INLEMBRÁVEL

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Morar numa cidade de interior era seu castigo diário. Ter uma família com pai e mãe militar era outro horror que o vitimava íntima e sadicamente. Jamais soube o que era desfrutar uma amizade por mais de 2 anos. Vivia de deixar rastros, alguns muito frágeis, outros de aparente grosso contorno. Acostumou-se a viver sem ter planos. Vivia hoje. Uma coisa de cada vez. Cada dia no seu dia, sem grandes esperanças. Somado a isso tudo tinha o fato de ser filho único: um peso que carregava a cada vez que ouvia seu pai dizendo que ele seria médico ou quando revirava os olhos ao ouvir sua mãe dizendo que sonhava ver o filho arquiteto. Sonho dele mesmo? Nenhum. Não sabia ter planos. Nem sonhos. Nenhum. Apenas vivia. Esse vivente sem sonhos era Eduardo.

17 anos. Terminando o Ensino Médio na sua escola número 12. Sim. Já passara por 12 escolas e delas guardava algumas lembranças. De algumas um boletim, declaração. De outras, apenas o nome. Nesta escola, menor que a anterior, passava os dias de maneira morna. Nem destaque, nem fracasso. Apenas Eduardo, aquele rapaz de olhos castanhos muito escuros e rosto cheio de espinhas. Sentia-se possuidor apenas disso, de espinhas. Algumas enormes e abusadas. Outras mais tímidas e silenciosas. Era penoso ter 17 anos daquele jeito. Era penoso ser daquele jeito. Era penoso ser e existir.

Tinha seu grupo na escola, talvez um grupo meramente formado para ajudas mútuas em trabalhos ou outras atividades que dependessem da formação de um grupo. Tímido ao ponto de perder a cor dos lábios se tivesse que apresentar um trabalho na frente da turma, chegou ao ponto de passar mal em um seminário de Biologia. Odiava apresentações de teatro ou coisas do tipo. Acostumou-se tanto a não ter um lugar seu que não se sentia na obrigação de fazer nada, de marcar presença em nada. Sentia-se como uma fumaça. Aparece sem avisar, mas logo se acostumam com ela e, minutos depois, some. Eduardo se sentia fumaça, que logo se dissipa e nem lembranças deixa. Eduardo se sentia inlembrável. Era exatamente assim que se sentia: inlembrável. Criou esta palavra e a usava constantemente em seus diálogos internos.

Nunca gostou de ninguém ao ponto de se sentir apaixonado ou algo próximo disso. Quando estudou na escola número 10, teve seu primeiro beijo com uma menina mais nova que ele dois anos. Nunca soube exatamente o porquê daquele beijo ter acontecido e muito menos o porquê de ter acontecido apenas uma vez. Sabrina era o nome da menina mais nova que ele dois anos. O beijo aconteceu depois da aula, na praça que ficava no caminho da escola. Como era uma outra cidade pequena, o quartel onde morava com os pais ficava próximo da escola. Era quase uma da tarde. Sol despejando calor inclemente e os dois ali, de blusão de moletom do uniforme, dando um beijo sem graça e com gosto de vontade de almoçar. Depois daquilo mal se falaram na escola. E só. Da cidade 10 tinha essa lembrança, que mais se parecia com um mal entendido.

Num domingo, com aquele repetitivo cardápio, seus pais informaram que iriam ficar um ano mais ali. Terminando o Ensino Médio, Eduardo não tinha grandes ambições sobre o que fazer com o certificado de conclusão em suas mãos. Seus pais tinham seus próprios sonhos para ele. Então, num jogo de pontinho ou no pedra-papel-tesoura, que decidissem o que ele faria. Eduardo seguira como sempre seguiu: apenas indo. Eles que decidissem e o informassem. Não havia em seu coração grandes desejos. Talvez, na época da cidade 10, quisesse alguma coisa, ainda que mínima. Mas logo se mudariam dali e se o que desejasse tivesse alguma relação com a cidade, e dependesse dela para vingar, deveria desistir, já que isso não seria possível. Eduardo era como uma prateleira vazia.

Ao ouvir a notícia de seus pais, nem reclamou ou ao menos mostrou surpresa. Não poderia opinar já que ele não decidia nada. Suspirou pesado, tirando ar do fundo do seu abismo a que chamava de corpo. Seus pais ainda disseram que não iria fazer faculdade naquele ano a mais que ficariam ali, já que estava previsto irem para uma cidade grande, talvez capital, e lá poderia fazer uma boa faculdade e que se não passasse numa federal poderia fazer uma particular e que se não gostasse de Medicina poderia trocar de curso e fazer Direito ou então tentar Arquitetura mas essa área era ruim de emprego e talvez poderia fazer um concurso ou mesmo tentar carreira militar ou ainda fazer um cursinho pra tentar uma vaga numa boa faculdade e num outro curso mas que valeria à pena insistir em Medicina porque pagava bem e a sociedade respeitava os médicos. Já estava tudo traçado. O pai pensava uma coisa. A mãe pensava outra. Os dois pensamentos não se encontravam e ele, o protagonista de todos os planos, nem era consultado. Soltava um Sim ou Tudo bem, anêmico e displicente. De tanto não ter desejos, Eduardo tornou-se incapaz de brigar por qualquer coisa. Era cansaço o que sentia.

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