Era início de outono, as flores já murchavam e as folhas caíam. A tarde já se ia quando eu e meu irmão Joaquim voltávamos cansados após tanto trabalhar nas ruas da cidade próxima; nossos corpos já suplicavam por um banho quente e uma cama confortável. Um viajante passou por nós e nos advertiu de que a guerra se aproximava e que bombas cairiam do céu em breve, mas nossa mente anestesiada pela fadiga não pensava no futuro, somente no presente. Logo que o viajante se distanciou, ouvimos surpresos um som grave e levemente agudo vindo do céu que já se encontrara quase escuro. Pensávamos ser um trovão, mas não havia sinal de chuva. Vimos que algo caía em meios as nuvens alaranjadas em direção ao campo próximo a nós. Pensamos ser enfim a bomba, entretanto nada explodiu ao tocar o solo.
Curiosos, corremos em direção à cratera que se abriu e nos deparamos com uma menina loira, com vestes brancas e asas grandes nas costas. Ela parecia ainda estar viva, dado aos pequenos gemidos de dor que ouvíamos baixinho. Ela pressionava forte os olhos com as mãos empoeiradas, como se a luz a cegasse. As pernas não se moviam, apesar de parecerem intactas mesmo com a forte colisão. Passado o espanto, corremos para acudi-la. Ela tentava falar conosco, mas não entendíamos o seu idioma, que soava como harpa. Joaquim então teve a ideia de levá-la na estrutura de madeira de nossa barraca. Armamos uma maca improvisada e a seguramos com delicadeza e ela, com mansidão, aceitava a ajuda. Seus olhos estavam vermelhos. Tirei meu lenço e prendi ao redor de sua cabeça, tapando a luz nos olhos dela.
Caminhamos com ela até nossa casa, que estava vazia devido a nossa mãe ter de trabalhar no período noturno. A pusemos na cama, mas as asas grandes não couberam no quartinho, ela então dormiu profundamente sentada em uma poltrona velha, estava como se acabasse de desmaiar de cansaço. Olhávamos para ela e perguntávamos o que faríamos a partir dali, mas não vieram nenhuma resposta. Tentamos não dormir, mas a exaustão nos ganhou e caímos de sono com a roupas ainda sujas do trabalho. Acordamos assustados e olhamos ao redor. A menina havia sumido! Procuramos ao redor e não a achamos. Corremos pelo campo e fomos à cratera, mas nada, ela havia desaparecido.
A guerra, tanto anunciada, finalmente chegou na nossa região. O terror tomou conta de todos, bombas caíram sobre as casas, a cidade em que trabalhávamos estava em ruínas e nossos parentes e amigos foram levados à força não se sabe para onde. Não sabíamos explicar por quê nossa casa continuou intacta às bombas e os soldados nunca chegaram a invadir nosso terreno, mas todos os dias víamos próximo a nós plumas brancas caídas pelo chão.
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Além das estrelas que caem do céu
Kısa HikayeConto. Europa, pré-guerra. Dois irmãos voltam para casa em um dia cansativo de trabalho e se deparam com uma estranha criatura que caiu do céu, uma menina com asas de anjo.
