20 de março de 1987
- Você vai continuar deitada? - Polly questionou inconformada, enquanto observava o pátio pelas grades da janela. - Estamos perto do horário de visitas, vamos poder tomar um pouco de ar fresco! - Minha colega de quarto completou animada.
- Eu não quero ir. - Respondi seca.
- Sunny, colabora consigo mesma, você sabe que é obrigada a ir e que agir com rebeldia piora tudo! - Ela alertou séria e eu inspirei pesado.
- Passar a tarde de domingo sozinha no pátio, assistindo as outras internas com os familiares, deve fazer parte do tratamento de choque para as renegadas!
- Falando sozinha de novo, Sunny?! - Grace, uma das enfermeiras responsáveis pelo turno da manhã da minha ala, indagou rindo, eu a ignorei e encarei o teto, enquanto Polly resmungava qualquer coisa. - Eu escolhi essa blusa para você usar hoje, para combinar com o dia ensolarado que está fazendo... - A enfermeira contou em tom doce, enquanto me mostrava uma blusa amarela, com estampa florida.
- Eu queria poder ficar aqui.
- Mesmo sabendo que o seu irmão veio te visitar?
- O Ed está aqui? - Indaguei em um misto de surpresa e euforia e praticamente pulei da minha maca, Grace riu e começou a desamarrar a minha camisola.
- Finalmente eu vou conhecer o tão falado Eddie! - Polly comentou animada.
- Nem pense em ficar o tempo inteiro colada em mim, apenas veja ele e se manda!
- Não se preocupe, você sabe que não faz parte do protocolo que as enfermeiras acompanhem as internas durante as visitas. - Grace respondeu tranquila e começou a me vestir com a blusa que escolhera, além de uma bermuda jeans.
- Eu não estava falando isso para você.
- Sunny, por favor, siga o meu conselho e pare de dar atenção para o que não é real, ou intensificarão o seu tratamento. - A enfermeira pediu preocupada.
- Eu sou real! - Polly gritou irritada, eu apertei os olhos e inspirei profundamente, aquela situação deixava a minha mente ainda mais bagunçada. - Já entendi, você não me quer por perto, vou dar uma volta. - Minha amiga comentou chateada e desapareceu, eu queria chamá-la e me desculpar, mas sabia que fazer isso apenas pioraria a minha situação.
- Pronto, agora sim você está apresentável para encontrar o seu irmão! Me disseram que ele está bastante ansioso para te ver. - Grace contou em tom gentil, após terminar de ajeitar o resto de cabelo que eu tinha, eu abri um sorriso largo e a acompanhei até a área externa.
Geralmente, domingo era o dia da semana que eu mais odiava, pois, além de me trazer lembranças dolorosas, era o único dia em que os internos podiam sair do interior do enorme casarão do século XIX, que abrigava o hospital psiquiátrico estadual, para encontrarem seus familiares no extenso jardim, que servia como pátio, e eu não sabia o que era pior, passar horas sozinha, como boa parte dos internos, que geralmente não recebiam visitas, ou ter que lidar com o meu pai e a com a minha madrasta, nos poucos dias em que eles resolviam ir me ver. Cada vez que eu precisava sair do quarto, fosse no dia de visitas, na hora das refeições, do banho, ou da "socialização" (que era como eles chamavam o ato de juntar diariamente todas as internas no mesmo nível de "periculosidade" em um grande salão, para fazerem atividades distintas), era uma tortura, eu odiava ter que lidar com tantas pessoas, era difícil saber quais delas só eu via, além de ser revoltante ver o número de pessoas mentalmente saudáveis, presas naquele sanatório e recebendo tratamentos tão inadequados, por isso, eu sempre ficava isolada e não respondia ninguém, já no meu quarto era bem mais fácil, eu só convivia com a Polly, que eu sabia que ninguém mais era capaz de ver.
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Why Go?
RandomNo final da década de 80, o movimento Grunge nascia em Seattle e Eddie aproveitava o momento propício para tentar atingir o seu objetivo de sobreviver através da música, ao mesmo tempo, Sunny, sua irmã adotiva, tentava manter-se sã, enquanto permane...
