O primeiro beijo

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Era 2000 e alguma coisa. Faz tanto tempo que sequer lembro o ano, isso vai piorando conforme vou ficando mais velha. As lembranças permanecem fortes, cada emoção provocando a mesma reação e intensidade da época, mas o ano, esse detalhe pequenininho, quem vai lembrar?

Estava naquela idade em que as meninas que não gostam ou beijam meninos são atrasadas e tratadas como crianças. Poxa, você já tem sei lá quantos anos, como assim não beijou ainda? Não tá apaixonada por alguém? Qual seu problema? O meu problema, eu dizia pra mim mesma, era estar distraída. Não pensava em meninos, em beijos ou em sexo. Já estava ocupada demais pensando em estudar, em ler um livro, assistir série. Pensava que quando houvesse um menino legal eu iria me interessar e tudo daria certo. Não havia necessidade de sair por aí, beijando todos, se eu nem ao menos gostava do sujeito.

Quantas vezes, pensando hoje, as amigas chegaram cochichando "fulano gosta de você", "fulano quer te beijar", ou a pior de todas, "fulano quer ficar com você". O ficar me parecia algo assustador. Eu e mais um menino qualquer, grudados no meio da rua, com a escola toda observando. Por que era assim que as coisas aconteciam, na hora do intervalo já saía a fofoca, quem ia ficar com quem. Na hora da saída, uma multidão subindo a rua, alguns passos atrás do casalzinho, que conversava. A menina sempre fazendo as vezes de tímida, mesmo que nós soubéssemos que ela era tudo menos isso, o menino fazendo o papel de galã pronto para balançar o mundo das mocinhas. Então chegava a primeira esquina depois da escola. Momento de tensão. Menino e menina param de andar. A mão de um segura a mão do outro. O menino se inclina, o cabelo da menina cai na frente do rosto. O beijo em si durava muito pouco, e para ser sincera era tão rápido que praticamente não dava pra gente que estava de fora ver o que aconteceu com detalhes. Ainda sim, soavam os gritos, assovios. O menino parabenizado por beijar a menina. A menina que era bom estar apaixonada e não pensar em beijar outro tão cedo, ou corria o risco de ficar falada.

Não estou fazendo caso, mas lembro que cheguei a recusar alguns pretendentes. Não era a mais bonita e simpática da escola, longe disso. Sempre fui a nervosinha, magrela, com o cabelo volumoso. No falecido bate papo, recebia piadas caçoando um ou outro traço da minha aparência ou personalidade. Sempre dos meninos. Sempre dos meninos que supostamente gostavam de mim. Nunca entendi se gostavam porque faziam isso. Enfim, o ano era sabe se lá qual, mas a questão é que as recusas estavam em um ponto em que eu mesma me perguntava por que tanta frescura, por que não beijava logo um cara qualquer e arrancava de vez esse rótulo de boca virgem.

Como essa situação toda de beijar meninos da escola me deixava nervosa, pensei que a solução seria ficar com alguém de fora dela. No princípio não me pareceu uma ideia simples, por que sempre fui quietinha não saia e ainda era jovem pra ter permissão da minha mãe pra ir em certos lugares em que beijar seria considerado fácil.

Lembro que naquele ano fiz uma nova amiga, a Carol. A Carol era falada. Já tinha tido alguns namorados e o boato que circulava era que também não era mais virgem em outras partes além da boca. Eu gostava dela e o que ela fazia com os meninos pouco me importava. A questão é que depois de algumas semanas de amizade chegou o convite para ir visitar a casa dela. Porém, ela disse, estariam na casa ela, o namorado atual e o primo, aquele mais velho, que veio de São Paulo e que ela já havia beijado. Marcos era o nome. Engraçado como a gente lembra de certas coisas e de outras não. O nome dele tá aqui até hoje mas se me perguntarem o que jantei ontem não consigo lembrar.

Não houve pressão ou planos de que formaríamos no dia um casal. Isso foi o que me agradou e fez com que tomasse a decisão: ia perder meu bv com o Marcos. O engraçado, é que decidi isso sem sequer ver a cara dele, se achava bonito ou feio. Tudo me pareceu muito simples no momento, eu era uma menina, uma adolescente, resolvida que a hora de beijar pela primeira vez havia chegado. O Marcos era um menino, já saindo da adolescência, solteiro. Pareceu aquela música da Avril Lavigne, ele era um menino e ela uma menina, não poderia ser mais óbvio.

No dia de ir visitar a Carol tentei me esforçar mais na questão da aparência. Os cabelo foram mais alisados do que o normal, o brinco da orelha cautelosamente escolhido e a blusa era uma que a eu adolescente acreditava destacar tudo que precisava ser destacado. E lá fui eu, pronta pra beijar esse desconhecido.

É aqui que a memória me falha. Lembro do antes de sair de casa mas depois disso só consigo lembrar da terrível cena do beijo. Juro que não sei como aconteceu. Gosto de pensar que devo ter conversado com ele e ido com a cara do sujeito, mas a verdade é que devia estar só muito determinada a beijar logo e descobrir como era afinal. Quando penso nesse primeiro beijo as duas memórias mais fortes que tenho são de observar as fotos de quando minha amiga era criança, que estavam na estante atrás do Marcos, e no quanto fiquei entediada.

A sensação que tive foi de que o beijo durou uma eternidade. E não foi no bom sentido, onde pensamos que o tempo parou, tudo girou, sinos tocaram e o coração acelerou. Cheguei em um ponto onde pensei que não aguentava mais beijar aquele cara. E quando finalmente nos separamos, a Carol, que estava também beijando o namorado no sofá em frente ao nosso, ficou rindo e comentando como beijamos bastante, que deveria estar boa a coisa.

Só sei que me senti muito incomodada depois desse beijo. Não estava mais confortável naquela casa, com aquelas pessoas, aproveitei que morava perto e corri pra casa. Sentia uma angústia e não conseguia definir bem o porque. Deitada na minha cama, sozinha, tudo escuro, tive uma crise de choro.

Depois de muito chorar consegui entender que não gostei daquele beijo. A dúvida que não silenciava era se o problema seria com o Marcos ou comigo. Será que ele não beijava bem, por isso não gostei? Será que eu estava esperando demais? Afinal, a vida real é diferente dos filmes. Não escutar sinos tocando e me sentir nas nuvens não significa que beijar é ruim. Pensava muito nessa metáfora dos sinos tocando, acho que relacionava isso ao fato de que quando beijasse alguma coisa deveria acontecer, mas nada aconteceu.

Mais tarde eu entenderia que quando se trata de homens e eu, nada acontece.

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⏰ Last updated: Aug 16, 2020 ⏰

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