O ar congelante tomava as ruas de Santo André. Era Abril de 2012, começo de outono e o frio removia todas as memórias do gostoso clima aquecido do último verão paulista, enquanto invadia os prédios e casas da cidade. Como uma dança macabra os ventos esquivavam-se das pesadas gotas de chuva e sorrateiramente se esgueiravam pelas pequenas frestas das portas e janelas, invadiam os corpos que se esquentavam debaixo dos inúmeros cobertores, diabolicamente roubando o calor acumulado.
O ar gélido na casa de Geisa era quase insuportável. Seus pés, mesmo debaixo das cobertas, estavam quase congelados e lutavam se esfregando um contra o outro em busca de um pouco de calor e alívio. Há semanas todas as suas noites e madrugadas eram frias e solitárias. Mais uma vez ela ia assistir o sol nascendo, clareando as ruas da cidade e transformando o horrível gelo noturno em um abafado fogo matutino, enquanto ela continuava estudando os seus intermináveis textos da faculdade. Suas provas finais se aproximavam mais a cada noite, e como suas notas haviam sido extremamente medíocres em suas primeiras avaliações, a jovem, por conta do seu nervosismo, enrolava os seus cabelos encaracolados com as pontas dos dedos. Suas crises nervosas a perturbavam à semanas, e cometer os mesmos erros dos seus primeiros meses de faculdade era inadmissível. Ela queria ter excelência em suas notas, sentia que aquela era a oportunidade de sua vida, e que não podia ser uma decepção. Ela tinha que ser melhor.
O suor em suas mãos pioravam gradativamente, tremendo em um ritmo constante e carregando a azeda mistura de sua ansiedade com a péssima sensação congelante da temperatura daquela noite. Por mais que buscasse apertar suas mãos uma contra a outra, tentando se acalmar da agitação provocada pela apreensão, suas mãos não obedeciam e continuavam a tremer constantemente. A angústia lhe dominava desde que havia visto os primeiros resultados de suas notas, e por mais que tentasse manter sua respiração tranquila, fechando os olhos e contando até dez, nada parecia ter algum efeito sobre aquela sensação terrível que lhe perturbava à meses. Seu medo de ser uma decepção era gigante e esmagador, ele lhe tirava quase por completo a vontade de dormir, mas não o seu sono. Sua média era de três a cinco horas de sono profundo por dia, algo que estava acabando com seu físico e mental, porém apesar do extremo cansaço um grande alívio a acalmava um pouco, pois ela sabia que estava dando tudo de si. Todo o conhecimento necessário para as próximas provas estavam na ponta de sua língua, e os textos solicitados pelos professores, que seriam extremamente necessários para as avaliações finais de seu primeiro semestre, estavam cheios de marcações e anotações. O final de seu primeiro semestre na faculdade estava se aproximando. Correr contra o tempo era sua meta, e depender de um exame, uma prova final para aqueles que não alcançaram a média de nota, era totalmente inaceitável.
O curso de ciências, tecnologia e humanidades não era um curso extremamente difícil. Porém, mesmo alguém que tenha estudado em uma escola teoricamente excelente iria encontrar dificuldades diversas, pelo menos durante alguns meses de adaptação no início de seus estudos no ensino superior. Todas aquelas dissertações, retiradas de alguns capítulos de livros de pensadores de áreas distintas do conhecimento humano, que viveram há décadas atrás, no final do século XIX e começo do século XX, tinham uma linguagem extremamente chata e complicada. Muitas vezes era necessário buscar palavras em um dicionário específico para ter um total entendimento de uma escrita arcaica e erudita. O cansaço físico e mental tomava a vida daquela jovem de apenas dezoito anos. Isso a fez notar o quão inacessível era aquela leitura que esgotava energias, e que jamais encontraria as mãos de diversas camadas das populações mais pobres. O que era lamentável, pois era uma leitura de extrema importância, principalmente para aqueles que tinham vulnerabilidade econômica e social. Explicava e dava sentido às raízes da nossa sociedade, que surgiu em contexto escravocrata, com o homem branco como figura de poder central desde a época colonial. O que resultava em muitos problemas contemporâneos presentes na realidade dos mais pobres, e que seriam de extrema importância para a sua formação intelectual e de senso crítico. Assim como estava sendo para a formação da jovem estudante, que começava a entender diversas dores que havia presenciado no decorrer de sua vida.
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Coletânea - Horrores Psiquânticos
KorkuHorrores psiquânticos é uma coletânea de contos de horror. Os contos são antagônicos, porém alguns deles compartilham o mesmo universo do estúdio Molotov HQ, coletivo de quadrinhos que produzo roteiros. "O livro" é um conto presente na coletânea. A...
