(ato único)

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Há tempos não ouço sua voz, sua risada gostosa. Peguei em suas mãos gélidas e lhe dei um beijo na testa na esperança de que algum milagre me acontecesse e você abrisse seus belos olhos e me desse o prazer de ver seu sorriso novamente. Sem que eu me desse conta, lágrimas rolaram em meu rosto e retorno à frustração de não poder te ter de volta.

- Senhorita, o horário de visita acabou. - anunciou uma enfermeira que chegou ao quarto de Lucca.

Logo tive que me despedir. Passei minha mão em seu rosto lhe dando outro beijo na sua bochecha.

- Eu te amo, meu amor. Voltarei em breve. - sussurrei mesmo sabendo eu não teria uma resposta.

Levantei-me da cadeira e me desfiz de suas mãos. Minha visão estava embaçada pelas lágrimas que jorravam dos meus olhos. Minha mente foi tomada por pensamentos de que se eu pudesse, trocava minha vida pela dele. Peguei as chaves do meu carro em cima do balcão da recepção e disparei o carro. Não parava de pensar no acidente. As luzes vermelhas misturadas à escuridão da noite, o perturbador som da ambulância se aproximando, gritos, choros, cochichos, olhares de pena... Por alguns segundos, passou pela minha mente acabar com tudo e tirar minha vida ali mesmo. Mas ele precisava de mim e eu faria de tudo por ele.

Abri a porta do apartamento, meu pai havia pegado no sono no sofá, garrafas vazias de vodka estavam espalhadas pela sala e havia uma semi-cheia em suas mãos. Tomei-a antes que pudesse machucá-lo e tentei limpar o resto que sobrara. Caminhei silenciosamente até meu quarto para que eu tentasse dormir e falhasse miseravelmente como em todas as noites desde o acidente, mas tudo o que eu fiz foi revirar na cama durante horas. Logo me desfiz do ato quando meu celular vibrou, alguém me ligava. Levantei-me rapidamente. Podia ser o hospital anunciando o despertar do coma de Lucca, mas me enganei. Era Hope, uma amiga de infância que se mudou para a Califórnia na oitava série. Atendi e logo pude ouvir sua doce voz.

- Loren?

- Hope? Quanto tempo... - respondi com a voz um tanto embargada.

- Estava chorando? Eu soube do acidente, sinto muito...

- É, todos sentem.

- Hm... Eu estou pela cidade, se quiser ir tomar um café comigo amanhã.

- Claro, a gente se encontra na mesma cafeteria de sempre às 2, pode ser?

- Sim, estarei lá.

Assim que desliguei a chamada, recebi uma solicitação de amizade de Hope e voltei à minha tortura noturna.

Na manhã seguinte, peguei um copo d'água e uns comprimidos para ajudar na ressaca de meu pai. No percurso, tive que desviar de sua bagunça deixada na noite passada. Ele ainda dormia. Provavelmente se atrasaria para o trabalho.

- Pai, você vai se atrasar, faça o favor de acordar - o chacoalhei na tentativa de acordá-lo.

- Me deixe em paz! - ele respondeu sonolento.

Afastei-me em desistência e retornei ao meu quarto para que eu pudesse me arrumar para a escola. Olhei para a cama e resisti ao pensamento de faltar mais umas aulas, mas se eu tivesse me ausentasse da escola mais uma vez eu teria que repetir o ano. Fui ao banheiro e olhei minha imagem no espelho. Cabelos bagunçados e olheiras bem marcadas. Apenas lavei o rosto e penteei o cabelo. Me aprontei e finalizei com uma faixa para desfarçar o frizz. Peguei minha bolsa, as chaves do meu carro e um copo com café. Passei pela sala e meu pai permanecia em estado profundo de sono.

Assim que passei pelos portões da escola, senti o peso dos olhares de pena sobre mim. "Eu sinto muito", "Melhoras para ele!", "Ele tem chance de sobreviver?", "Ele vai acordar, tenho certeza!". Cada frase foi como um tiro no meu peito. De repente, senti dois braços me envolverem. Era Jimmy e Alice, meus dois melhores amigos.

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⏰ Last updated: May 30, 2020 ⏰

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