Os gritos ainda ecoam na minha mente, seguidos pelo som violento de porcelana estilhaçando no chão. Depois, o silêncio cortante. Lembro do meu pai entrando no meu quarto com um sorriso pequeno, quase cínico, se despedindo com aquela promessa que eu, inocente, guardei no peito: "Eu volto para te buscar".
Ele nunca voltou. Com o tempo, entendi que as promessas dele tinham o peso do vento. Ele se esqueceu de mim logo após sair de casa. Esqueceu-se quando minha mãe morreu. E continuou esquecendo, ciclo após ciclo. Minhas apresentações de balé ganhavam palcos cada vez maiores, as luzes da ribalta se acendiam, as cortinas se abriam, e os meus olhos sempre procuravam, em vão, uma cadeira vazia na plateia. Aniversários, Natais, formaturas... para ele, eu era apenas um detalhe esquecível.
O destino, ironicamente, me deu Rebeca. Minha madrasta. Sem ter qualquer obrigação de sangue, ela se tornou o meu avesso de solidão. Cruzava o oceano para me ver dançar, me ligava quase todos os dias e gastava cada grama de sua energia para garantir que eu me sentisse parte de algo, parte de uma família. Enquanto isso, a casa que dividia com minha tia Júlia era um campo minado. Júlia não foi uma escolha, mas uma imposição da herança da minha mãe. Ela nunca quis ser mãe, e a garrafa de uísque que raramente saía da sua mão era a prova de sua fuga constante da realidade. Nossa convivência era um caos silencioso, um convívio torto entre os meus ensaios exaustivos e os seus desvarios alcoólicos. Ainda assim, mesmo entre um porre e outro, era a voz rouca de Júlia, sussurrando sobre a importância da técnica e da disciplina, que me impulsionava a calçar as sapatilhas. Ela me empurrou para o balé não por afeto, mas talvez porque, na sua visão distorcida, o sucesso nos palcos fosse a única forma de me ver longe de sua vista o maior tempo possível.
O balé não é só minha profissão; é o meu oxigênio. Eu não sei existir de outra forma que não seja na ponta dos pés, transformando minha dor em arte. O suor e as lágrimas que derramei nas salas de ensaio me moldaram. Venci os principais prêmios do país e alcancei o topo no YAGP, gravando meu nome no cenário internacional. Aquela bolsa de estudos na academia mais renomada do mundo era o meu passaporte de fuga. Minha chance de voar alto.
Mas a vida adora rir da nossa cara. Para viver o meu sonho em Nova York, o preço é um pesadelo: sou menor de idade e sou obrigada a morar sob o mesmo teto que o homem que não vejo há quase uma década. Meu pai. Engulo o seco só de pensar. Mas isso tem prazo de validade. No segundo em que eu completar a maioridade e a herança da minha mãe for liberada, eu compro a minha liberdade em forma de um apartamento em Manhattan e fecho aquela porta para sempre.
Agora, ele me envia mensagens dizendo que está arrependido, que quer "recompensar o tempo perdido". Como se a distância tivesse sido uma escolha minha. Como se as dezenas de vezes em que liguei chorando, implorando por um minuto de atenção dele, nunca tivessem acontecido. Ele acha que vai encontrar aquela garotinha boba que chorava no quarto esperando um milagre. Mas a menina que ele quebrou aprendeu a se reconstruir sozinha. E, no palco da vida real, ele não passa de um estranho.
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Dançar e perdoar
RomanceLily Almeida é uma jovem bailarina de 17 anos, recém formada no ensino médio e prestes a se mudar para Nova York. Seus pais se separaram quando ela ainda era criança, seu pai, Rodrigo Almeida, seguiu com a vida em Nova York, onde se casou novamente...
