As Espadas de Kimsha

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Quanto mais do mundo vi, menos pude moldar-me à sua maneira

Jean-Jacques Rousseau.

Uma sombra vinda do leste atravessava a planície. Kimsha a cidade murada estava sob ataque e guerreiros ostentavam armaduras de ouro fundido que reluziam a luz do luar. Lutavam bravamente com seu pequeno esquadrão de formação sólida.

Uma voz altiva ecoava entre os guerreiros:
— lutem, lutem Filhos de Ashai — Fiquem firmes homens! Protejam os flancos, tragam esses chacais para suas espadas!
Exclamou o príncipe Shakar, brandindo uma larga espada sobre seu garanhão branco.

Ele era o General daqueles guerreiros, mas não lhes dava ordens, não era um monarca soberbo gritando com seus servos; os soldados eram leais por instinto, um respeito natural pelo príncipe e isso era admirável. Um líder nato, que incentivava homens livres, os chamados leões negros de Kimsha.

O moderado exército reagia a cada movimento bravio do príncipe, chocando suas lâminas contra os pesados escudos de ferro que cobriam os seus corpos do joelho acima das grevas até o queixo, rugiam e berravam palavras na língua antiga dos Berberes, um som ensurdecedor.

Shakar era majestoso como um leão da savana, com uma pesada armadura dourada sobre seu corpazil negro. O leão dourado é herdeiro de Ashai, O Reino Selvagem.

Filho do Rei Avilah Kantê e da Rainha Atala, os Guardiões do Norte. É um herói em tempos de guerra, um grande estrategista militar, venceu incontáveis batalhas defendendo Kimsha e seu povo além dos muros.

Divino aos olhos dos seus guerreiros, que inspirados por sua coragem, atendem ao seu chamado sem hesitar, marchando na direção em que ele os guiar, inflamando seus corações com palavras de vigor e coragem, brandindo sua espada curva com cabo de ouro pálido.

Para os seus soldados “Não há honra maior do que lutar ao seu lado e defender sua terra”.
Ouvia-se o clangor das espadas incessantemente. O invasor era colossal; cavaleiros trajando cotas sombrias, com porta-estandartes e bandeiras negras. O mar de carne e metal foi  incapaz de superar os guerreiros de Kimsha no combate corpo a corpo.

Até que chegou a aurora e nada mais se ouviu além das trombetas de soldados batendo em retirada.

Ao final da batalha as nuvens pairavam nebulosas pelo céu, revelando uma manhã cinza, onde poucos restavam de pé. Pais choravam por seus filhos, irmãos caiam ao solo lado a lado.

Não havia motivos para comemorações, a glória era efêmera, pois Xutar, o Reino das sombras, ainda erguia-se à leste com suas torres e obeliscos de pedra, onde a escuridão não tem fim e o céu negro sufocava a manhã.

Mais adiante uma balbúrdia tomou conta dos homens que corriam dispersos pela planície, com armaduras despedaçadas e espadas chanfradas, até que um deles caiu diante do guerreiro de olhar taciturno que se voltava para o lado oeste da cidade, com a mão direita no punho do Shotel, uma espada de lâmina curva e de poder mortal. Quem a empunhava era um guerreiro negro alto e esbelto, vestido em  uma cota cinzenta, rosto severo e de  olhos escuros.

O Homem atordoado se jogou aos pés do misterioso guerreiro e com uma voz lamuriosa gritou:
– Senhor, Senhor, Lorde Malek! Eles são incansáveis, um bando de feras malditas. Fomos derrotados. Nossa cavalaria foi esmagada, não chegamos nem perto da muralha, ficamos acuados pela vanguarda e estocados por suas lanças e espadas. Recuamos antes que ficássemos ao alcance dos arqueiros.

– E as balistas? e todo o  resto das armas de cerco Capitão Mahour? perguntou Malek.
Mahour respondeu:
– Arruinadas senhor, atoladas na lama. – O Príncipe estava à frente das defesas, junto a seus soldados, ele é imbatível, os leões de Kimsha o adoram, dizem que ele é a encarnação do próprio Yêxalah, O Deus Sol no alto de seu cavalo.

São fanáticos miseráveis, não recuam por nada, se atiram sobre nossas lanças, não temem nada a sua frente, é como se estivessem possuídos.  Sem reforços não será possível a…

Antes que o homem praguejasse mais uma vez, Malek separou sua cabeça do corpo com um golpe repentino do shotel, um rápido movimento horizontal, o sangue de Mahour espirrou no rosto sombrio do guerreiro.

O orgulho de Malek não era desse mundo, não suportaria mais uma só praga cuspida dos lábios de seu capitão.

Malek é um mercenário brutal de hábitos perversos, nunca hesita diante das suas ações cruéis, não importava os meios para obter a vitória, ou quem estiver no seu caminho, sempre busca a glória e exaltação de si mesmo, Uma ave rapinante que caminha nas trevas estocando e erguendo homens na ponta de sua lança, se esgueirando das flechas rapidamente como se fossem folhas ao vento, membro de uma ordem  muito antiga de assassinos do reino das sombras, os Rajiks.

Ele comanda o poderoso exército de Xutar. Sabe que essa foi só uma neblina passageira, o prelúdio de uma tempestade que há de cair sobre Kimsha e todo Reino de Ashai.

Por hora a Cidade resiste intocada no interior das muralhas. E houve uma breve trégua não declarada para que juntassem seus mortos.
Em Ashai entoaram cânticos e ouviram-se os lamentos de homens e mulheres.

Logo reinou o silêncio e de longe se via as chamas das piras que ardiam do amanhecer ao crepúsculo.

Continua..

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