Capítulo 1 - Coincidência ou destino

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– Você? – pergunto, surpreso.

Mais uma vez o destino tratou de unir a mim e Daniel. Primeiro, quando cheguei a Divinópolis e, agora, quando estou partindo de volta a Safira. Esquivando o olhar para a poltrona vazia ao meu lado, ele pergunta:

– Posso me sentar aqui?

– Claro! Se não for dar problema pra você depois... com o motorista.

– Relaxa, já conferi as passagens de todo mundo. – Antes mesmo de terminar a frase, ele se acomoda ao meu lado, e em questões de segundos depois, posso sentir seu joelho tocar o meu.

Esfrego meu rosto com as mãos, tentando amenizar a cara de quem virou a noite chorando. E que noite! Achei que nunca fosse ter fim. Minha maior vontade era mergulhar em minhas próprias lágrimas e morrer afogado. Sei que o culpado de todo o sofrimento foi eu próprio, por ter tentado esconder um segredo de meu namorado, ao invés de revelá-lo assim que tive a oportunidade. Menti a André dizendo que conhecia Thiago sendo eu aluno deste na academia, quando na verdade o havia conhecido numa boate gay aonde chegamos a dar um beijo. E quando digo beijo, refiro-me a estes que vemos entre casais perdidamente apaixonados nas novelas, sendo um beijo ardente e com direito a muitas carícias. Compreendo perfeitamente a atitude de André, acho que no caso dele eu teria feito o mesmo. É claro que a víbora do meu primo teve sua parcela de culpa, demonstrando ser quem era de verdade: um grande invejoso filho da puta, porém isso não teria acontecido se eu tivesse sido honesto com meu namorado. Estou agora pagando por meu erro – muito caro por sinal, e responsável por ter me feito desistir do sonho de me formar em psicologia, abandonar a bolsa de estudos que tanto suei pra conseguir, e um emprego com carteira assinada – consequências disso é que agora estou voltando à minha pacata cidade, onde jamais terei tais oportunidades, entretanto, não adianta nada ficar me culpando, o que me resta agora é aceitar tudo com resignação.

Sou tomado por olhos cor de âmbar a me encarem, seguido pela voz levemente rouca de Daniel a pronunciar:

– Posso te fazer uma pergunta?

– Claro.

– Tá voltando à Safira? – Assinto com cabeça. Após ele morder os lábios, lança outra pergunta: – Por quê? Não gostou de Divinópolis? – Novamente correspondo com a cabeça, desta vez em negação, enquanto ele exclama: – Fala sério! Quem não ia querer morar em Divinópolis? Um lugar cheio de gente bonita, ótimos lugares pra sair... eu mesmo trocaria Teófilo Otoni por Divinópolis, facinho, facinho. – Ele diz isso por que não foi ele quem passou pelo que passei, penso. – Vai dizer que prefere aquele fim de mundo? – indaga.

Respiro fundo pra não deixar transparecer meu aborrecimento, sei que ele só está tendo boas intenções em prosseguir com nossa conversa, portanto apenas digo:

– Importaria se eu não tocasse nesse assunto?

– Não! É... Desculpa – responde, baixando o olhar, visivelmente desconcertado.

– Não esquenta. Nem precisa se desculpar, é porque... bem... ah, deixa pra lá. – Sinto minha voz começar a tornar chorosa, portanto me calo.

Após isso, mergulhamos num silêncio desconfortável. Consigo apenas ouvir o ruído do ar-condicionado. Decido retirar o celular do bolso para conferir por uma última vez, antes que saiamos da cidade e a rede móvel fique fora de área, se André não me enviou nenhuma mensagem dizendo, arrependido, que me perdoa e assim que desse tempo a mim de descer deste ônibus. Entretanto, nada de mensagem, nem dele nem de ninguém.

De repente, Daniel quebra o silêncio pairado no ar:

– Aquele dia você ficou de me ligar e nada, né? – Hum? Franzo o cenho, sem saber o real do súbito comentário dele. Ele lê minha expressão de dúvida e tenta se explicar: – Estou falando daquele bilhete que lhe dei com o meu número de telefone pra você me ligar, se esqueceu?

Sangue & Purpurina VOL 2: Vidas SeparadasDes histoires addictives. Découvrez maintenant