Capítulo 1

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Eu costumava passear nos bosques, ao norte do rio, nesse horário após o treinamento. Tanto pela cor que as árvores apresentavam durante o pôr do sol que, convenhamos era lindo, quanto pelo próprio prazer da liberdade, que não era muito comum na minha vida.

As folhas das árvores ao redor, eram de um verde quase translúcido, que nesse momento, cobertos pela luz do sol, adquiriam um tom avermelhado meio púrpuro, deixando o bosque com uma aparência quase mágica.

Começo a correr a toda velocidade, sentindo as folhas e galhos arranharem minhas pernas e braços, mas não me importo. Esse é o único momento do dia em que me sinto verdadeiramente livre. A brisa forte jogava meus longos cabelos brancos para o vento, enquanto eu me impulsionava para dentro do rio que corta a aldeia, num galho baixo de uma árvore próxima.

Sigo em direção a casa da bruxa, onde espero saber um pouco mais sobre meu futuro. Daqui a alguns dias será minha cerimônia de ascensão, e a profecia parece cada vez mais próxima de se realizar. Como muitas vezes antes, espero obter um pouco mais de informação sobre ela, mesmo sabendo de cor, todas as respostas que Iennifer me dará.

Giro no galho e mergulho, a água na beira da nascente era tão clara, que possibilitava ver o fundo do rio de tão limpo. Eu poderia ficar horas ali, com a sensação dos pequenos peixinhos circundando meus pés, mas hoje eu estava em uma missão e nesses dias, nada poderia me parar.

Subo a margem do outro lado, apertando os cabelos para retirar um pouco da água gelada, ajeitando a calça e a blusa preta gigantescas que agora estavam grudadas no meu corpo. Erámos obrigados a usar esse tipo de roupa nos dias de treinamento físico. Estremeci. Eu me sentia horrível nessas roupas, mas não tinha o que fazer, meu pai era irredutível quanto a nossa educação.

Caminho lentamente pela trilha que leva a casa dela, tanto para que o sol do finzinho da tarde possa secar minhas roupas, quanto pra pensar em toda minha vida até hoje. Daqui a oito dias e meio irei fazer 14 anos e, considerando tudo, isso não é pouca coisa. Era o mesmo dia em que seria realizada a minha ascensão, e pensar nisso fazia meu estômago revirar e minhas mãos suarem frio.

O dia da ascensão era aquele em que um ritual era realizado. Recebíamos nossos poderes concedidos pelo deus Pan, após o acordo realizado com os fundadores muitos anos atrás, cedendo os poderes que corria em nossas veias a gerações.

Voltei a lembrar da história que ouvíamos, quase que diariamente, sobre o nosso nascimento e revirei os olhos. Essa é a história que sou obrigada a ser "grata" e a ouvir, desde antes de aprender a andar. Aquela que me tornou o caos, que nos limitou a profecia que me designou a perdição do mundo, que limitava toda a minha vida.

A casa do oráculo, pra onde eu me encaminhava agora, ficava próxima a aldeia em que eu vivia. Iennifer, era a bruxa que vivia aqui desde antes da formação da aldeia, há 500 anos. Diziam que ela vivia aqui mesmo antes da Monarquia Inglesa dominar as terras, anterior a Grande das Rosas e que tinha a idade do bosque. Ninguém sabia realmente, mas diziam que seu poder era fornecido por Pan e Nyx, num acordo que ninguém sabia do que se tratava.

Durante a minha gestação, meus pais costumavam visitar muito o oráculo. Minha mãe, apesar de não ser uma guerreira, era forte e bondosa, sempre buscando ajudar e cuidando dos doentes da aldeia. Porém, desde o início da nossa gestação, houveram complicações que começaram a enfraquecê-la dia após dia. Meu pai a levou a Iennifer, e esta realizou um feitiço de Scire, que a possibilitou saber o futuro da gestação e sobre a saúde da minha mãe. Durante o feitiço, o oráculo recitou a profecia que tem movido minha vida, mesmo antes do meu nascimento:

"A muito espera-se as vidas que carregas.

Duas nascerão: uma vida, outra morte.

Uma salvação, outra perdição.

Um fio de vida une duas almas.

Luz e fogo se consomem.

A batalha será traçada pela vingança dos próprios deuses.

Entre fogo e caos, a luz guiará a batalha.

Lua de sangue, lobo antigo,

A rainha de muitos rostos divide.

O coração partido a escuridão domina.

Água, carvalho, sangue e a pedra,

Libera a destruição sob o mundo.

Lua de sangue, carvalho partido.

Faz fluir o rio que corre com o sangue dos inocentes.

A divisão de duas almas será necessária para,

Quebrar a maldição que o acorrenta.

Liberte os espíritos do caos e equilíbrio, para que o poder seja restaurado.

Que assim seja em nome do Deus dos bosques e da Deusa da escuridão"

Então, semana após semana, minha mãe enfraquecia. Nossa gestação sugava sua vida e por causa de um Elixir, oferecido por Iennifer, ela foi capaz de levar a gestação adiante.

Mesmo com todos os cuidados e esforços, no nono mês, ela encontrava-se tão debilitada, que estava praticamente em coma. O oráculo propôs um ritual, realizado durante o nosso parto, para que todas sobrevivessem. Durante a lua cheia, a terceira hora do terceiro dia do terceiro mês do ano, o ritual foi realizado. Entre o carvalho branco e o rio ao lado aldeia, nós nascemos.

Apesar do feitiço, eu e minha irmã morremos durante o parto. E num último esforço, Iennifer nos mergulhou no rio e lançou o feitiço Sanguinis, que nos mantém vivas. A água do rio e a lua ficaram vermelhas, enquanto nos unia e nos mudava. Depois do ritual Sanguinis, quem nos via nem dizia que éramos da mesma família, quanto mais irmãs gêmeas.

Elena era quieta, comportadinha e adorável, o orgulho dos nossos pais. Sempre doce e com um sorriso gentil, derretia e conquistava o coração de todos. Seus olhos verdes e seu cabelo vermelhos como fogo, encantava a toda aldeia.

Já eu, Katerina Lancaster, possuía longos cabelos branco acinzentados e os olhos tão negros quanto a noite. Aos olhos de todos, meus cabelos e olhos incomuns, já eram provas concretas da maldição sobre mim. Meu jeito sarcástico e abusado, não me tornavam famosa por ter bom comportamento. Não que me importasse, já que todos pareciam haver se decidido sobre quem era a perdição e quem era salvação ditas na profecia.

Elena e eu éramos completas opostas em aparência e personalidade, porém sempre incondicionalmente unidas. Apesar do seu jeito doce e o meu frio, Elena sempre me acompanhava e ajudava em tudo. Com ela, eu sabia que sempre teria alguém para contar, cuidar e amar. E não era só pelo feitiço que ligava nossas vidas. Somos realmente almas gêmeas, e eu a amo e a protegeria com a minha vida e sei que ela se sente da mesma forma.

Desde o nascimento, somos unidas pelo poder que corre em nossas veias e nos mantém vivas. O feitiço Sanguinis, que nos salvou, uniu nossas almas de forma que sentíamos as mesmas coisas, tanto física quanto mentalmente. Quando ela se feria, eu me feria. Quando ela sentia medo ou felicidade, eu me sentia da mesma forma.

No início isso era um saco, ralar o joelho sempre que ela caia ou sentir atração pelo mesmo garoto da escola, mas agora nos acostumamos. Com o tempo aprendemos a diferenciar quais sentimentos eram de quem e, apesar de alguns serem mais difíceis que outros, conseguimos nos controlar melhor. Agora os machucados eram mais complicados. Nos dias de treinamento sentíamos a dor de duas pessoas e isso meio que dificultava um pouco as coisas.

Amaldiçoada - A libertação (livro 1)Stories to obsess over. Discover now