Voltando para casa

11 3 0
                                        

E lá estava ela, a pequena Clarice, ela certamente não sabia dos perigos que a floresta de Manaus estava oferecendo naquele momento, ela pulava e saltava de um lado ao outro entre as árvores. Estava tão feliz pobrezinha, alguém tinha que avisar que uma menina de apenas 15 anos não podia mais ficar andando sem um adulto pela floresta, não em quanto tivesse o “chapeuzinho vermelho” à solta pelas trilhas da floresta.
Chapeuzinho vermelho ninguém sabia ao certo o que era, alguns diziam que era um velho imigrante vindo da Venezuela por Roraima, outros diziam que era um fantasma dos índios que foi morto pelos colonizadores e que agora se opunha a matar ou aterrorizar qualquer homem, mulher, criança ou idoso branco que cruzasse seu caminho. Certamente Clarice não sabia dessa história, muito menos deveria saber que uma semana antes um homem fora morto nas margens do rio que desemboca bem na trilha por onde ela estava passando.
Clarice ouviu gritar seu nome:
- Clarice!- ela ficou congelada, seu coração batia forte de mais, parecia que ia sair pela boca, ela não mexera um músculo se quer, somente os do nariz pois ela ofegava de mais.
Ela estava com muito medo, não sabia de quem era a voz, mas era grossa como a de um homem velho, mas ela não o via, além do mais sua avó ficaria muito brava em saber que ela estava falando com estranhos.
- Clarice! Clarice!- ela finalmente recuo para trás de uma árvore.
Escondia escutou alguém se aproximar e finalmente conseguiu ver quem era. Um homem pardo, alto, aparentava ter 30 anos, cabelos grisalhos e barba bem baixinha mas tão grisalha quanto o cabelo.
- Não precisa ter medo, eu só quero te ajudar. – ela não precisava de ajuda, não estava fazendo nada além de ir para casa depois de um longo dia na feira.- Eu te vi na feira, vi que você vendeu todo seu açaí, isso significa que você está com muito dinheiro no bolso, não é seguro andar por aí com muito dinheiro no bolso, os homens são mal.
Ela ficou ainda mais aterrorizada, ele sabia que ela estava com o dinheiro das vendas no bolso, ele só podia querer uma coisa: o dinheiro e matar ela. Então ela continuou quietinha onde estava, ele não parecia saber onde a encontrar.
- Eu só queria te levar pra casa, sou um amigo da sua avó, se você vier até aqui posso te levar pra casa no meu carro- “isso é o que todos os sequestradores e homicidas dizem” ela pensou no que sua avó havia dito enquanto assistiam ao jornal. - Eu sou policial, não precisa ter medo.
No mesmo instante ela se lembrou do caso do policial que havia violentado e matado uma menina da sua idade que pedirá ajuda.
- Acho que você foi embora e estou parecendo um louco. – Ele mexeu os pés e pisou bem forte nas folhas secas e foi diminuindo o ritmo, estava fingindo que tinha em bora, mas ela não cairá na história e na mentira dele, continuou parada porquê estava vendo o que acontecia.
Tudo ficou em silêncio por muito tempo, ela quase não respirava de tanto medo, depois de 30 minutos do mais completo e absoluto silêncio o homem finalmente fora embora. Ela encostou as costas na árvore e respirou bem fundo, várias vezes até sentir que podia andar de novo.
Alguém pulou na frente dela.
- Fica quieta aí Clarice!
- Aaa- o rapaz colocou a mão na boca dela, sentindo ela respirar fundo.
- Xiu! Ele ainda está ali. – tirou a mão da boca.
Eles se olharam por muito tempo, até que escutaram um carro chegando e vozes surgindo bem alto ecoando entre as árvores.
- Cadê ela?- alguém perguntou.
- Acho que foi embora sem que eu visse chefe.
- Caramba em... E agora?! O que vamos fazer?! A Diana vai nos matar.
- A gente faz isso outro dia.
- Entra no carro, a gente conta isso pra ela mais tarde, tenho outro serviço pra você.
O som do carro começou de novo e foi embora tão rápido quanto chegará.
- Quem é você!- ela gritou.
- Prazer, lobo. – Ele estendeu a mão para ela.
- Você é o que ?- ela não segurou na mão dele, em vez disso olhou com medo para ele.
- Meu apelido- ele sorriu- desculpa se eu te assustei, ouvi ele gritar pelo seu nome.
- Quem era ele?- ela perguntou.
- Não faço ideia, mas estava atrás de você.
- A jura? Eu quase não reparei.
Ela pegou a cesta vazia no chão e saiu andando.
- Eu e meus amigos acham que ele seja o “ chapeuzinho vermelho”.
- Como é?- ela olhou pra ele.
- Você não está sabendo?- ela balançou a cabeça dizendo que “não”-  Tem alguém que anda por ai matando quem anda sozinho pela floresta, e depois de matar o inocente escreve na pele dele um nome do antigo cacique, depois cobre o inocente com um gorro vermelho.
- Aí meu Deus... Que horror. Quantas pessoas esse “ chapeuzinho vermelho” já matou?
- Uma. Mas- ele levantou o dedo para o céu quando viu a cara de indignada que ela fez. – ele aterroriza muitas outras pessoas que passam aqui pela trilha.
- Essa sua história é ridícula.
- E por que acha isso?- o lobo perguntou.
- Se ele apenas tentasse ou matasse quem passa pela trilha ele não saberia tantas informações sobre mim.
Os dois chegaram no ponto de ônibus e se sentaram.
- Você tem razão, vou comentar sobre isso com meus amigos.
- Vai é? E como vocês se chamam? De alcateia?
- Muito engraçado senhorita, mas sim.
- Sério isso? Não posso acreditar.
- É como em Riverdale, tem o “gorro negro”, nós temos o “ chapeuzinho vermelho”...
- Tem os “ serpentes do sul”, nós temos a “ alcateia” ?
- Isso.
- Patéticos.
- Se você acha.  Onde você mora?
- Eu moro no ilha.
- O que ? Então porque você vende açaí na feira? Quero dizer... uau.
- Eu estou ajuntando dinheiro para ir pro Rio de Janeiro, minha avó nunca me daria dinheiro para me mudar de Manaus.
- E ela sabe que você faz isso?
- Não, eu digo que estou na oca de uma amiga para fazermos lição.
- Você fala com os índios?
- Falo, porque? Eles são super legais e me dão aula sobre a cultura deles.
- Porque quer ir para o Rio de Janeiro?
- Quero fazer faculdade de sociologia e poder dar aula sobre a cultura indígena. No Rio tem a UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro, e eu quero ir pra lá, conhecer lugares novos, gente nova.
- Aqui nós temos a UFAM.
- Tá, mas eu quero fazer faculdade lá. Agora chega, cadê esse ônibus que não vem?!
Eles ficaram em silêncio.
- Onde você mora?
- Na trilha do socorro.
- Nossa. Lá é bem bonito.
- Não, não é- ele riu e apoio a cabeça na palma de mão.- Porque seu sítio se chama “ilha”?.
- Porque quando meus tataravós vieram para o Brasil eles não saiam de lá, então todos diziam que eles viviam exclusos, como se tivessem perdidos em uma ilha, sem contar que o sitio parece uma ilha.

Deu a louca na chapeuzinho vermelhoStories to obsess over. Discover now