Conto 1: Tá ruim, mas tá bom

47 0 13
                                        

___Eu não tenho sorte mesmo viu.

É o que eu penso enquanto pauso um vídeo tutorial, tentando arrumar meu cabelo no banheiro.

___Cabelo idiota. Digo enquanto saio do banheiro, frustrada por não conseguir deixar igual ao do vídeo.

Em meio as coisas da minha gaveta, procuro um lenço para prender o cabelo.

___Pronto! É o que tem para hoje... e provavelmente a vida toda.

Eu tinha uma rotina da qual era muito boa, sair de casa, trancar a porta, descer a ladeira das casas coloridas, correr para pegar o Bonde que sai exatamente as 7:30, então as 7:45 encontrar determinação em mim para subir a imensa ladeira do pelouro, chegar no trabalho exatamente as 7:55 e fazer cara de confusa. Falei que eu era muito boa nisso... menos nessa ultima parte!

___O que está acontecendo aqui, seu Saulo?

___Eu num sei não minha filha, tem uns cientistas ai. Fazendo aquele negócio de injetar DNA nos outros, eu li isso no zap, toma cuidado.

Seu Saulo era um homem bom, já um senhor de idade, que deveria ter se aposentado a muito tempo, mas continuava trabalhando como segurança no jornal da cidade. Não sei se ele era meio doidinho devido à idade, ou se era por que passava o dia todo vendo notícias do WhatsApp, claramente não tinha nada para ele fazer, também quem iria assaltar um jornal?

Ainda mais confusa, meus pensamentos são interrompidos.

___Olha é a moça que lê rápido. Hoje vai ter muitas matérias para você revisar...

___Espero que esteja afiada!

Ah então, "a moça que lê rápido" sou eu, depois de um tempo me acostumei como fato de que eles não sabem o meu nome e não estão nem um pouco interessados em saber, mas por sinal é Graziella.

Cansada e ainda sem respostas, finalmente sento na minha sala e estou sendo muito flexível quando digo "sala", é mais um cubículo de 1m x 2m, com uma mesa, paredes meio amareladas, um PC velho que a tela não liga direito e uma grande pilha de papel e jornal velho. Seria sufocante se lá no alto não tivesse uma pequena janela, por onde a luz amarela do sol passava pelas frestas.

___Vou ficar quieta aqui, se eles estiverem mesmo injetando coisas, não quero nem chegar perto, do jeito que sou medrosa para agulhas.

___Você é a Graziella? Estava te procurando, só falta você para fazer o teste de DNA.

Como me acharam? Nunca se lembram de mim, porque hoje?

___Eu não! Eu não consigo, tenho medo de agulhas.

___Não se preocupe, vai ser rapidinho e o resultado sai na hora.

A enfermeira me interrompe e me puxa pela mão, me carregando até a cadeira. Enquanto eu falo.

___Pera! Não tem aqueles testes com fio de cabelo ou com a saliva, eu sei que tem, mas vocês enfermeiras são fortes ein, faz exercícios ou o que?

Quando estou chegando na cadeira eu apago. Acho que desmaiei. Quando eu acordo, todos os enfermeiros começam a gritar:

___Ela acordou, acordou pessoal, salve a princesa. Ajoelhem-se

___O queeee?

Logo depois disso me dispensaram, aparentemente acabei com a festa, do pessoal, eu não sei. No portão enquanto saia cruzei como seu Saulo de novo, que perguntou.

___Fez o seu teste, menina?

___Fiz seu Saulo.

___Booooom, eu já fiz o meu, parece que tenho um pesinho lá naquele país lá das África.

___A África não é um país, seu Saulo. Mas depois pesquiso isso direitinho para você.

        Nós sabemos que todos têm a matéria de história na escola, porem a única história que é contada como de costume e a versão dos brancos, então quase ninguém conhece e os poucos que conhecem o descobriram sozinhos. Eu fui uma das que descobriu sozinha, mais especificamente sozinha no meu quarto por volta das 17h, coisa que não acontecia a muito tempo.

        Nunca tinha estado em casa tão cedo, o que é que as outras pessoas fazem nesse horário, ainda assim tinha uma ideia martelando minha cabeça, como assim Princesa? De onde saiu isso gente, tive de pesquisar.

___Qual era o nome mesmo, cardume, ogume, lo... lo... ma... Mandume isso!

Abro a internet e digito a pesquisa que me mostra uma música

___Não é a música que estou procurando.

Abro uma nova aba e digito novamente.

___Mandume quem foi?

Enquanto leio, a música começa a tocar...

Meus olhos se arregalam e passo a descobrir um mundo novo, imagens de um universo inteiro invadem minha mente, algo que faz sentido e que me dão uma sensação de pertencimento, assim passo pela noite em claro estudando esse mundo fantástico e completo.

___Eu só não sabia que eu não era a única a embarcar nessa aventura.

Jamais ContadaWhere stories live. Discover now