Se eu te contasse uma historia, seria capaz de ouvi-la com o coração aberto?
Quando abri minha floricultura, não imaginei que um conjunto de pétalas podia adquirir um significado tão grande, sendo este um pedido de desculpa ou de socorro. Aprendi que elas podem trazer sorrisos e segurar lagrimas.
Havia duas semanas que a loja estava funcionando, quando um garoto, de no máximo dezessete anos, entrou para comprar três tulipas, pensei que deveria ser um presente para alguém, mas descartei a ideia quando ele voltou na manhã seguinte, assim como em todas as outras a partir daquele momento. Seguimos essa rotina por dias, quiçá meses. E após um tempo percebi que ele sempre levava a mesma quantia, porém com cores diversas, exceto as segundas, que ele pedia exclusivamente tulipas vermelhas, e nunca falava mais do que o necessário. Até que quando eu menos esperava, ele quebrou o silencio.
___ Você sabe se elas são holandesas? - Foi preciso apenas uma pergunta, aparentemente sem sentido para me pegar de surpresa e me deixar sem fala. - Me refiro às tulipas... Quer saber, esqueça. Obrigado! - Ele disse já se afastando do balcão e saindo da loja antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. E por mais que ele tenha ido, sua voz ficou ecoando na minha cabeça, porque não conseguia parar de pensar em qual era o real motivo para aquela pergunta.
Passaram-se dias até que ele retornasse o que me levou a pensar que talvez ele nunca mais voltasse e então eu nunca teria a resposta que meu subconsciente buscava incessantemente. E eu tentei, juro que tentei, não me importar, mas a ideia de que o sumiço dele era culpa minha continuava me assombrando. Fiquei tão focada em entender o porquê daquela pergunta que não percebi que estávamos na semana do feriado, e de que era bem mais provável que ele tivesse viajado. Quando ele finalmente passou pela porta da entrada novamente, todas as perguntas que eu tinha em mente não me pareceram adequadas e resolvi não falar nada. Alguns dias se passaram até que eu criasse coragem novamente para finalmente esclarecer minhas dúvidas.
___ Porque queria saber se as flores eram holandesas? - Minha voz saiu tão fraca que quase não pude ouvi-la. O silêncio se instalou por alguns segundos, que viraram uma eternidade, até que ele me respondesse.
___ Antigamente, as tulipas eram enviadas da Holanda para todo o mundo, porque elas precisavam de um inverno rigorosamente frio para que floresçam. Entretanto, com os avanços tecnológicos, criaram-se as holambras, onde as flores são mantidas até desabrocharem. - Enquanto ele falava percebi que ele estava mentalmente distante. - Não acha que triste o fato de que agora algo que era livre e viajava o mundo, é mantido em cativeiro e quando se liberta só lhe resta esperar a morte? -De todas as possibilidades que criei para aquela pergunta, nenhuma chegou perto da verdade. Mas como eu saberia que o capuz da jaqueta que ele usa era para esconder pensamentos cheios de dor? E por mais que eu não quisesse admitir, a resposta dele só me deixou mais intrigada para saber por que ele comprava aquelas flores. Qual era o significado que aqueles singelos conjuntos de pétalas carregavam para ele?!
Naquela mesma noite, ao chegar em casa, a conversa que tivemos invadiu minha mente e enquanto eu revivia a cena, notei que o semblante dele era triste e seus olhos estavam sem brilho algum. Foi assim que eu percebi que tinha jogado sal em uma ferida ainda aberta, remoendo algo muito doloroso para aquele menino. E isso foi o suficiente para me tirar o sono, me deixando com uma culpa enorme esmagando meu peito.
No dia seguinte esperei por ele, queria me desculpar, porém quando o vi mudei de ideia e resolvi segui-lo e ver até onde ele levaria as flores. Confesso que foi uma decisão estupida, talvez meus neurônios estivessem descansando quando eu a tomei. Depois que ele saiu da loja, esperei alguns segundos e fui atrás dele. Fora da loja me deparei com um dia cinzento, cheios de nuvens tampando o sol, que ainda conseguia atingir minha pele, e um vento gélido bagunçava meu cabelo e causava-me arrepios. Ele andou por alguns minutos, virando em uma infinidade de esquinas, quase me fazendo desistir, até que por fim o vi atravessar um grande portão com grades antigas. Após mais alguns passos pude ver as lapides no chão ganhando forma e nomes, e nesse momento o vi parar em frente a uma e pousar delicadamente o buque de tulipas no chão. Acreditei que estava longe o suficiente para que ele não percebesse minha presença, e não podia estar mais errada.
ESTÁS LEYENDO
O Garoto das Tulipas Holandesas
RomanceEle era uma gota de loucura em um mar de insanidade
