A terra

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 "Foi o arcanjo que se tornou o diabo, 
mas suas asas ainda eram divinas. 
Se ele foi mais bem que mal, 
isso eu não posso responder. 
Mas eu provei os dois lados da fruta. 
E os dois eram suculentos."

Tudo o que eu pude fazer foi deixá-lo ir. 

 Não porque eu quis, ou porque o destino gritou sobre as margens daquele pequeno rio, mas porque aconteceu. E aconteceu como uma tempestade de verão. Uma chuva de calor que deixou a terra molhada sem uma gota d'água. 

 E tudo que eu pude fazer foi observá-lo se afastar, longe e lá longe, para outro planeta. Perto o suficiente e ainda o mais longe possível. É possível? Impossível. Ou não. 

 Começou com um aperto de mãos, simples e singelo. Tinha as mãos ásperas, aquelas de alguém que trabalhava no árduo, o carpinteiro no fim da rua, ou o pedreiro que eu via no prédio 24 todas as manhãs. 

 — Prazer — uma voz rouca natural, gelada de se ouvir. 

 Seus olhos eram castanhos. Claros. Escuros só as vezes. Mas castanhos. Vinham de outro planeta porque me mantinham em seu controle como uma arma à laser que podia cortar um alienígena ao meio. O alienígena que tinha o mesmo rosto que o meu. Coincidência, eu diria. Os cabelos eram de carvão, escuros e argilosos. Se enrolavam em sua cabeça num nó macio e suave que me forçavam a uma vigília eterna para não os desemaranhar. Mas eu queria desemaranhar o emaranhado e emaranhar o desemaranhado. Por todos os segundos que estive em sua frente. 

Tadeu. Esse era o nome dele. Bíblico, o nome. Vem de Judas, não do que traiu. Porém, ainda Judas, o Iscariotes. Penso agora se a ironia que ronda a vida estava presente desde os dias de Cristo, ou chegou com o big bang. Foi ela quem dizimou os dinossauros? Um meteoro de ironia. Parece viável. Não falei da pele. Era morena! Doce e morena. Não que eu havia provado, mas doce, com certeza. Uma jujuba, quem sabe. Ou seria doce demais? Brigadeiro. 

 Tamanha postura que ele possuía. Parecia um doutor. Quais são os seus sintomas? Batimentos cardíacos acelerados, suor, ansiedade, vontade de agarrar e não soltar mais. Desculpe, você vai morrer. Podia o imaginar sentado em seu escritório, as letras ilegíveis escrevendo poesias farmacológicas. Ele é seu paracetamol, uma dose diária deve bastar. Não sei se ele realmente foi, mas chegou perto. 

 Não passaram mais que segundos, segundos! E eu soltei a mão que parecia estar segurando por horas. Não foi amor à primeira vista. Isso não existe. Ou existe, mas não ouso confirmar o que nunca vivi. Não sei nem se sequer foi amor. Foi alguma coisa, alguma coisa forte, molhada, e feita de terra. Já tinha o visto antes, na rua 7, bendita rua 7. Ouvia o culto de longe, e me esquivava até a padaria. E lá estava ele. Não no culto, não na padaria. Mas na sapataria bem em frente. É difícil pensar agora que ele sempre esteve ali, mas só o encontrei quando já estava prestes a partir. 

 Um meteoro de ironia! 

 — Diego — eu disse naquele dia, esperando ser a melhor coisa que ele poderia ouvir. — Vocês colam sola de sapato? E pintam? A cor... não tem, na verdade. 

 Ele sorriu com timidez. Eu sabia que era apenas por ser um cliente e ele o vendedor. Mas aquele sorriso. Um sorriso, e um sorriso. Sonhos de sorrisos. Eu ri. Ele deve ter me chamado de bobo naquela mente inquieta. 

 — Colamos e pintamos, sim — tão gentil. Se eu não me derreti ali, uma manteiga não derrete ao fogo. — Requer algum prazo em específico? 

 O prazo que você desejar. — Não. Quando acha que poderei buscá-lo? 

 Seu corpo não era esguio, mas seus ombros eram largos. Devia ter um abdômen perfeito. Não tinha, mas era perfeito. Vestia ali uma calça jeans folgada, uma camisa branca manchada e um sapato vermelho. Destoante e lindo. Mais tarde me dei conta que usava o sapato para todo lugar. Não lembro se alguma vez me disse o porquê, mas sapatos ele possuía aos montes. 

Terra MolhadaWhere stories live. Discover now