Durante meu ensino médio, eu costumava sempre ser uma das primeiras a chegar na escola. Costumava olhar os outros alunos chegando, admirar os tons do céu ao meu redor, ver o Sol que, mesmo ardendo um pouco meus olhos, era incrível demais para não ser visto, principalmente quando parecia querer se impor sobre as nuvens.
Nunca pensei que eu começaria a querer ver mais que isso.
Podia ser que eu era apenas muito comum, ou que ele era realmente chamativo, mas não conseguia tirar os olhos dele. O jeito que se vestia, sempre quebrando as regras da escola, as desculpas esfarrapadas ao inspetor, os fones no ouvido que mais pareciam uma maneira de se desligar do mundo e sua atitude sempre tão relaxada, sempre tão despreocupada, sempre...
... tão livre.
Pouco a pouco, ele virou parte da minha rotina, era impossível pensar em um dia de aula sem vê-lo andando pelos corredores quase sempre em uma cor diferente. O som de sua voz quando trocávamos meia dúzia de palavras, o jeito que ele sorria, tudo parecia tão familiar que, em poucos dias, senti como se já o conhecesse há mais tempo, como se fôssemos amigos de infância, como se finalmente eu pudesse confiar em alguém.
Era uma sensação de calmaria que nunca pensei que acabaria um dia.
Demorou meses para eu perceber que algo não encaixava. Ouvi tantas piadas, tantas risadas debochadas toda vez que entrava na escola, recebi tantos olhares tortos e, quando finalmente entendi o porquê, não fiz nada além de fingir não saber, mesmo que isso me torturasse.
Afinal, o que uma pessoa tão colorida tinha a ver com alguém tão preto e branco como eu?
Mesmo que eu conseguisse fazer de conta que nunca tinha ouvido nada e seguir como se não me machucasse, cada dia era mais difícil conter a vontade de mudar minha rotina só para fugir. Fugir, uma coisa muito mais fácil que encarar. Muito mais fácil que perguntar o motivo de ele ter se aproximado de mim, de ter me tratado bem, de ter estado ali, comigo, mesmo que não soubesse da importância que ele teve (e tem) só por ter ficado quando tanta gente não se importava.
Eu só queria que esse não se importar fosse do tipo que me fizesse invisível, como quase sempre fui, e não do tipo que me fizesse sair magoada, porque, no fundo, todos que me feriram não se importavam com a minha existência.
Mas ele continuava, ali, do mesmo jeito, mesmo quando tudo parecia um caos para mim. Eu não sabia se ele não se incomodava com o que acontecia ao nosso redor ou se ele fazia parte daquilo tudo. Talvez ele sequer soubesse, afinal, sempre pareceu não se importar muito com o que as pessoas diziam sobre ele, nem sobre os demais. Seja lá qual era o motivo de ele continuar, só mostrava que nós dois éramos realmente muito diferentes.
E, sinceramente? Eu não queria ser assim, tão preto e branco, duas cores, tão na linha, com tanto medo do que vão pensar se eu decidir mudar e me rebelar. Nunca quis ser assim, mas a vida me ensinou que é mais fácil e menos dolorido concordar e obedecer mesmo que isso te custe suas cores em vez de lutar pra ser o que sonha.
Nós éramos de mundos diferentes, ele é do mundo que eu sempre quis fazer parte e não achava que me encaixaria, até conhecê-lo. Até tocá-lo, até senti-lo, até amá-lo.
E foi por causa dele, das circunstâncias e de tudo que eu passei que decidi que já era hora de mudar, de fazer parte do mundo que eu sempre quis, de resgatar as cores que tinha perdido há tempos para tentar me manter, sem perceber que a cada dia, eu me perdia mais e mais.
Mesmo que tenha doído mais que aceitar e continuar do mesmo jeito, mesmo que, por algum tempo, eu tenha sentido raiva de tê-lo conhecido, de ter confiado, de ter sentido o que não devia sentir e mesmo que tenha custado o que nós costumávamos ser antes, sei que fiz o melhor por mim, talvez até por nós dois. Hoje eu sei que boa parte de tudo o que aconteceu não era culpa dele, nem minha, mas sim de alguém que se aproveitou das minhas inseguranças, como muitos faziam.
Depois dessa epifania, nunca mais o vi. Era como se tudo tivesse sido temporário, como se tivesse sido apenas uma lição da qual eu devia aprender a me amar no final. Independente disso, sempre que vejo alguém com uma calça cáqui ou vermelha, ou com o tênis azul-claro, ou com algum brinco com uma cruz, ele sempre me vem à mente, com o mesmo semblante de todos os dias, de quem se destacava no meio das cores mescladas da multidão.
E sorrio, pois sei que devo um "muito obrigada" dito cara a cara. Talvez também queira só mais uma vez poder vê-lo com a mesma inocência e pureza que eu tinha quando ainda não sabia do que aconteceria comigo e com a gente.
Talvez, na melhor das hipóteses, ele também olhe para alguma coisa e se lembre de mim com o mesmo carinho que sinto. E, mesmo se não for o caso, eu sei que ele vai tingir a vida de outra pessoa, do mesmo jeitinho que tingiu a minha, e continuará sendo o mesmo garoto livre que consegue fazer os outros se sentirem bem, como ele me fez sentir.
Agora, mesmo que tenha passado um tempo, eu ainda gosto de admirar as cores do céu, ver o Sol, que ainda arde meus olhos, mas que continua incrível, impondo sua luz às nuvens e às pessoas como quem te dá a chance de ver as coisas com clareza – exatamente como eu vejo agora, graças a ele.
E, quem sabe, um dia, esse mesmo Sol vai me ajudar a encontrá-lo de novo, com sua calça vermelha, os tênis azuis, os infinitos anéis nos dedos e aquele olhar sereno que eu conhecia tão bem e que parecia admirar as cores ao seu redor, sem se deixar influenciar por elas.
DU LIEST GERADE
As Cores que nos Separam
KurzgeschichtenEu costumava sempre ver o Sol e admirar a cor do céu, sem nunca pensar que iria querer ver algo além disso. Um rapaz de tantas cores, de uma liberdade tão grande... parecíamos tão próximos, mas logo a verdade me questiona: o que ele teria a ver com...
