Capítulo 1

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Vamos lá, Natasha! Você consegue! – Ela diz entre os dentes.

Natasha Davies faz uma série de piruetas aparentemente intermináveis, subindo e descendo em um pé em ponta e girando ao redor continuamente. Ela tenta fazer os giros até a trigésima segunda vez, mas quando seu giro chega na vigésima sétima vez, Natasha desequilibra e despenca no chão.

– Droga...

Natasha Davies cerrou os dentes, encolheu-se, permanecendo abaixada; seu corpo estava com muitos arranhões azadas por suas quedas ao chão constantes, mostrando a sua perseverança para conseguir dar todas as voltas. Balançou a cabeça para sequer pensar que era incapaz, ela tem dado tão duro... acreditava que em algum momento iria conseguir.

Pensou que a iluminação da Academia Real de Dança estava interferindo nos seus passos de dança reincidentes e impedindo-a de dar todas as voltas, ela custava acreditar que fosse isso. Havia invadido o lugar a noite só para treinar um pouco mais e não queria que seus esforços fossem em vão.

Natasha sentiu seu coração oscilar por um instante.

A Academia Real de Dança é uma banca internacional de júris do balé tradicional em Londres e é a maior organização de exames de professores de balé clássico do mundo, sendo reconhecida amplamente como uma das mais importantes e completas bailarinas inglesas de todos os tempos, e o mais ponderoso do ponto de vista de Natasha é que aquele ano de 2020 marcava o primeiro ano em que a competição de dança se realizaria na Casa de Ópera Real em Londres, oferecendo aos jovens bailarinos uma chance de apresentarem num dos palcos mais icônicos do mundo. Natasha não queria perder essa oportunidade. O que ela cobiçava, era impressionar a todos fazendo o terceiro ato de "O lago dos cisnes" do Cisne Negro. Natasha tinha muita confiança de que iria conseguir, apenas precisava treinar um pouco mais.

Natasha fitou o chão e sacudiu a cabeça. – Eu não posso amarelar agora – ela murmurou. – Ou então tudo que passei para chegar aqui...

Natasha relembrou de uns anos atrás quando ainda estava morando no Brasil, e nem mesmo seus pais acreditavam que ela poderia ir longe assim. Natasha fazia cursos, mostras de danças para a Academia Real de Dança e exames o ano todo. Ela nunca foi de precisar da aprovação de alguém para fazer algo, mas se sentia triste às vezes por ninguém torcer ou ficar feliz por ela. Mas, na verdade, isso foi até um incentivo para ela continuar tentando, ela queria provar para todos que estavam errados. Natasha não era de desistir fácil dos seus sonhos, e não seria agora que desistiria.

Do palco, Natasha viu chuviscos movendo-se rapidamente pela janela de vidro da sala de imprensa voltada para o palco, que embora persistente não demonstrou que propiciaria  danos. Diferente das cidades brasileiras, em que o período que mais chove concentrava-se no verão, a média mensal em Londres não era de variar muito. Ou seja, chove pouco durante todos os meses do ano, quantidade equivalente ao que chove em São Paulo e Rio de Janeiro. Mas de repente Natasha ouviu o som de um forte temporal, como se estivesse tendo uma tempestade do lado de fora, mas aquilo não fazia sentido para ela. Natasha notou que a janela da sala de imprensa ainda caía apenas uma orvalheira e nada mais.

Natasha sentiu seu peito acelerar quase que imediatamente, suas mãos tremiam sem ela dar-se por conta. Do outro lado do palco, Natasha Davies avistou uma névoa escura e espessa deslizar na sua direção. A morena já havia constatado aquela névoa antes quando tinha apenas sete anos; doze anos atrás. Ela não estava certa de que se tratava da mesma névoa, mas uma parte dela sabia que não era uma névoa comum. Névoa Primordial talvez? Calígena? Ou... tudo aquilo não se passava de uma ilusão da sua cabeça? Natasha perguntou-se por um breve momento se estaria somente ficando louca, já que enxergava uma mulher resvalar pela névoa algumas das poucas vezes. Dava a impressão que a figura feminina era a própria névoa ou quem sabe o próprio caos.

A névoa se aproximava cada vez mais dela, e quando ela estava quase tocando o seu rosto, Natasha notou que o som da tempestade que achou que vinha do lado de fora da academia, estava vindo de dentro da névoa. Os raios que deviam estar riscando o céu, riscavam toda aquela névoa negra. Quando não havia mais espaço no palco para fugir da névoa, Natasha viu o momento em que a névoa girou em torno dela e a imagem de uma figura feminina olhou no fundo de seus olhos. A energia era quase sombria.

Natasha fechou os olhos com medo do que poderia lhe acontecer, e sentiu algo naquele ambiente mudar. Natasha abre os olhos e se depara com uma floresta de 3 quilômetros quadrados, com sua fronteira sul começando em uma crista que corre de leste a oeste, não contendo a íngreme encosta sul da colina. Ao norte, a floresta terminava em uma encosta mais suave. Mas não foi só o ambiente em derredor que havia mudado. O seu traje de bailarina tinha ganhado uma outra coloração. O vestido não chegava nem perto do tutu da Marie Taglioni, em 1832, porém, a sua cor viva e pura havia se perdido e se tornado escura e fria.

A floresta era bastante parecida com a da Transilvânia, mas Natasha sabia a diferença. Olhando para todas as árvores, Natasha Davies reparou que elas tinham um aspecto esquisito, estranhamente moldadas, e carbonizadas sem nenhuma explicação em uns tocos e galhos de árvores. Até o vento daquele lugar parecia falar coisas a ela, coisas que ela não se preocupou em decifrar. Olhou para cima, através de todas as folhas das árvores, a noite havia caído e uma chuva imensamente forte cobriu a floresta. Ela espantou-se ao perceber que estava totalmente molhada e que seu traje apertou o seu pequeno corpo. Seu coque bem feito havia desmontado e caído em suas costas, grudando todos os seus fios de cabelo no seu dorso.

Ela se virou rapidamente quando sentiu ser observada, e não muito longe de onde estava notou que a névoa estava se locomovendo até ela novamente, seus olhos castanhos claros arregalaram-se temendo o que aquela névoa poderia fazer com ela. Levou-a para aquele lugar quase sombrio, talvez agora queira machucá-la ou pior. Então Natasha resolve correr para mais adentro da floresta sem ao menos olhar para trás.
– Socorro! – Natasha grita quando vê um garoto parado no meio da floresta.

Ela se joga nos braços dele antes que ele tivesse tempo de entender alguma coisa. Então ele a afastou de si e deu dois passos para trás para analisar ela melhor. Então ele a olhou de cima a baixo com cautela.
– Quem é você? – indaga ele, arqueando as suas sobrancelhas.
– Eu...

Quase Sombrio | Finn WolfhardHistórias para pegar e não largar. Descubra agora