Parte I - Lembranças de Morte
Eu estava flutuando em meio ao Vazio Eterno. Outro universo havia caído, toda aquela luz... simplesmente desvanecendo em frente aos meus olhos. Ainda podia me lembrar, era como se estivesse gravado no cerne de minha existência. Havia uma árvore, brilhando como todas as estrelas no céu e uma voz, suave como a brisa de uma primavera distante:
– Você se chamará Morte.
Assim se deu início. Eu pude ver toda sua existência do começo ao fim, de seu levante à sua queda e para cada criatura o momento exato em que sua existência deveria acabar, quando viessem a me conhecer pessoalmente.
Foi só no momento exato em que o 5º universo de minha alçada viria a seu fim, quando eu deveria conhecer sua deusa de criação, que não pude suportar o fardo que havia carregado por tanto tempo. Aqueles que estavam acima pareciam zombar de mim, pois uma criança atemporal se formava em seu ventre. A deusa deveria morrer, isso era certo, mas o feto só morreria se eu assim o decidisse. A hora havia chegado, a escolha deveria ser feita, mas como poderia? Em um ato de desespero ou esperança pus a mão em seu ventre, trazendo a criança para mim no momento exato em que sua mãe pereceu.
Tudo ao redor desapareceu. Eu estava flutuando em meio ao vazio eterno. O universo havia caído, toda aquela luz... simplesmente desvanecendo em frente aos meus olhos.
O feto se desenvolvia dentro de meu próprio ventre enquanto o vazio nos carregava para longe de qualquer memória de existência. É difícil calcular tempo quando ele não existe de fato. Poderiam ter se passado dias, ou milênios quando finalmente encontrei novamente a árvore sagrada. A criança estava completamente formada em meu ventre disso eu tinha absoluta certeza. Seu nascimento veio acompanhado de muita dor, mas também esperança. E talvez eu ainda não pudesse entender completamente no momento como aquilo poderia ser possível. Como a Morte poderia trazer à existência algo tão belo? Mas eu podia sentir que aquilo fazia parte de algo muito maior. Foi segurando suas mãos pela primeira vez, que cheguei à única conclusão que poderia naquele momento.
– Você se chamará Vida.
Agora vejo que as coisas são exatamente como devem ser e acontecem exatamente quando devem acontecer. Pois no momento exato em que pronunciei essas palavras um novo Big Bang aconteceu, com uma nova cor, uma nova proporção, um novo deus de criação e uma nova palavra para a existência.
Parte II - Lembranças de Vida
Eu sempre gostei de observar o fim das coisas. Pode parecer estranho de se pensar nisso quando sou na verdade a responsável por seus começos. Acredito que seja pelo fato de não ter desvendado minha própria origem, o que deu início a mim? Tudo que consigo lembrar é do Vazio, o lugar fora dos lugares, o espaço entre os universos, existindo à parte da existência. E uma imagem gravada no cerne de minha existência, o Baobá, brilhando como todas as estrelas no céu. Então uma voz, suave como as folhas caindo das árvores em um outono há muito esquecido.
- Você se chamará Vida.
Assim se deu início. Todo um conhecimento milenar passou por mim com a luz do primeiro Big Bang que presenciei. Eu sabia o nome de todas as coisas pois ele vinha acompanhado do começo de suas existências, meu toque. Eu podia senti-los crescendo com o passar do tempo, caminhando em direção ao momento de seu fim, quando eu deveria deixá-los. Eu estava sempre presente, lhes abraçava fortemente e então me afastava ainda olhando em seus olhos, vendo-os seguir em frente e nunca retornar.
Foi quando eu estava no quinto universo de minha alçada que recebi a mais improvável das tarefas, trazer vida quando deveria deixá-la acabar. Era como uma energia, mais forte do que qualquer outra coisa que eu já houvesse presenciado. Um chamado dAqueles que estavam Acima. Lá estávamos nós, eu e a deusa de criação daquele universo. Era estranho, seu nome era antigo, mais antigo que o Vazio e a Árvore Sagrada, tão antigo que eu não poderia sequer pronunciá-lo. Mas seu significado veio até mim, pois ela era a Mãe de Tudo. Eu não havia lhe trazido a existência, mas deveria presenciar seu fim. Quando estendi a mão tocando seu ventre pude sentir sua vida se esvaindo e escorrendo por entre meus dedos. Ela estava morta, uma lágrima escorreu pelo meu rosto, desceu por meu pescoço e seguiu em direção a minha barriga onde, de repente, parou e foi absorvida. Algo novo aconteceu, algo estava crescendo dentro de mim. Ao colocar a mão sobre meu ventre pude ouvir um suspiro, a deusa havia voltado a mim e quando abriu seus olhos uma grande explosão me jogou pra fora da existência. Eu estava flutuando no Vazio, pareciam ter se passado apenas alguns segundos e ao mesmo tempo muitos milênios. Eu podia ver a deusa morrendo e então voltando a vida em frente aos meus olhos repetidamente até que ambos os momentos se misturassem se tornando um.
Quando finalmente cheguei aos pés do Baobá, a Árvore Sagrada onde havia nascido, pude sentir que estava na hora. A criança que havia se formado em meu ventre nasceu e aquele foi o momento mais bonito de toda minha existência, cheio de dor, mas também esperança. Foi olhando em seus olhos pela primeira vez que percebi aquilo que sempre soube:
- Você se chamará Morte.
Agora vejo que as coisas são exatamente como devem ser e acontecem exatamente quando devem acontecer. Pois no momento exato em que pronunciei essas palavras a explosão causada pela Mãe de Tudo voltou a me alcançar me afastando do Baobá, mas sem me carregar para dentro de seu novo universo. Permaneci parada do lado de fora, observando. É como se o começo e o fim estivessem acontecendo simultaneamente aqui. Estou perto de seu início e posso ver seu fim a uma distância imensurável. É quando a vejo e mesmo que pareça ter a mesma idade que eu, a reconheço imediatamente. Como poderia não? Afinal a gerei em meu próprio ventre. Nos aproximamos devagar, luz e escuridão, início e fim simplesmente coexistindo.
- Vida. - Ela diz, sua voz suave como as folhas caindo das árvores em um outono há muito esquecido.
- Morte. - Respondo, tendo a plenitude de saber como ela ouve a minha, suave como a brisa de uma primavera distante.
- Como isso é possível? - Perguntamos ao mesmo tempo.
A luz inicial me envolve enquanto sinto uma forte necessidade de trazer vida àquele novo universo. Posso ver que ela também se sente atraída por ele, por seu fim. É quando olhamos nos olhos uma da outra que nossos pensamentos se alinham com a resposta que sempre procuramos:
- Você é a causa da minha existência.
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Te Conto De Noite
Historia CortaNão menos nem mais sinceras que memórias de outras vidas, apenas histórias que a noite me conta.
