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Capítulo único

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São Paulo, Brasil 1997

Em algumas horas teria início a primeira parada do orgulho LGBT+ do Brasil e Lívia não sabia o que esperar. Ela não tinha o costume de se atrasar, muito menos quando se tratava do trabalho. Fazia questão de ser sempre pontual. Naquele dia seu despertador não tocou, ou ela não o ouviu. Com apenas 5 horas de sono, a jovem se levantou quase uma hora atrasada, isso graças ao seu relógio biológico, sem ele o atraso seria bem maior. Lívia havia sido contratada para fotografar a primeira parada do orgulho LGBT+ do país e isso vinha lhe tirando o sono já que trazia à tona tudo que ela queria esquecer. Por mais que ela não apreciasse a ideia de acordar cedo em um sábado ou de relembrar a adolescência turbulenta, ela era uma fotógrafa sem emprego fixo, o que fazia qualquer dinheiro bem-vindo. Correndo contra o relógio, tomou um banho, reuniu as lentes da câmera e saiu pela porta.

É claro que não seria São Paulo se o trânsito não estivesse caótico, mesmo em um sábado. Do ligeiramente afastado bairro de onde Lívia morava até a Avenida Paulista se passaram 57 longos minutos em um ônibus. Minutos esses que foram preenchidos com lembranças difíceis de engolir e tentativas falhas de esquecer seu primeiro amor, uma mulher. Olhou em volta, ninguém parecia estar indo para parada. Olhou para si, ela também não parecia estar indo para uma parada do orgulho. Ou parecia? Será que havia um arco-íris enorme desenhado na sua cara? Ela olhou para a janela embaçada, que refletia o interior do veículo, só para ter certeza de que sua face estava limpa. "Tola", pensou consigo mesma. Perdida em seus devaneios, Lívia quase perdeu o ponto no qual tinha de descer, precisando correr até a porta traseira.

Assim que se reequilibrou da sua, mais recente de muitas, quase queda, Lívia seguiu até o pequeno aglomerado de pessoas próximo a um carro de som. Ao se aproximar, cada passo fazia seu coração bater com mais velocidade. Com a câmera na altura do peito, Lívia começou a adentrar a pequena aglomeração. Ao ver dois homens se beijando, seu primeiro reflexo foi virar o rosto, desviar o olhar, não era exatamente algo que ela queria ver. Mas logo, identificou seu preconceito e voltou seu olhar para o casal, que agora sorria, com suas testas coladas uma na outra. Havia algo especial na energia deles, algo no rosto que chamava a atenção, mas Lívia não conseguia identificar o que era. Aproximou-se e pediu a eles para registrar o momento. Com a devida concessão, ela apontou-lhes a câmera e tirou a foto: o primeiro registro fotográfico de uma parada LGBT+ no Brasil. Lívia não tinha ideia do tanto que aquilo significava, mas um dia saberia.

A rua havia sido decorada; nela, pessoas com roupas coloridas e vibrantes, acessórios exuberantes e únicos, a música era constante e a alegria ainda mais. Normalmente o ambiente a assustaria, pois não era uma grande fã de aglomerações, festas ou ambientes onde se encontravam pessoas alteradas pelo consumo de bebidas alcoólicas. Mas havia algo que fazia de tudo aquilo estranhamente acolhedor e confortável. Existia um tipo de energia que pairava sobre o movimento, algo em cada um ali que fazia daquele um evento incrível. A questão era, o quê?

A cada minuto se tornava mais fácil estar ali, o barulho ficava menos cansativo, a aglomeração mais aceitável, até o momento em que se tornou prazeroso. A música começou a lhe entreter, a felicidade das pessoas a fazia sorrir e se tornou divertido e interessante registar a energia das pessoas.

-Moça! Moça! Eu quero uma foto, moça! Até parece que você não quer registrar a drag queen mais maravilhosa desse país! - Lívia virou-se rapidamente ao perceber que a drag falava com ela.

-Claro que eu quero! Sua melhor pose para já! - resolveu entrar na onda descontraída e tranquila.

-Olha, moça, você tem um número comercial para eu contatar? Porque eu preciso ter essas fotos!

Lívia lhe passou o telefone da sua casa já que ela não tinha um estúdio de fotografia e lhe garantiu que receberia as fotos. Despediu-se e rodopiou para sair andando.

O orgulho através da lenteStories to obsess over. Discover now