Fazenda de ratos

13 1 0
                                        

O homem se levanta antes mesmo do sol, e em plena madrugada liga seu rádio, que velho como ele, ainda funciona... Cheio de chiados e inconsistências.

Ainda pensando no que comeria, do seu quase nulo cardápio: Será que os pães já duros de uma semana atrás? Ou então aqueles restos de frango que já foram reaproveitados duas vezes, que ganhou do prefeito?

E como esperado, optou por nada. Nem mesmo a água o fazia bem, o saneamento era o mais precário possível. Tanto que ao beber a água prendia a respiração e fechava os olhos, para que não visse o que estava ingerindo.

Sua idade era uma surpresa, mesmo que na média, se surprendiam as pessoas ao saber que o homem ainda vivia em tais condições. Beirando seus setenta anos ainda tinha uma visão razoável e se virava bem.

Com suas quatro peças de roupa na mão, passava sempre por um bairro de classe média, a fim de chegar num pesqueiro. Sempre ia as 15:45, por que era a hora que estava relativamente vazio, e assim poderia lavar suas roupas sem levantar tantos questionamentos. Voltava a casa por volta das 17 horas, sempre apreciando as belas casas do tal bairro, mas apenas observando, pois já havia aceitado em seu coração seu triste fim.

Sua casa era de tijolos antigos cheios de buracos e sem acabamento, a porta tinha maçaneta quebrada, mas tinha um jeitinho para abrir, as telhas eram tão velhas que a qualquer momento poderiam cair em cima do pobre coitado. O chão era de barro, pois mal tinha dinheiro pra se alimentar, muito menos pra consertar as incertezas da casa, que nem luz tinha. A casa dele era um abrigo para os ratos, suas vidas eram tão insignificantes que o homem nem se importava com a presença deles. Ele até comparava sua vida com a deles, e o alimentava-os , até poderia dizer que se tinha ratos de estimação.

O homem costumava se deitar antes de escurecer, já que não tinha luz, mas sempre ficava acordado olhando para o teto levemente iluminado pelas luzes alaranjadas da rua, que passavam pelos buracos da porta e do telhado.
Já não era mais ansioso, só esperava seu fim e nem sabia se em algum momento foi feliz, isso era uma grande incógnita na sua cabeça.

De fato o homem nunca teve oportunidades, desde pequeno trabalhava, mesmo que contra sua vontade, para sustentar sua mãe doente. Uma coisa que era certa, é que sempre teve sede de estudar, mas nunca bebeu desse copo, e talvez isso o incomodasse, mas logo tirava esse desejo do coração, pois sabia que não podia abandonar sua única família.

Sua mãe sempre implorava pra ele a deixar e seguir seus próprios sonhos, mas o homem nunca teve coragem. A mãe sofria de uma doença nos ossos e nos pulmões, e mal conseguia se sentar à beirada da cama, até mesmo pra se alimentar era difícil, pois seus ossos eram muito fracos.

Uma noite antes de partir, segurou a mão de seu filho com toda força que restava, e então desamparada de tanto chorar soltou um pedido de desculpas acompanhado de um eu te amo, com a voz quase falha. O homem não aguentou, e já havia entendido que daquela noite sua mãe não passaria, então a consolou e a abraçou cautelosamente, retribuindo então todo o amor que ela já havia demonstrado a ele.

Ele tinha dezessete anos quando sua mãe se foi, e já havia perdido sua vida nesse momento, junto dela. Cresceu assim, e passou anos fazendo trabalhos que não lhe rendiam quase nada, até que ficou velho o bastante para parar de ser chamado para serviços. E desde então sua vida é a mais miserável possível.

Um fato interessante é que sempre antes de escurecer pegava a única moldura que tinha de sua mãe ainda jovem, e observava fixamente até que começasse a escurecer e então seus dias recomeçavam os mesmos de sempre... mas algo mudou, sua comida já era quase esgotada, o que lhe restou eram apenas pequenos pedaços mofados de pão, não poderia dar para os ratos, mas eles continuavam se alimentando das migalhas.

Dias se passaram e seu estômago já implorava por comida, sua visão já estava turva e mal tinha forças pra dar dois passos. Viu se sem saída e fez o que nunca imaginaria... apenas com uma pedra, jogou com força média contra o rato, e nem deu tempo do rato fugir, morreu na hora. O homem então decidiu fazer uma fogueira com os fósforos que lhe restavam, e assim fez. Assou o rato, o comeu e se deitou como de costume.

E o universo precisou mandar uma tempestade forte, por causa de tantos desequilíbrios ambientais, e a casa do homem não resistiu a ventos tão fortes...

Os vizinhos assustados e preocupados com o pobre homem então chamaram os bombeiros no dia seguinte, mas o corpo do homem já se encontrava sem vida, com vários ratos embaixo das telhas.

O homem no necrotério era um completo desconhecido, não tinha família nem amigos, e nem ninguém que o pudesse visitar seu frio corpo. No seu caixão foi colocado o quadro com a imagem de sua mãe emoldurado, para que pudessem descansar juntos. Naquele dia ninguém compareceu, apenas o coveiro, que ficou arrasado com a situação que chegou o homem.

O curioso é que em sua autópsia constava dias que havia morrido, morreu antes mesmo da tempestade. Teve a sorte ou o azar de ter comido um rato já envenenado, e morreu como um miserável...

O triste fim de todos Stories to obsess over. Discover now