Muitas histórias não são contadas, algumas por negligencia, outras por falta de interesse outras ate mesmo por serem vulgares demais para serem compartilhadas, e também há aquelas que não são contadas simplesmente porque ninguém sabe que elas ocorreram ou são absurdas demais para terem acontecido. A história de dois guardiões e um príncipe que foram contra tudo e contra todos para salvar o universo. Mas do que o universo precisava ser salvo? Temos que voltar muito antes da própria concepção de universo ser criada para entender os perigos e riscos que nossos heróis terão que enfrentar ao longo dessa narrativa, me sinto no dever de conta-los a história como ela aconteceu, mesmo que não acreditem.
É importante que saibam que como vivemos hoje em dia é resultado unicamente do desfecho dessa história e de como três amigos salvaram o universo, mesmo que ninguém nunca saiba disso. Dizem que as medalhas são dadas depois que a guerra é vencida, mas como condecorar aqueles que deram suas vidas a troco da paz? Essa não é uma historia feliz, talvez tenha um final feliz, mas isso esta além da minha capacidade, me atenho a contar-lhes o que eu vi, e o que presenciei enquanto vagava pelas varias dimensões e realidades desse vasto universo.
Tudo começou antes do próprio começo quando os seres cósmicos vagavam pelo vazio, sem nada, sem objetivo, até que Misha a mais poderosa dos seres cósmicos suspirou e do seu suspiro criou-se a primeira terra e os seres que nela vivam, eram maravilhosos e muitos, os homens viviam em paz consigo e com as criaturas da natureza, as Fadas com suas maravilhas dadas pela própria Misha ajudavam os homens nas suas colheitas, suas assas carregavam as bênçãos necessárias para que as frutas sempre fossem suculentas e boas para os homens, os Elfos do norte controlavam o vento e através de seu poder e traziam as estações do ano alertando o momento certo de plantar e colher, os Saullos com sua luz iluminavam as noites, diferentes das outras criaturas eram filhos da lua, que com sua luz pálida (porem suficiente para iluminar as noites) guiassem os homens pela noite, os homens por sua vez os ajudavam todas as outras criaturas, estradas foram construídas para que levassem suprimentos para todas as tribos. Os Saullos adoravam os pêssegos que os humanos cultivavam, já os Elfos eram admiradores das mangas que cresciam próximo ao equador, as fadas por sua vez não sabiam recusar as maças doces que cresciam ao sul, os seres da água se deliciavam com o pão que era deixado na beira dos lagos para eles. Tudo fluía na mais perfeita paz, quando a Deusa olhava para baixo e olhava tudo que havia saído de um único suspiro deixou as criaturas e os homens a sua sorte e começou a criar outros seres e outras formas de vida para que habitassem em outras terras, os seres de luz que compunham o universo que agora existia a seguiram e começaram a expandir o vazio para algo iluminado e cheio de vida, criaram um lugar para se resguardarem e para receber os homens depois de sua passagem, eles acreditavam que como os homens eram puros de coração mereciam um lugar com os deuses depois de sua vida na primeira terra. Esse lugar foi chamado de Apera, e desse lugar fluía toda a luz e energia positiva que emanava no universo. Os seres das trevas movidos pela inveja criaram seu próprio reino e foi chamado de Sancrito, onde habitavam as trevas e a energia negativa do universo. E por sua vez também criaram suas dimensões de caos.
Tudo ia bem na primeira terra até as dimensões negras de Sancrito começaram a modificar a energia que emanava naquele lugar, quando chegou ao coração dos homens, a paz foi ameaçada. O homem esqueceu que ele não era o único naquelas terras e quis tomar para si o controle de tudo, eles não mereciam mais se juntar aos deuses em Apera, mas a medida que alguns se corrompiam alguns ainda lutavam ao lado das criaturas para deter os homens esses quando morreram nas guerras ao lado das criaturas ascenderam e se juntaram aos deuses, criando assim os primeiros Aperistas, já aqueles que morreram pela ganancia dos homens desceram a Sancrito e se tornaram os primeiros Sancristas. Os Aperistas abençoados pela deusa Misha voltaram a primeira terra para deter os avanços dos homens, mas, os Sancristas também foram enviados de volta, fortalecidos pelo poder de Lios tinham o objetivo de mergulhar a terra no caos da primeira guerra.
Os anos se passaram e as historias viraram mitos, e os mitos viraram lendas e os homens se esqueceram de que sua ganancia quase destruirá o lugar onde todos habitavam em paz. O esquecimento é o pior dos males.
Por muitos anos os Aperistas asseguravam a paz e a segurança na primeira terra ate mesmo quando os homens se esqueceram deles, hoje vagam entre nós, Aperistas e Sancristas travando batalhas de um lado os guardiões da paz e de outro os magos do caos isso funcionou bem por longas eras, mas algo estava prestes a mudar, algo que traria um novo rumo para a história de Apera e para Sancrito.
Nossa história começa com um jovem órfão que apesar de sua condição foi muito bem criado com amor por seus pais adotivos, adotado ainda nos primeiros dias de vida Victor nunca sentiu necessidade de conhecer seus pais biológicos, mal sabia ele que sua vida mudaria completamente depois de uma descoberta que ele nunca queria ter feito.
Quando pequeno nosso órfão costumava ir para as comunidades interioranas de Manaus e ouvia de sua avó materna Ada sobre criaturas maravilhosas que habitavam aquelas florestas, certo dia ouvira sobre um homem que a muito se ouvia, mas não se via, com suas galochas encharcadas aterrorizava aqueles que andavam na mata de noite, o curupira que espantava os caçadores com seus truques e a cobra grande, que uma vez o jovem podia jurar ter visto enquanto se banhava nas margens do rio Amazonas, ele lembraria sempre desse encontro, o ser não lhe fez nenhum mal, pelo contrario, se curvou diante do menino, seus olhos vermelhos lhe fitavam a alma e quando percebeu a presença de sua avó a criatura sumiu nas águas escuras do rio. Assim cresceu nosso jovem em meio às florestas e as cidades, vez ou outra chorava quando seu avô trazia alguma caça que por sorte acertava com o rifle, o avô vendo a tristeza que causava a seu tão querido neto aposentou a arma.
Assim que criou consciência de si mesmo exclamou a seus pais Eva e Miguel.
VICTOR:
-Quero ser um biólogo quando crescer. Disse o menino com um olhar de esperança nos olhos, mal sabia ele que o destino tinha outros planos para ele.
Seus pais o amavam muito ambos tinham cabelos claros o de sua mãe era liso e ficava um pouco acima dos cotovelos enquanto o de seu pai era enrolado e ia ate próximo do queixo, ambos de pele clara, seu pai um pouco mais bronzeado do sol pelos anos ajudando na fazenda do avó, já sua mãe que desde que se entendia por gente foi criada para estudar e ter um bom emprego era pálida de tanto ficar trancafiada no escritório de advocacia qual era sócia, Victor por sua vez tinha cabelos bem crespos que aos 16 anos se converteram em dreads muito bem feitos, sua pele cor de chocolate ao leite o garoto era portador de um carisma imensurável com um sorriso que iluminava os dias mais turbulentos fazendo com que todos a sua volta esquecessem seus problemas momentaneamente, mas o que ninguém sabia era que nas sombras o menino sentia algo a espreita o observando, vez ou outra lembrava de seu episodio no rio com a cobra grande, os olhos vermelhos que lhe fitavam a alma não eram nada parecidos com o que o encarava na escuridão da noite, pensava ele que poderiam ser as criaturas que a avó lhe contara, os protetores das matas, mas o que poderia querer um curupira ou um saci com o ainda jovem rapaz? Victor com o passar dos anos tinha mais perguntas do que respostas, curiosamente nenhuma delas era sobre seus pais biológicos.
Alguns anos se passaram e ele como um dos alunos mais esmeros de sua turma entrou na faculdade do estado aos 17 anos de idade junto com seus amigos Anna e Jean, Anna tinha um dom intrínseco de mergulhar profundamente na alma das pessoas e curar-lhes feridas que nem mesmo eles sabiam que tinham, seus cabelos longos e negros levemente encaracolados balançavam suavemente a qualquer sinal de brisa, era como se o vento o tirasse para dançar todas as vezes que o visse, sua pele branca como porcelana também e com uma altura acima da media, era dona de um sorriso esplendoroso, já Jean por sua vez era alto e loiro com cachos que remetiam a personagens angelicais de Mauricio de Souza sua pele também branca mas não chegava a ser pálida como a de Anna tinha um corpo malhado o que era incomum visto que nunca pisara em uma academia, era extremamente sentimental, ligava sempre que possível para o namorado Caio que morava em outro estado mas não tinha muito tempo para visita-lo Anna e Victor que eram seus melhores amigos só o tinham visto duas vezes. Anna com seu dom de curar as feridas da alma escolheu o curso de psicologia enquanto Jean se dava muito bem com a arquitetura, apesar de cursos diferentes sempre chegavam na universidade com meia hora de antecedência para tomarem café da manhã juntos.
Ai meus deuses que grosseria, creio que ainda não me apresentei devidamente, eu sou aquela que viu essa historia com meus próprios olhos antes mesmo que ela acontecesse, talvez se a mãe biológica de Victor tivesse me ouvido isso poderia ter sido evitado. Talvez seu pai não tivesse morrido daquela forma, talvez as guerras frias que aconteciam na terra sem que os humanos soubessem já teriam se encerrado, nós sempre pagamos pelo preço dos nossos atos, nem mesmo os deuses fogem dessa regra, ela não os pertence, pertence ao universo, ao fazer esquecemos que receberemos pelo que fazemos. Esse foi o problema desse amor proibido que terminou em um desastre de proporções Shakespearianas.
Voltando a nossa historia certa vez Victor tinha sido o encarregado de pegar o café do grupo na cantina, Anna tinha pedido um pastel de frango com caldo de cana enquanto Jean tinha pedido um café preto e um pão com tucumã e queijo, já Victor preferia um suco de laranja e um pão com queijo coalho pela manhã, enquanto retornava para a mesa com a bandeja um pouco pesada ouviu um pedaço da conversa de Jean e Anna:
ANNA:
- Não é nosso dever contar pra ele, e sim protegê-lo. – Anna tomada pela impaciência, na verdade em toda a minha vida imortal essa foi uma das poucas vezes que a vi assim.
JEAN:
- Como vamos protegê-lo se ele nem ao menos sabe a verdade, eu gosto muito do Victor pra continuar mentindo assim pra ele.
ANNA:
- Não vai ser uma mentira se ele não souber.
Nessa hora Victor já estava perto o suficiente da mesa para ambos se calarem, mas do que adianta o silencio depois que as palavras são ditas?
VICTOR:
- Não souber o que gente? – Perguntou incrédulo que os amigos que a anos o acompanharam estavam escondendo algo.
Anna e Jean trocaram olhares sem saber muito bem o que responder, por fim veio à resposta mais esfarrapada que poderia ser dita, ainda não acredito que deu certo, talvez se na fosse a mentira os acontecimentos dessa historia seriam outros, mas como eu disse, preciso ser sincera com vocês, se eu mentisse qual seria a diferença entre mim e Anna e Jean? Não, não trabalhamos com mentiras aqui.
ANNA:
- Seus pais pediram pra não contar nada... É sobre a surpresa pro seu aniversario.
Comovido com a surpresa e faltando pouco menos de duas semanas pro seu aniversario Victor acreditou nas palavras de Anna, ela que em momento algum tinha maldade no coração, só estava tentando proteger o amigo, mal sabia ela que aquela singela mentira levaria a um resultado catastrófico, não abalaria a amizade, mas sim a própria estrutura do cosmos, é meus queridos, nem os deuses estão livres das consequências de seus atos, não que Anna fosse uma deusa, ela não tinha desejos tão obstinados.
Continuaram os três a mesa, comendo e conversando sobre o cotidiano, Jean com os problemas de sempre em controlar a raiva quando ouvia algum comentário homofóbico, não se enganem, apesar da aparência de grandalhão ele não gostava de apelar pra força física, tinha um amplo repertório de argumentos para desarmar qualquer um, Anna por sua vez falava de um garoto que acabara de conhecer, Victor no quesito amoroso ficava quieto quase sempre, vez ou outra Jean o lembrava que seria bom ele ter uma namorada antes da próxima visita de Caio para que pudessem ter um encontro de casais, Victor se arrependeu de ter dado a ideia a mais de um ano:
VICTOR:
- Quando eu tiver uma namorada nós vamos sair eu, ela, você e o Caio.
Disse ele em uma das viagens que o grupo gostava de fazer para Presidente Figueiredo. Anna amava essas viagens, na realidade as viagens bimestrais eram ideia dela, não ficava nem um pouco preocupada em precisar organizar tudo sozinha e só buscar os meninos para entrar no carro, levava uma barraca para os três, um culer com algumas bebidas e comidas para passarem o fim de semana sem se preocupar se o mundo acabaria na próxima segunda ou terça, mal eles sabiam que o fim estava mais perto do que eles imaginavam.
Por fim passou-se à meia hora que os amigos tinham juntos, se despediram e foram cada um pra sua sala, antes de se separarem por completo.
ANNA:
- Pego vocês amanhã depois da aula, arrumem as malas.
Ambos deram um sorriso de canto de rosto, já sabiam que uma viagem às cachoeiras viria, afinal já se passaram quase dois meses desde a ultima visita planejada.
As aulas de biologia encantavam Victor quase tanto como as cachoeiras e quedas d'água, ele gostava de estudar a vida em todos os seus aspectos e formas, para ele o olhar inocente de um bebe era o mesmo que teria um cavalo ou um passarinho, enquanto Anna se banhava nas cachoeiras e Jean procurava madeiras secas para fazer uma fogueira para iluminar durante a noite e garantir o preparo das refeições Victor se mantinha ocupado observando as mais diversas e variadas formas de vida amazônica.
Por fim o tempo de aula havia acabado, Victor saiu de sua sala e foi para o mesmo lugar onde costumam comer para esperar a carona de Anna, e lá vinha ela andando calmamente pelos corredores da universidade com seus cabelos negros dançando a musica que o vento tocava naquela tarde, já eram quase uma da tarde, como diria um amazonense:
VICTOR:
- Eu to brocado. – Falou pensando na fome que sentia por não ter tido tempo para almoçar.
ANNA:
- Relaxa, vamos esperar o Jean e parar em algum lugar pra comer.
VICTOR:
- Acho que não vai rolar Anna, deixei a carteira em casa.
ANNA:
- E quem disse que isso é um problema?
VICTOR:
- Se você tá dizendo...
Os dois olharam para frente e lá vinha Jean, diferente de Anna, Jean vinha bufando, era nítida a raiva no seu olhar.
ANNA:
- O que foi mana?
JEAN:
- Um idiota foi querer tirar graça com o Miguel por ele ser gay... Eu tive que me segurar se não eu ia estar na diretoria ou na delegacia essa hora.
ANNA:
- Ai Jean você não pode tomar as dores de todos nas costas. – Anna preocupada com o amigo que por muito tempo ela considerava como um irmão.
JEAN:
- Se eu me calo vendo uma palhaçada dessas qual a diferença entre mim e o idiota do Carlos?
ANNA:
- Foi o Carlos?
JEAN:
- Sim... Por quê?
ANNA:
- Ele queria sair comigo semana passada, deixa que de macho homofóbico cuido eu mesma. Agora vamos logo sair daqui tá todo mundo com fome.
VICTOR:
- E vamos comer onde?
ANNA:
- No primeiro restaurante que eu ver.
VICTOR:
- Posso dirigir?
JEAN E ANNA JUNTOS:
- Não.
VICTOR:
- Aí
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TERRA UM
Historical FictionNo começo os deuses fizeram o céu e a terra... esse é o começo, mas algo deu errado é importante entender que como vivemos hoje é resultado dessa história, história essa que tão poucos conhecem.
