Estevam - Me desculpa, passarinho

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Atirei uma pedra no ramo de folhas tentando acertar um passarinho. Ele voou. Era uma árvore muito verde, cheia de vida. Eu não sabia identificar o impulso de ter feito aquilo; eu tinha doze anos. O passarinho com certeza não merecia ser atingido.

A aula na manhã daquele mesmo dia tinha sido horrível. Uns moleques mais velhos, repetentes e estúpidos, sempre de olhos tortos para cima de mim. Nunca tinham me tocado; só faziam gestos de socar a palma ou ameaças para eu sair mais rápido de seus caminhos, caso contrário juntariam todos contra mim, um garoto sozinho e indefeso.

"Vai logo, moleque, ou quebramos seus dentes", sempre diziam.

Eu abaixava a cabeça e tentava não arrumar confusão. Afinal, eu não tinha nenhum amigo. Ninguém da sala conversava muito tempo comigo. O Matheus, que gostava de dormir quase a aula toda, falava sobre desenhos animados. O Jorginho curtia zoar os colegas e às vezes eu ria bastante com ele, só que depois ele ia à rodinha das meninas. Nem coragem eu tinha para conversar com uma única garota, somente aquelas mais caladas, das quais eu apenas pedia material emprestado, como no caso da Maribel ou da Aline.

Eu só lanchava no canto mais isolado do refeitório. Acreditava que, por estar afastado, isso faria as pessoas irem até mim e quem sabe até surgiria uma amizade por pena, mas isso nunca acontecia. Sentavam ali ou um grupo de amigos que não encontrava um lugar melhor, ou tantos outros que só queriam ficar sozinhos.

Ainda durante o recreio, eu saía daquele mundo de crianças bobinhas que corriam e brincavam para ir ler histórias em quadrinhos de super-heróis em algum lugar sossegado. O tempo nesse tipo de realidade era infinito, e eu era o protagonista daquelas histórias muito bem desenhadas. Um corpo atlético, um uniforme que impressionava a todos, um vilão derrotado em cada capítulo, a coragem e o caráter inabalável do protagonista. O bem e o mal equilibradamente divididos. Um mundo perfeito, não?

Porém tudo acabava com o silvo irritante do alarme do refeitório, que convocava o retorno dos alunos às salas de aula.

Minha mãe estava tendo problemas no trabalho, possivelmente quase sendo demitida pelo motivo de os negócios não irem bem. E, mesmo sendo tão novo, eu já entendia essa dificuldade dela de cuidar de mim e da minha irmãzinha, Clarisse. Para que minha mãe fosse trabalhar, Clarisse precisava ficar com a nossa vizinha, que também criava uma filha pequena.

Meu pai havia morrido. Minha mãe desejava ser forte e nunca chorava na nossa frente. Houve um dia em que vi ela derramando lágrimas, escondida no canto, com contas na mão e rogando à lembrança de meu pai por ajuda. Eu dei alguns passos para trás e chorei mais tarde, escondido também.

Minha amada mãe, jovem, com quase trinta anos na época. Para minha maninha Clarisse, eu era seu segundo protetor, sempre o mais amável, e ela toda vez me fazia rir.

Naquele dia, eu andava triste pelos motivos citados e, para mim, tudo na escola continuaria normal, pelo menos. Não sei o que sucedeu, mas os moleques do Fernandes vieram tão bravos e rápidos naquela vez e me empurraram quando eu estava distraído lendo. Foi no pátio, onde crianças e alunos mais velhos interagiam entre si.

Fui jogado um metro para trás, sujei minha calça e ralei o braço no chão bruto. Minha revista voou para perto do líder dos estúpidos.

– O que você vai fazer, bichinha? – disse o tal do Fernandes rindo. Outros do grupo dele também riram.

Tentaram fazer uma rodinha para que as outras pessoas não vissem o que acontecia ali. Não importava. Aquela cena foi tão súbita que somente os curiosos e os que temiam o grupo se aproximaram e cochicharam ao redor dele e de mim. Ninguém me ajudava. Eu nem tinha amigos, lembra?, e não via uma única pessoa boa agindo.

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⏰ Última atualização: Jan 05 ⏰

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