S - O - L

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*Clara *

Eu gosto de pintar o sol, porque ele sempre nasce bonito. Pelo menos é o que eu acho. Todos os dias, ele tem a mesma função. Esteja o dia frio, quente, nublado, alegre ou triste. Ele sempre está lá, brilhando. Independente de como esteja toda e qualquer vida ao redor dele. Mesmo que as vezes a gente não consiga enxergar seus raios, pelo tempo fechado, ou pela distração do dia, ele ainda continua brilhando. Minha mãe gostava do sol. Pelo menos foi o que me disseram e todos os dias, uso o sol como exemplo para não desistir. Porque as vezes, é isso que eu simplesmente quero.

D E S I S T I R.

As pessoas dizem que desistir é coisa de fracotes e que eu deveria enfrentar meus obstáculos de frente.  Mas a verdade é que eu não acho válido ter que enfrentar coisas que nunca escolhi mas infelizmente, tenho que lidar.Eu ainda tenho dezessete anos. Faltam apenas alguns meses para dezoito. Legalmente, serei uma adulta, mas não me importo muito com isso. Não me sinto mais nova que um idoso, ou menos responsável que um adulto.

Eu moro com o meu pai desde sempre. Minha mãe morreu quando eu nasci. E apesar de tentar fingir que isso não me afeta, isso me afeta e vai afetar por todos os dias, até o resto da minha vida. Eu nunca pude conhecê-la. Nunca pude dormir embalada ao som da sua voz, ou abraçá-la. A vida tem seus planos, mas em nenhum deles, estava incluído me deixar conhecer a minha mãe. E assim eu vivo desde então. Sentindo falta de algo que nunca tive, nem vou ter. Ironicamente acho, que isso não faz sentido. Por isso sei que nenhuma coisa nesta vida, tem o poder de preencher o buraco que ela deixou quando se foi. Porque apesar de não estar aqui, em alguns momentos, a presença dela pesa como uma neblina úmida da montanha. Impossível não sentir.

Morar na área rural de uma cidade pequena não é ruim, até você perceber que precisa andar mais do que os outros para chegar a escola e que não existe praticamente nada ao redor. Eu até poderia pegar o transporte escolar mas, eu gostava de aproveitar minha própria companhia e também, curtir o silêncio da manhã, antes de ouvir centenas de adolescentes gritando.

Hoje até poderia ser o primeiro dia de aula do terceiro ano, onde todos estariam animados para falar sobre suas expectativas, faculdade, futuro e etc. Mas para mim, era só mais um dia comum, onde tudo estava cheio de rotina. Não que eu não tivesse sonhos ou não pensasse em algo para o meu futuro. Eu penso. Eu sonho. Eu só não me sinto confortável para falar. As pessoas da minha idade sonham em serem aprovadas em medicina, Direito, Engenharia, odontologia e qualquer outra coisa que dê reconhecimento e dinheiro. Eu não. Se eu pudesse, seria artista. Eu gosto de pintar. Não faço nada que se compare a Van Gogh ou Picasso nem mesmo a Anita Malfatti ou Tarsila do Amaral. Quem me dera chegar perto do tamanho da magnitude que eles possuíam, passada em cada pincelada dada em suas telas. Eu não faço nada parecido. Mas eu coloco minhas emoções em cada parte pintada e se pudesse, eu viveria disso. Porque é como se a minha alma se sentisse bem ali. Mas num mundo onde computadores conseguem fazer todo tipo de desenho, arte ou caricatura, fica difícil acreditar que ainda existe espaço para a pintura.

Olhando no relógio percebo que não tinha mais tempo, eu precisava sair de casa para não me atrasar. Teria que terminar o quadro mais tarde. Abandono o pincel e rapidamente pego meus sapatos pra calçar e sair. Ainda havia tinta fresca nas minhas mãos, então acabei manchando um pouco do meu tênis com amarelo. Fiquei nervosa, mas decidi ignorar. Peguei minha mochila e saí de casa. Meu pai ainda não havia voltado para casa. Ele tinha ido dormir na casa de sua namorada que ele nunca oficialmente tinha me apresentado.

Enquanto caminho começo a pensar em algumas coisas que me desanimam. A mesma mochila desde o primeiro ano. Os mesmos all star gastos mas que, para mim, nunca perdiam o estilo. A blusa preta com um desenho branco de um violão que Célia tinha me dado há uns seis meses. A calça jeans preta com dois rasgos enormes no joelho que me fizeram tomar 3 suspensões no ano passado por usá-la, até que desistiram e me deixaram entrar com as roupas que eu quisesse (como se eu tivesse várias opções). Sorri. Eu era conhecida por não ser padrão. Tanto faz.

The Colors of the RainbowCerita yang bikin terobses. Temukan sekarang