O quarto

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Ele acorda deitado num chão sujo, sua cabeça dói. Está nu. Suas roupas estão em cima de uma cama velha, jogadas. Não seria fácil desamassá-las depois. Coloca as mãos na cabeça, e massageia suas têmporas. Fica transtornado com o cheiro de álcool. O quarto todo, todo, cheira a álcool. Principalmente ele próprio. Não é como se não estivesse acostumado com o cheiro, mas parecia pior do que o normal. Como se tivesse mais ali. Como se a bebida acompanhasse dor.

Suas memórias não conseguem se organizar, ele não consegue lembrar de nada do dia anterior. Respira fundo, e levanta. Cambaleia e bate com a perna na cama, solta um grito e cai no chão. Não havia doído tanto, foi mais pelo susto. Ele permaneceu naquela mesma posição por um tempo. Não muito, mas o bastante. Segurava sua perna com força enquanto deitava no chão, quase em posição fetal. Seus olhos estavam abertos, mas ele não estava acordado, não completamente. Ainda haviam resquícios da bebida em sua mente.

Ele estava assustado. Tremia, e temia. Tremia porque estava frio. Temia porque não conseguia amortecer os pensamentos. Não conseguia parar de se preocupar, parar de pensar no futuro. O que ele faria depois disso? Não tinha pra onde ir, não tinha dinheiro, não tinha amigos. Não tinha nada. Lágrimas desciam pela sua face, quentes e salgadas, rápidas e silenciosas. Ele não soluçava nem fungava, só chorava, muito. Um choro silencioso, sem expressão. Somente as lágrimas descendo numa face inexpressiva.

O tempo passava. Precisava sair de lá, o ambiente opressor do quarto parecia estar o sugando. Desajeitado, levantou lentamente e se apoiou na parede. Se sentia sujo. Olhou ao redor, e suspirou ao descobrir que o quarto não possuía banheiro. Xingou a si mesmo baixinho por ter colocado a si próprio naquela situação, em seguida respirou fundo, soltou o ar e começou a andar. Agora que estava mais próximo da mesma queria se jogar na cama, mas não podia, se não ficaria lá por mais uma eternidade, procrastinando pra levantar. Pegou suas roupas e as vestiu, da forma mais desequilibrada possível. Ainda estava tremendo. E ele não percebia.

Começou a vasculhar os bolsos de seu sobretudo, até que encontrou o que queria. Tirou a caixinha de cigarros do bolso e a abriu rapidamente, pegando um e o colocando na boca logo em seguida, mais rapidamente ainda. Retirou do bolso da calça um isqueiro, e acendeu o demônio. Deu uma longa tragada antes de soltar a fumaça, e quando a soltou, relaxou totalmente. Como se a dor tivesse sumido, mesmo ela estando lá. Se sentia mais sob controle do seu corpo. Sentou-se na cama e esvaziou a caixinha. Jogava os maços no chão, que era quase tão sujo quanto um cinzeiro. Não se sentia mal fazendo isso. Não estava na posição para se sentir mal com nada, além de si próprio.

Ao fim do último cigarro, se levantou e deu uma olhada ao redor do quarto. Não fazia ideia de com quem havia entrado ali. Havia um bilhete encima da mobília, que ele viu logo que se levantou, mas não pretendia lê-lo, sequer tocá-lo. Não cometeria esse erro. Não queria ser tocado por palavras doces e misericordiosas, que o fariam procurar pela pessoa misteriosa com quem ele se envolveu num quarto sujo. De novo não.

Sóbrio, ele saiu de lá, sem olhar pra trás. Não precisava dar importância pra nada disso. Era somente mais uma lembrança que ele tentaria esquecer, e não conseguiria. Somente mais uma lembrança que o devoraria pelo resto de sua vida.

O quarto {Oneshot}Wo Geschichten leben. Entdecke jetzt