Laboratórios e galerias de arte

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Por muito tempo, o laboratório foi o local que mais dava satisfação para Margot. 

Quando ainda era estudante, também era repleto de frustrações, evidentemente; com os experimentos fracassados, com as amostras deixadas por tempo demais ou tempo de menos no congelador ou na estufa, ou amostras deixadas onde não deveriam estar, com os colegas de laboratório que não preenchiam relatórios e que interferiam com as suas pesquisas, mudando o material de lugar, invalidando o experimento todo, e forçando todos a recomeçarem do zero.

Tudo isto fazia parte de um passado distante, quase irreal, e Margot supervisionava seus alunos, dispostos aos pares em suas bancadas.

Jamais imaginara que chegaria tão longe; por boa parte de sua juventude, queria apenas desaparecer, passar despercebida e invisível pela vida.

E, nos raros momentos em que se flagrava olhando para trás, conseguia empregar apenas a palavra "infernal" para as suas experiências do ensino médio e, posteriormente, da graduação. Levava a vida como uma obrigação: fazia o que era esperado. E, pior, fazia o que era esperado de uma aluna brilhante, o que custava-lhe uma energia que não tinha.

Ademais, também era esperado que socializasse, que fosse ao menos um pouco simpática e aberta, que...

Não via vantagens ou propósito em fazer nada disto. Talvez fosse realmente petulância. A verdade era que não gostava de sentir-se exposta. E, mesmo evoluindo, mesmo impondo respeito, mesmo após anos de terapia, ainda sentia aquele desconforto familiar ao encarar seus alunos na sala de aula.

Passava, alegremente, noites em claro, aprofundando-se em pesquisas, preparando aulas, organizando todo o material. Mas, ao chegar à porta da sala de aula, instalava-se o familiar temor, como o de uma aluna novata em seu primeiro de dia de aula.

No laboratório, tudo era diferente. Começava pelos seus paramentos: com o jaleco, com toda a proteção necessária para lidar com amostras biológicas, sentia-se menos exposta. Havia menos chances de que alguém, acidentalmente, visse suas tristes cicatrizes.

No passado, abominara todas elas, odiava como era vívida a lembrança do fogo quase consumindo sua vida. Com o passar do tempo, passou a considerá-las apenas isto: tristes. Talvez, pensava consigo, algum dia se tornasse indiferente ao contorno irregular marcado na própria pele. Enquanto este dia não chegava, contentava-se — e sentia-se agradecida — com as camadas extras de proteção.

Sentia-se protegida, também, pelas atividades que exigiam concentração: assim, quando tinha assuntos mal resolvidos, nos quais não desejava pensar — sua família, sua sexualidade, seus planos para o futuro; quando alguém questionava se era aquilo que Margot queria fazer pelo resto da vida, enfurnar-se em um laboratório, mas tudo isto era assunto superado —, passava horas preparando amostras.

Acima de tudo, sentia-se reconfortada pelo relativo silêncio que o laboratório, em um corredor obscuro no labirinto que era o subterrâneo da universidade, proporcionava. Poderia passar horas e horas ali sem queixar-se.

Pensava consigo: "sim, é isto o que quero, para o resto da vida", mesmo que significasse, também, lidar com os alunos. E, fazendo uma análise honesta, estava evoluindo neste aspecto. Sabia lidar melhor com os estudantes.

Olhou para o relógio, deu as últimas orientações para a aula seguinte. Recolheu seus pertences no armário. Pura rotina.

E, em um gesto relativamente novo, porém frequente, sorriu para a esposa, que aguardava-lhe do lado de fora.

Aquilo, sim, era sentir-se realmente livre e segura sendo quem era. Havia satisfação em perceber um novo e constante aprendizado. 

— Querida... — Franziu o cenho. Sentia-se uma adolescente outra vez, usando o vocativo meloso enquanto buscava seus lenços umedecidos na bolsa. — Suas mãos estão sujas de tinta.

Era uma constante. Madeleine vivia distraída, quase em outro mundo, sem prestar atenção ou sem se importar muito com o mundo concreto. Margot, então, encarregava-se dos aspectos práticos: as listas de compras, o planejamento das refeições, as precauções um pouco exageradas, como carregar um guarda-chuva e um casaco em um dia de sol. 

Madeleine, na realidade, dançaria alegremente na chuva, mesmo sob os protestos da esposa. 

De certa maneira, antes de Margot, Madeleine de fato vivia abandonada em um mundo particular, repleto de cinza e de cinzas. 

Ainda tinha seus momentos — o amor nunca foi cura para nada — mas, pelo menos, não estava mais sozinha e desamparada. Mais ainda: tendo alguém que dispensava-lhe tanto cuidado, esforçava-se para cuidar-se e não perder-se novamente no caos da própria mente. 

Em suma, tornava-se uma melhor versão de si, embora deixasse escapar alguns defeitos, como a distração ao dar-se por satisfeita com um quadro que levara semanas para ser finalizado e lavar as mãos desajeitadamente, deixando resquícios de tinta seca nos dedos e debaixo das unhas. 

— Obrigada. — Madeleine sorriu, limpando as mãos rapidamente, prontamente partindo para o que interessava: abraçar Margot.

Em algum momento, que não saberiam precisar ao certo, aquela alquimia entre cientista e artista tornou-se a melhor coisa da vida.

Em algum momento, Margot viu-se adotando novos lugares preferidos: a casa de Madeleine, com os gatos, com os quadros, os livros, as plantas. As galerias de arte. O ateliê, um território antes temido, quase proibido.

Havia prazer em descobrir um novo mundo ao lado de Madeleine, que também acompanhava as novidades do mundo científico, por vezes visitando os laboratórios e retornando com esboços inspirados.

Margot só conseguia viver com rotinas pré-determinadas. Madeleine achava que não conseguiria viver seguindo rotinas, que sua imaginação seria obnubilada pelas obrigações do mundo concreto. 

A rotina, percebeu, perdurava por anos, mas jamais perdia o encanto. Seu mundo ganhava novas cores e novos contornos a cada dia. Mais do que acostumar-se, passou a encantar-se pela rotina conjunta. 

Via-se envelhecendo ao lado de Margot, os cabelos de ambas, que já exibiam fios brancos aqui e ali, tornando-se completamente grisalhos, a galeria de quadros e de títulos expandindo-se, os gatos, os livros, as plantas; tudo o que sempre foi presente e tudo o que ainda seria futuro. 

Possuía poucas certezas: o que seria da vida, se tudo fosse previsível? Vislumbrava o futuro com uma certeza: continuaria com as provocações amorosas, em nome da rotina que Margot tanto prezava. 

AlquimiaWhere stories live. Discover now