Já faz tanto tempo desde a última vez que a vi, mas volta e meia me lembro dela vindo até minha casa, os cabelos desgrenhados, a voz cheia de euforia, entrava sem bater, iria correndo até qualquer cômodo que eu estivesse e recitava um trecho da música preferida da banda preferida dela: "
"Lock up all your memories, get outta here,
You know that we can run,
Today can last another million years,
Today could be the end of me,
It's 11:59, and I want to stay alive"
Lembro vividamente a primeira vez que fez isso. Pulou na minha cama, logo ao raiar do sol, após abrir violentamente a cortina e proclamou bem alto esse trecho. Levei um baita susto e respondi agressivamente:
- Mas que porra é essa?
- Isso é "Blondie" cacete, a música "11:59", te lembra que eu indiquei essa banda? Hein, Dionísio?
- Tá bem, eu ouvi, mas pra que me acordar assim, hein?
Nesse momento ela subiu em cima de mim e se inclinou sorrindo, parecendo que iria me beijar
-Ouviu é?
Mas logo em seguida ela recuava, franzia as sobrancelhas as arqueando, e emendava:
-Ouviu mesmo? Qual foi tua música favorita do álbum? O que tu achou de 11:59? Do som do contra baixo ? Dos riffs de guitarra de "I don't know"? Gostou da música disco deles "Heart of Glass"? Sabia que esse álbum tá na lista dos 1001 álbuns para ouvir antes de morrer?
Ela adorava indicar bandas para mim. Não só bandas, como filmes, seriados, livros, histórias em quadrinho e quase tudo sobre cultura pop que ela apreciava. Ficava muito empolgada falando de quanto uma música era boa, de quanto um filme tinha um roteiro maravilhoso, do quanto aquela história em quadrinho era engraçada e única. Eu também tinha um gosto por tudo isso, mas não ia tão longe quanto ela e também não costumava indicar pros outros.
Eu tentei responder com a velocidade que ela queria, mas sempre demoro um pouco pra responder algo quando iniciam uma conversa comigo, não costumo ser tão verborrágico como ela - exceto após beber umas cervejas - assim do nada e muito menos logo ao acordar. Com o que tinha de desperto na minha mente eu balbuciei com voz rouca:
- Ouvi sim, é um ótimo álbum, tem músicas bem diferentes, algumas de início de estranhei mas no fim gostei.
- Hmmm... só isso? Tu daria um péssimo crítico musical. Mas tudo bem, com o tempo tu vai apreciar a obra prima que é o "Parallel Lines" e também todos os álbuns da "Blondie".
- Beleza, mas tu veio aqui me acordar só pra isso?
- Não, tu que me fez me distrair, não prestou atenção no que falei?
- Na música da Blondie? Eu sou péssimo pra pegar inglês de ouvido...
- Ok, vou citar outro trecho só que mais devagar "Take it down the highway like a rocket to the ocean"
- Entendi, mas como assim? Tu quer sair agora? Pra onde?
- Isso porra! Sei lá, pra qualquer lugar, só quero sair e me sentir viva. Podemos ir pra praia, tanto faz. Seria ótimo se tu tivesse um conversível, não porque é chique mas porque daria pra sair por aí com vento no rosto em alta velocidade. Seria como em "Medo e Delírio em Las Vegas" mas sem as drogas, pois tu já faz barbeiragens sóbrio imagina sobre efeito de tóxicos.
Ao dizer isso ela soltou uma gargalhada, bem alta, escandalosa e exagerada, como só ela sabia fazer. Eu odiava isso no começo, naquele dia eu apenas suportei e hoje morro de saudade disso.
Ela tinha os olhos castanho claro. Dependendo da iluminação às vezes pareciam levemente verdes. Tinha a voz confiante, levemente rouca, passava tanto euforia quanto um ar de deboche. Ela gostava de fazer piadinhas, de ser sarcástica. Tinha uma atitude meio de rebelde. Quando a conheci o cabelo era castanho, mas dava pra ver que era pintado pelas raízes pretas. Ela sempre pintava o cabelo. Loiro, ruivo, castanho, com luzes, com mechas. Ela adorava mudar o visual. Adorava usar óculos escuros e abaixa-los até o nariz para enfatizar algo que queria dizer. O que quase sempre era algum deboche. Tinha o resto levemente arredondado e bochechas destacáveis mas não grandes. Era mais baixa que eu, media 1,63. Seu nome era Inara.
Ela tinha isso de ser exagerada, de dizer que o mundo podia acabar a qualquer momento, que tinha de viver intensamente e eu não. Isso me assustou de início, "quanta baboseira" eu pensei quando ouvi ela dizer no bar no meio da roda de amigos "...e mesmo se o mundo acabar, acho que não seria algo ruim, muito pelo contrário".
Mas tinha algo nela que me atraia. Talvez algo que faltava em mim. Além de que eu achei ela estupidamente linda. Fiquei com vontade de falar com ela mas tive vergonha. Estava deprimido, bebendo com um amigo. Estávamos afogando as magoas, havia sido uma semana péssima para ambos.
Só que vi que ela usava uma camiseta da banda Blondie. Uma bela camiseta com a foto do álbum "Parallel Lines". Nesse barzinho que tinha ar retro existia uma jukebox. Quando tive oportunidade coloquei tocar "One Way or Another".
Ela ouvi e pulou bruscamente da cadeira gritando "BLONDIEEEE, YEAAAAH" e em seguida dizendo "Mas quem colocou tocar ? Vem cá que eu quero beijar essa pessoa na boca". Eu me espantei e timidamente levantei meu copo de cerveja. Ela veio até mim e começamos a conversar. No fim da noite nos beijamos. Eu dei graças a Deus por conhecer umas músicas daquela banda pois salvou a minha noite.
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11:59
Short StoryUm jovem relembra um relacionamento antigo para conseguir curar a ferida deixada por ele e poder seguir adiante.
