Invisibilidade

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A rotina era sempre a mesma, Aurora acordava às 7 horas da manhã, preparava a mesa do café para o seu marido e depois ficava em casa tomando conta dos afazeres domésticos.

Enquanto ela pensava em sua carreira profissional, ele pensava em outras mulheres. A traição do homem era invisível, sem surpresas, sem mentiras, sem angústia e sem dor. Já podia esperar essa grande farsa. Aurora consolava-se com vinho, culinária, tarefas domésticas e exercícios físicos, visto que vivia numa solidão eterna, pois aceitar a traição já era demais. Como podia suspeitar de algo tão grandioso. Ele tentava inventar desculpas para esconder seu misterioso remorso, que aliás, nunca ficou evidente esse arrependimento.

Certo dia comentou com Aurora sobre a farsa com que os outros viviam. Criticava principalmente as mulheres. Ah! as mulheres! Elas sim traem, se vestem mal e quando começam a adquirir personalidade, aí sim, vão para o caminho errado da vida, em direção aos mais fracos. Sorte a delas por terem homens que as ensinem bons modos.

Por que será que aquele homem olhava tanto para tevê? Eles costumavam assistir ao jornal nacional. Normalmente entre as grandes notícias e informações que o jornal transmitia; a atenção dele era voltada para a mulher, geralmente eram suas falas:

- Essa mulher hoje se vestiu bem, prendeu o cabelo, pôs um vestido ... outra mulher.

Comentava tanto sobre as mulheres que deveria ser obcecado por elas. Observava as mulheres como sendo o sexo frágil, e ele, por sua vez, o de personalidade forte e inteligente. Pobre homem, se via como um herói, cego por seu próprio reflexo.

Um dia, o homem e Aurora saíram para um jantar com muitos convidados, amigos dele. Aurora usou seu melhor vestido, pôs um colar e prendeu tão forte o cabelo que chegou a sentir dores de cabeça. No caminho, ele indagou:

-Aurora, por que você pôs esse colar horrível? Está parecendo uma velha!

Aurora quis chorar, mas segurou o choro e pensou que ele estava apenas sendo gentil e expressando uma opinião. Ao chegar no jantar, Aurora cumprimentou a todos e foi se sentar. Ele seguia conversando e bebendo uísque com os amigos. Aurora bebia champanhe e interagia com algumas das mulheres que estavam sentadas. Em sua terceira taça de champanhe, entre olhares aflitivos, ele olhou para Aurora e disse:

- Aurora, você está louca? Sua bêbada inconsequente, já me cansei de vê-la beber dessa forma e de constranger-me. Estou farto disso.

- O quê? Eu que cansei de você, não aguento mais! Nada para você está bom; acho que só o que seria perfeito para você, era você próprio. Eu te odeio!

- Sua louca!!!

Todos olharam para Aurora e começaram a sussurrar que ela estava bêbada e que havia perdido seus princípios.

Chegando em casa, o tempo passou. Não se falaram por dias. Aurora deixou de fazer as tarefas domésticas diárias e passou a fixar seu olhar para tevê. O homem perdido, comia brevemente, não lavava a louça e deixava suas roupas sujas para que Aurora tomasse coragem e voltasse aos seus afazeres.

No decorrer da vida do casal, você pôde perceber que nem sequer soube o nome desse tal homem? E é assim que nós mulheres passamos por tudo; somos vítimas de violência psicológica e por vezes até física. As atitudes dos homens são vistas como normais e, constantemente, acobertadas. Temos que parar de menosprezar as atitudes horrendas destes homens. A mulher é criticada e julgada; já o homem, invisível.

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⏰ Last updated: Jul 07, 2023 ⏰

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