Sirenas são as mulheres lançadas ao mar quando marinheiros assustados, acreditavam ser mau agouro ter uma mulher abordo. Ao afundarem com suas pernas amarradas, elas mudavam lentamente até poderem respirar e usar suas pernas amarradas para se mover na água. Afogam marinheiros por vingança, atraindo-os com suas vozes ainda roucas de toda água salgada que respiraram.
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- Por favor, não façam isso – ela implora em sua voz falha e embargada. Os homens desdenham, seus olhares frios como o mar ártico.
- Uma tempestade se aproxima. – reafirma o capitão. O pior de todos ali presentes. Em seus olhos, existe arrependimento e compaixão, ele não quer fazer isso, não tanto quanto os outros. Mas isso não pode impedi-lo.
- Eu avisei seu pai, um navio não é lugar de mulher – diz o capitão – eu disse pra ele achar outra embarcação, falei pra ele te deixar em casa, ele ouviu? Se quiser culpar alguém, gracinha, culpe seu pai. Aquele oceano é frio, frio e cruel e ela não vai nos deixar atravessar sem um pagamento, um custo.
O vento sopra seus cabelos grisalhos para longe de seu rosto e com um aceno de cabeça para um de seus homens, aquele quem o olhar parecia permanecer tempo de mais nela. Ele dá um passo à frente e acerta um golpe certeiro de remo em Odessa, ela se desequilibra um pouco e apoiando – se no para peito do navio, solta um grunhido de dor. Quando sua real intenção era gritar e xingar como uma dama de sua classe não deveria fazer. Sua vontade é amaldiçoa-los à uma tumba aquática e vê-los sofrer.
Com o simples poder da vontade ela tenta, em vão soltar as cordas que prendem seus tornozelos. O imediato a acerta novamente e ela cospe em seu rosto, enquanto uma gargalhada maldosa se espalha pela tripulação. Odessa percebe seu erro. Os olhos de seu algoz escurecem de fúria e, com um passo à frente ele a golpeia novamente com tanta força que a faz se contorcer, com tanta força que sua visão escurece e ela despenca aguas escuras e agitadas abaixo.
O capitão estava certo, o oceano era frio. Mais frio que qualquer inferno que ela poderia imaginar. Mais frio que quando ela caiu na rua com o rosto em uma poça em pleno inverno. Ela sente as águas glaciais inundar seus lábios e pulmões, transformando ossos e veias em um amargo azul. Ela já não pode mover-se, respirar ou pensar. O mar agitado a arremessa em direção ao casco do navio, sentindo seu crânio rachar contra a madeira velha o mundo se distancia, seu corpo afunda e ela começa a morrer.
Através da escuridão ela se lembra do mar. Se lembra de empurrar sua amiga Anna contra as ondas na praia, das risadas de Anna enquanto a puxava também para o mar. Ela se lembra de afundar a cabeça na agua e sentir o frio a inundar quando se tornou mais leve do já fora. Ela se tornou parte do oceano.
- O mar é frio – ela lembra do capitão – Sim, sim, mas eu sou mais fria – ela pensa.
Quanto ao oceano, Odessa percebe que essa se tornara sua irmã. Sente-se abraçada e acariciada, o oceano não a está matando, mas acalentando. Uma irmã segurando o sangue de seu sangue. Uma mãe acalmando a criança agitada. Uma deusa atendendo as orações de sua devotada serva.
- Eu tenho sal e água do mar em minha alma capitão, vou mostra-lo quão frias essas aguas podem ser.
Ela sente as extremidades de seu corpo se desvanecer, sente-se deixar de ser uma EU para tornar-se uma NÓS. Para tornar-se cada gota de água e cada pedaço de espuma, cada alga e cada onda. Ela sente a mudança.
Seu vestido é triado, botão por botão, costura por costura. O oceano a desnuda e acalma sua pele. Ela sente o balanço das ondas, sente suas feridas serem curadas. Ela se torna algo além de uma garota assustada, ou um ponto de morte em uma piscina de vida. Conforme seu corpo se acende como fogo e suas pernas se aproximam e começam a fundir-se. Ela percebe, está curada e em total controle de si.
Chega ao fim sua metamorfose, está nua, mas não se incomoda. Sua cauda dança e balança nas aguas abaixo, mais natural e forte que suas pernas jamais foram. Odessa corre as mãos pelas escamas azuis como a superfície em noites tempestuosas, ela pode sorrir.
- Sereia – ela pensa – Sirena, irmã do oceano.
O capitão estava certo, um navio não é lugar de mulher, o oceano é lugar de mulher. Ele saberá quando ela o arrastar aos gritos que sim, o oceano pode ser cruel, mas suas irmãs podem ser muito mais. Odessa sorri novamente e nada em direção ao navio se distanciando no horizonte.
