Aquela sala de aula era uma amostra grátis do inferno. Quente, desagradável e sufocante. Ao fundo, vestindo seu uniforme encardido, com a gola esgarçada, Marcos se esconde dos outros, de cabeça baixa a maior parte do tempo, rabiscando qualquer coisa no caderno, voltado aos seus pensamentos e preocupado com a hora de descer as escadas na hora do intervalo. Não era uma figura que despertava a simpatia dos seus colegas, pelo contrário, sua expressão carrancuda pouco tinha a ver com a maioria dos adolescentes da turma.
Estes pareciam ameaçadores para Marcos. Eles se reuniam para falar de coisas que para o nosso personagem não tinham a menor importância. Como se não bastasse, tinha mau hálito, usava roupas amassadas, e seu corpo magro, franzino, não compunha muito bem o conjunto. Seu rosto tinha feições grossas, o cabelo era castanho claro e ondulado, quase sempre sem um corte definido, pois tinha preguiça de ir ao barbeiro.
Estudava nesse colégio há poucos dias e com ele a maldita dificuldade de se enturmar. Havia sido tirado da escola particular, pois seus pais já não tinham como pagar a mensalidade, mesmo com a bolsa de estudos conseguida pelo apelo de sua mãe. Era o ano de 1992, Marcos estava com 13 anos e cursava a sétima série.
Encontrar uma maneira sutil de fugir da aula de educação física, do ambiente hostil e malicioso daqueles moleques burros era a coisa mais importante que passava por sua cabeça. Ao cair de volta em si, depois de divagar sobre tão relevante questão, Marcos percebeu que toda a turma conversava ao mesmo tempo, uma algazarra digna dos mais aterrorizantes hospícios. (certamente ele se dispersava em pensamento por que era quase impossível prestar atenção na aula). Provavelmente os grupinhos na sala tagarelavam sobre uma famigerada lista para eleger as pessoas mais feias e mais bonitas da classe e certamente aquele papel amaldiçoado iria chegar às suas mãos, como de vez em quando acontecia. O resultado já era conhecido de todos. A menina mais feia variava, e o menino? Sim, ele tremia mesmo sabendo a verdade, que era bem óbvia. Mas como já sabemos, às vezes o óbvio por ser tão óbvio nunca deixa de surpreender.
À frente da turma a professora em vão tentava explicar algo da enfadonha matéria de história. O livro mostrava uma máscara utilizada por uma tribo de alguma época remota, de algum lugar ermo. Era como um rosto levemente achatado, com orelhas de abano, o queixo diminuto e expressava algo entre a indiferença e o espanto. De repente, um dos alunos (ou demônios?) disse em alta voz: "Olha! Igualzinho ao Marcos!" E toda a turma riu alto! Como sempre Marcos era o palhaço da vez. Aquelas vozes, risadas, expressões tiveram um caráter ainda mais ameaçador e zombeteiro do que das outras vezes. Talvez até a professora tenha rido por dentro, mas interviu, repreendendo o malicioso colega. Marcos calou-se, reprimiu a sua vontade de desaparecer, um ódio profundo queimava em seu peito, dezenas de insultos queriam eclodir de dentro da sua alma, mas como sempre, absorveu, não transparecendo para ninguém a sua falha moral, afinal era uma besta bem domada.
Uma colega que sentava um pouco a frente, na fila da esquerda teve pena, pelo menos assim Marcos sentiu através dos olhos dela, que disse baixinho, com certa doçura:
- Marcos, quando acabar a aula preciso falar com você!
Ele apenas olhou indiferente, como sempre. Alheio, desconfiado de quase toda demonstração de empatia. Ainda mais vinda de uma garota cuja figura destoava muito dos padrões que ele idealizava como alguém que merecesse sua atenção.
Ao fim daquilo que era chamado de "aula", desceu as escadas sozinho, apressado. Havia no ar uma estranha liberdade representada em sua mente pelo portão de saída da escola. Era como a porta estreita que o levaria ao céu. Então todo mundo saiu como se nada tivesse acontecido. E de fato, o nada já havia acontecido há 13 anos antes, revelando-se quando Marcos nascera indesejavelmente.
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Sala de aula
Short StoryUm adolescente na sala de aula deslocado de todos e preso em seu mundo interior. Paradoxalmente sendo e sentindo-se um coitado, e ao mesmo tempo acima da média daquele bando de ignorantes.
