Certa manhã acordei com minha mãe chamando meu nome no andar de baixo, o cheiro do café recém coado entrava pela porta entreaberta do meu quarto. Era uma manhã quente e o mundo parecia no modo silencioso, como se só a minha casa existisse ali. A sensação que aquele momento me trouxe me atingiu como um trem. Vazia. Eu me sentia vazia, e o fato de que eu tinha tudo que alguém poderia querer bem ali me frustrava também.
Meu pai provavelmente já havia saído para trabalhar e agora minha mãe estava falando com Nini — nosso cachorro — que latia na porta dos fundos, querendo entrar em casa e brincar.
Suspirei e cobri os rosto com o antebraço, pensando. Noite passada eu desejei que pudesse sonhar com alguma coisa. Qualquer coisa. Eu quase nunca sonhava, e nas poucas vezes que isso acontecia eram pesadelos. Mas até os pesadelos eram melhores do que nada — naquela noite não havia sonhado mais um vez.
Me remexi na cama tentando prolongar o meu sono, sem sucesso; até que finalmente abri os olhos e olhei para o despertador na cabeceira da cama. Eram 8h da manhã, e minha mãe não estava me chamando, estava brava gritando meu nome. "Acho que sua mamãe morreu enquanto dormia!", ela disse para Nini alto o suficiente para que eu pudesse escutar.
Afastei os lençóis e pulei da cama, indo direto para o banheiro enquanto tirava o pijama meio do caminho, largando as roupas pelo quarto. "Estou indo mãe!", eu gritei.
"Pelo amor dos Santos, Anastasia! Você disse que tinha prova hoje!"
Eu sei, mãe, eu sei!, era o que eu queria responder. Queria dizer que estava passando mal e faltar a escola. Em vez disso, lavei o rosto com a água gelada e escovei os dentes — não teria tempo de tomar café da manhã. Coloquei a saia xadrez do uniforme — e pela primeira vez, em dois anos, me senti grata pelo fato de ser uma saia — depois as meias, depois a camiseta de social... Que diabos! Pra que tantas peças de roupa? Agarrei a mochila da escola e finalmente sai do quarto.
Quando entrei na cozinha, dei um beijo na bochecha de minha mãe. Minha barriga roncou de maneira audível ao ver os pães e as bebidas na mesa. "Não vai comer?", perguntou ela.
"Tenho que correr", respondi, mas peguei a torrada com geleia que ela tinha em mãos assim mesmo. Ela soltou um suspiro de indignação e eu mandei um beijinho no ar em resposta. Passei pela sala e olhei para o relógio na estante que agora marcava 8:15. Tinha quinze minutos para chegar à escola e rezar para que o coordenador me deixasse entrar pelo menos para fazer a prova.
Isso era absolutamente impossível. A escola ficava a 35 minutos da minha casa, se considerarmos meu menor tempo. Ainda assim, calcei os sapatos e saí correndo. A esperança é a última que morre, não é isso que dizem?
Com as férias de verão batendo na porta do ano letivo, o universo não tinha nada a perder fazendo aquele dia chegar a uma temperatura de 34°C na sombra — lembrete: às 8h da manhã. Considerando isso, com apenas 5 minutos de corrida eu estava suando feito um ornitorrinco que acabou de dar cria.
Enquanto corria, minha cabeça estava nas férias de verão que começariam dali a uma semana. Eu não gostava do calor, não suportava, mas a ideia de poder acordar mais tarde e tomar café da manhã calmamente — não no caminho da escola ou dormindo em pé na cozinha —, colocar uma música, me alongar, ler um livro e levar meu cachorro pra passear no final da tarde, enchiam o meu peito de expectativa.
Fechei os olhos tentando imaginar a mim mesma em todas essas situações e esse havia sido o meu maior erro naquele dia.
De repente, quando virava uma esquina qualquer e como se o destino dissesse: "Para o inferno com sua paz e calmaria!", fui atingida na lateral direita do corpo — primeiro na perna, depois nas costelas e então o chão. Ouvi um grito, mas não sabia dizer se era meu. Demorei alguns segundos para me situar da situação.
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like a hurricane
Short StoryA experiência de se apaixonar é algo intenso, perigoso, destrutivo. Mas também é um fenômeno magnífico. Exatamente como furacões.
