melhor lance

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durante a pausa do meio-dia, meu instrutor sentou-se de frente pra mim, não no melhor dos humores, o que sugeria que eu não tinha me saído tão bem quanto imaginei. a menina alta e fina como uma folha de papel, minha adversária, mastigava um sanduíche de manteiga na mesa ao lado, o sorriso brilhante na face. 

entre tacadas, lances, batidas e esforço, o coração retumbava de tal maneira que parecia a própria bola em percurso. danem-se as regras, as cordialidades e todo o status quo que me obrigam a priorizar em detrimento das outras áreas, só porque jogar tênis é a única coisa de verdade que eu consigo fazer.

mamãe e papai assinaram o clube no começo de janeiro e eu venho me arrastando no saibro até chegar ao inverno do final do ano. as consequências para minhas injurias imaginativas me levariam a ser deserdada.

comporte-se como uma menina dos seus auto padrões. limpar a boca apenas com o guardanapo, não esfregue nas bochechas. use um shorts de segurança por debaixo da saia. você não vai querer se tornar prostituta da noite pro dia.

durante a partida, os pensamentos ácidos exalavam pela bile na garganta, de forma que cada rebatida na bola recebia o dobro de intensidade da anterior, me concedendo inúmeros outs. 

de volta ao treinador, olhos furiosos, sorrisos irritantes ao lado e toda a energia do clube, respirei como se fosse minha última atividade biológica da vida e me levantei sem ajeitar a saia pendendo para cima.

contornei a quadra, agarrei minha raquete, triunfante, erguendo-a no alto como se apostasse no melhor lance. com a força de toda a frustação perfeita que me rondava e o nojo pelas obrigações superficiais, quebrei-a ao meio, em um baque seco.

tanto a adversária quanto o treinador levantaram-se de seus assentos em um pulo, os olhos esbugalhados e corações perfurados.

"la vita passa. prepara i tuoi scatti migliori!", urrei com o italiano perfeito. tradições deturpadas sempre me fizeram sentir a antítese da burguesia.

deixei a raquete no chão, pulei o cercado do clube e voltei à minha vida animalesca de sempre. porque, se eu não sou uma menina comportada, só passo de um animal, não?

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