençol fazendo um caminho da cama até o chão, e que sua cabeça estava latejando de dor. Agatha se levantou da cama e foi em busca de seu celular, para checar as horas (14:15), e a primeira coisa que notou foram as inúmeras chamadas perdidas de Jasmine, uma amiga que conheceu durante a preparação. Sem pensar muito a respeito, pôs-se ao telefone.
O telefone tocou.
E tocou.
E tocou.
Até que a voz alegre e cheia de energia, até demais, de Jasmine chegou aos seus ouvidos. A amiga falava rápido demais para Agatha que havia acabado de acordar, o que a fazia ficar ainda mais perdida e irritada com a situação. Após alguns minutos de tentar e falhar em explicar o que estava acontecendo, Jasmine passou o telefone, ou teve ele arrancado, para seu irmão Jasper.
"Olhe seu e-mail." Ele disse e simplesmente desligou o telefone. Agatha ficou alguns segundos parada contemplando a parede, ainda com o celular em seu rosto. Jasper tinha essa mania de ser muito abrupto, e rude, o que sempre a deixava um pouco sem reação.
"Somos fraternos não idênticos" Jasmine disse após afirmar que ela e Jasper eram gêmeos e ser recebida com um olhar meio sem reação de Agatha. Eram razoavelmente parecidos fisicamente, a maior diferença era, com certeza, na personalidade. Jasmine era, desde os fios de cabelo rosa até as unhas coloridas, espontânea, seu irmão por outro lado, fazia um planejamento para tudo. Jasmine disse para Agatha, certa vez, que o garoto chegou a olhar no seu mapa astral o melhor dia para poder furar o septo – ele levava signos a sério de um modo excessivo de acordo com a irmã.
Sem saber ao certo o que fazer, jogou um dos travesseiros em Maitê, que em um leve pulo foi tirada de seu sono profundo, não queria passar por esse momento sozinha. Deu alguns segundos para amiga se recompor, perguntar as horas e procurar o seu celular – que estava carregando do outro lado do quarto.
"O que foi?" Maitê finalmente perguntou para sua amiga que estava encarando a tela do celular.
"Jasmine estava certa." Ela disse mostrando o tão sonhado e-mail da Academia, ainda não aberto. Como uma vidente, Jasmine dificilmente estava errada.
Agatha atirou o celular no colo da Marvulle e disse para ela abrir e ler o e-mail. E assim Maitê o fez.
"Prezada Agatha Pertença,
A Academia para jovens ativos tem o prazer em lhe informar sua aceitação no corpo discente..." As palavras de Maitê pararam de fazer sentido, Agatha não estava mais a escutando. Maitê, então, parou de ler e abraçou a amiga.
Desespero. Era isso o que sentia. E um turbilhão de mais outras emoções que tentava manter goela abaixo. Não funcionou muito bem e acabou por aceitar o colo da amiga, deixando as lágrimas livres.
Essa seria a primeira aventura de Agatha sem Maitê, sem Lua, sem seu pai. Nunca se sentiu tão sozinha.
Nunca se sentiu com tanto medo.

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