Em meio às ruas estreitas e sinuosas do bairro de Montmartre, Aiyra vagava com uma inconfessada e talvez ignorada angústia em seu peito. Já era quase noite quando avistara uma mulher com um longo vestido branco à sua frente. Ao se aproximar dela, percebe que seu rosto é conhecido, mas a timidez o impede de cruzar olhares. Com o peito acelerado, Aiyra apenas deseja sair correndo dali sem que o vissem.
Na tentativa de apagar essa visão de sua mente, Aiyra só pensa em retornar ao passado. A ansiedade que se instalou em seu peito o impedira de perceber que deixou para trás uma parte importante de sua história. Um pequeno robô entregue a ele de presente há quatro anos. Essa falta de percepção traria consequências imprevisíveis para o futuro. Aiyra logo saberia disso.
Esses saltos temporais que Aiyra consegue fazer têm um custo muito alto para seu corpo, sendo sua visão a parte mais prejudicada. Vertigem, enjoos, confusão mental e perda de consciência são alguns dos problemas com os quais ele está acostumado a lidar. O ano de sua chegada ao Brasil é então anunciado pelas palavras de Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, em um pronunciamento oficial que marcaria o dia 11 de março de 2020 na memória de muitos.
"Nas últimas duas semanas, o número de casos de Covid-19 fora da China aumentou 13 vezes e a quantidade de países afetados triplicou. Temos mais de 118 mil infecções em 114 nações, sendo que 4 291 pessoas morreram."
O aumento no número de infectados pelo novo coronavírus e sua disseminação global resultaram na decisão da OMS de decretar uma nova pandemia.
Não era apenas Aiyra que tentava apagar algo visto de sua mente. Há seiscentos quilômetros de distância, Tichon Sousa queria fazer o mesmo, mas ela não podia voltar no tempo e apagar seu passado. Um dia antes do pronunciamento oficial da OMS, Tichon buscava por respostas que nunca teria, de alguém que foi embora sem nem ao menos se despedir.
Há quem diga que o tempo cure tudo, mas isso não é verdade, pelo menos não para Tichon. O tempo apenas tira a dor do centro das atenções. Ou talvez não o tempo, mas a rotina que ele traz, as responsabilidades, os prazos para cumprir, as cobranças cada vez maiores e mais frequentes. Mas, quando o tempo livre, antes insuficiente, agora demasiadamente extenso e o distanciamento social se tornam rotina, é preciso mais do que nunca fazer as pazes com o passado. E é em meio a esse turbilhão de pensamentos que Tichon torna-se mais introspectiva e passa a lidar melhor com seus monstros. Um a um, ela os confronta. O primeiro deles foi em sua universidade, antes de ser decretado estado de emergência em saúde pública em Belo Horizonte. Os demais foram em seu quarto.
Um local frequentado por Tichon quase que diariamente por mais de oito anos era a Praça Vermelha. É um dos espaços que reúne lojas destinadas comércio e à prestação de serviços à comunidade universitária. De toda a Praça, o anfiteatro coberto por uma imensa lona vermelha e branca, quase como se fosse um picadeiro de circo, era seu local favorito. E, apesar de este ter capacidade para cerca de 1 200 pessoas, apenas Tichon estava lá. Nessa noite ela entendeu o porquê de, independentemente de onde estivesse, as memórias de seu último namoro não saíram de sua mente. Porque eram boas as lembranças que ela queria esquecer, e nenhuma delas traduzia o presente.
Lidar com o fim de um relacionamento amoroso nem sempre é fácil. O sofrimento é inevitável, natural e até necessário nestes momentos. Por três meses Tichon experienciou isso. Durante esse período, ela passou por todas as fases comum a uma
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O que o presente te diz?
Historical FictionApós a palestra sobre gênero e sexualidade, Tichon Sousa, relutante com o término de seu relacionamento, decidiu permanecer na Praça Vermelha, local de seu primeiro encontro romântico, para apagar as boas lembranças de sua mente. No dia seguinte, a...
