Amnésia Dissociativa

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A janela.

Foi ali que eu a vi pela primeira vez. Tão bela que me parecia impossível que alguém assim pudesse existir.

Minha rotina nos últimos dois meses parecia monótona, mas a previsibilidade era indispensável: eu acordava, corria pelo bairro, me arrumava e ia trabalhar, voltava para casa. Desde que sofrera um sequestro-relâmpago seguido de espancamento, além de não me lembrar do fato e do ano anterior a ele, sempre tinha a sensação de estar sendo seguida. Não tinha amigos, meu pai, depois que me assumira lésbica, nunca mais quisera saber de mim, estava sozinha no mundo.

Tarde de sábado, cansada da faxina pelo apartamento, caí na cama depois do banho. Meu quarto era meu lugar preferido do apartamento, a vista que tinha da janela era incrível. Já havia perdido as contas de quantas vezes adormecera contemplando meu paraíso urbano, naquela tarde não foi diferente.

Uma voz doce falava algo perto de meu ouvido. Era estranho, uma única palavra. Meu nome. Abri os olhos, olhando ao redor.

Foi quando me deparei com ela. Linda. Perfeita. Indescritível. Sua pele, de um negro tão profundo que eu pensaria ser impossível existir se não tivesse visto, foi a primeira coisa que eu reparei. Me encantei com aquilo, mas logo me vi ávida por mais informação visual e passei pelos lábios grossos, o nariz, as maçãs do rosto e os olhos, tão profundos quanto o negror da pele, mas, estes, em um castanho mais claro, como chocolate. Ela estava refletida no vidro da janela. Não consegui emitir uma só palavra. Passaram-se minutos antes que fosse capaz de me desprender daqueles olhos e perguntar:

-- Quem é você?

-- Preciso da sua ajuda. Você tem que me ajudar, Liz. Só você pode.

-- Como sabe meu nome?

Ela abriu a boca para me responder, mas, antes que pudesse, fui tirada daquele momento pelo som da campainha. Acordei atordoada, sem saber o que havia acontecido. Em minha cabeça, um par de olhos chocolate.

Quem era ela?

Os dias se passavam, e nada tirava a mulher misteriosa da minha cabeça, sonhei com sua imagem algumas vezes, ela sempre parecia se debater contra algo, mas estava alheia à minha presença.

-- Liz - Era ela. Como podia um simples sussurro me arrepiar daquela forma?

Virei-me, lentamente, com medo do que poderia encontrar. Não havia ninguém. O susto que tomei ao voltar-me para a janela foi equivalente à dor que senti ao ver seu reflexo machucado, com um olho roxo e a boca inchada.

-- Você - foi tudo que consegui dizer

-- Sim, meu amor, sou eu

Eu não entendi por que ela me chamava daquela forma, mas a sensação foi tão boa que eu jamais reclamaria

-- O que houve com você?

-- Você precisa se lembrar, Liz. Você tem que me salvar, estou tão perto, e você não vê.

-- Onde você está?

-- Não tenho tempo, ele está vindo

-- Me fala! Eu vou te buscar

-- Apolo

Acordei com o coração disparado, coberta de suor. Aquele sonho fora intenso demais, e eu não fazia ideia do seu significado. Mais uma semana se passou sem que eu esquecesse aquela mulher. Estava correndo pela vizinhança, e, quando passei pelo edifício que ficava de frente para o meu, uma sensação ruim se apossou do meu peito. Eu não sabia o que era, mas tinha algo errado com aquele lugar.

Naquela noite, meus pesadelos foram os piores desde o sequestro. Gritos de medo, uma pessoa chamando meu nome, alguém gritando por socorro, tudo isso misturado a flashes de um homem barbudo, sorrindo para mim como um lunático. Não bastasse o pesadelo, depois dele ainda veio a mesma mulher, dessa vez dizendo apenas que o tempo estava acabando.

Passava novamente à porta daquele prédio, a caminho do trabalho, quando tive um estalo: Edifício Apolo, era o que dizia no uniforme de um homem que me olhava, seu rosto extremamente familiar. Decidi deixar aquilo de lado e continuar meu dia. Devia ser loucura minha.

Quando cheguei em casa, novamente no quarto, não sei o que me deu, mas fiquei encarando aquele prédio. Havia um apartamento exatamente de frente para o meu, e, na janela, o mesmo homem de mais cedo, e foi só então que eu percebi que era também o homem do sonho, a falta da barba me enganara, mas agora eu tinha certeza. Quando ele sorriu, eu paralisei no lugar.

Tudo estava voltando, as memórias do sequestro, ele nos espancando sem motivo algum, dizendo palavras sem nexo.

-- Eu vi, suas vagabundas! Faz meses que eu sei o que fazem naquele quarto - e logo vinha mais um soco, ele revezava entre mim e ela

Ágata!

Oh, meu Deus! Como eu pude me esquecer de Ágata? Nós estávamos planejando a mudança dela para minha casa antes de tudo acontecer, e tudo simplesmente sumiu. Branco.

Não sei de onde tirei forças para ir até a polícia e levá-los ao cativeiro onde fui mantida por dois dias e onde a minha Liz ainda se encontrava, mesmo depois de dois meses.

Eduardo Feitosa, o homem que nos sequestrou e espancou, era zelador do Edifício Apolo e vinha observando nossa rotina desde o início do namoro. No apartamento desocupado de onde ele nos observava, várias fotos nossas em momentos de intimidade.

Ágata, foi encontrada algemada à cama onde estava sendo mantida por mais de dois meses. Ele nos colocara dentro do prédio por uma entrada de serviço. Não lhe fez depois que me soltou, achando que estava morta, apenas passava os dias observando-a, agora de perto.

Quando a encontrei, ela estava magra e tinha olheiras, mas nada de mais grave, graças a Deus. Ela me abraçara como se nunca mais fosse soltar, seus olhos chocolate, inundados de lágrimas.

-- Voce veio

Aos poucos, as peças do quebra-cabeça foram se encaixando em minha mente, mas nenhuma de nós entendia como ela conseguiu me visitar nos sonhos para que eu pudesse salvá-la.

A verdade? Eu acho que nunca saberia.

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