prólogo

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Williston, 16 de outubro, 2020.

Kira se considera uma garota comum. Comum até demais. Seus cabelos tão escuros quanto a noite. Seus olhos lembram carvão, pretos, porém, vazios, sem expressões, sem brilho. Sua pele alva como a neve. Seu corpo esguio, sem muitas curvas. Ela não era o tipo de garota que chamava a atenção por onde passava e agradecia por isso

Ela nunca encontrou o seu lugar em Williston, cidade onde vivia, e duvidava que um dia encontraria em qualquer outro lugar. Sua irmã mais nova sempre se destacou nos lugares, contagiando a todos com seu sorriso angelical e sua simpatia. Kira ria de si mesma lembrando que era o oposto já que raramente sorria ou era simpática com os outros. Sua família já estava acostumada com seu jeito frio de ser, mas os outros achavam que ela tinha algum problema, ela mesma se perguntava se de fato tinha.

Mas ela não se sentia mal com isso, gostava de ficar sozinha. Apreciava o silêncio, a escuridão. Seu passatempo favorito era caminhar pela floresta, mesmo seus pais dizendo que era perigoso. Mas os mesmos já estavam cansados, desde pequena sabiam que sua filha mais velha era diferente, tanto das outras crianças, quanto de sua irmã. Eles já tentaram levá-la ao psicólogo, porém, não surgiu efeito, o doutor dizia que era só uma fase e que passaria, então eles esperaram, mas essa fase nunca passou visto que Kira aos 17 anos continuava a mesma.

Ela estava se sentindo estranha desde quando voltará da floresta. Lá, na escuridão, enquanto caminhava entre as árvores, no silêncio, apenas com o barulho dos grilos e do riacho que se encontrava a sua frente, ela se sentia bem, a sensação de paz tranquilizando seus nervos. Mas de repente ela sentiu um calafrio subindo desde a ponta de seus pés até sua coluna, seus cabelos da nuca se arrepiaram com a sensação de está sendo observada.

Ela se virou sobre seus calcanhares olhando em sua volta mas não encontrou ninguém, porém o desconforto ainda estava lá. Sua mente estava trabalhando a mil por hora. Ela nunca havia se sentido assim, a mesma pensou quando uma gota de suor escorreu por sua testa. Pela primeira vez, com medo de continuar naquela floresta, ela seguiu o seu caminho apressada, de volta para casa. E naquela mesma noite ela teve um sonho.

Estava na floresta fugindo de algo, não sabia o que era. Sua respiração estava fora de compasse e corria cada vez mais, seus cabelos batendo contra seu rosto, sua garganta seca e suas pernas cansadas pelo esforço que fazia. Com seus braços ela lutava contra arbustos em sua frente se machucando no caminho. Cansada dessa perseguição sem fim ela se escondeu atrás de uma árvore, grande o suficiente para esconde-la do que quer que seja que ela estivesse fugindo. Ela só conseguia escutar sua respiração acelerada, os passos de quem a estava perseguindo cessaram e ela fechou os seus olhos com força desejando que aquilo acabasse.

Ela sentiu uma respiração quente em seu rosto e ainda com medo se negou a abrir os olhos, mas se manteve forte sem deixar uma lágrima cair, mesmo que seu medo naquele momento a estivesse apavorando.

- Abra os olhos. - Ela escutou a profunda voz dizendo contra seu rosto. Nunca havia escutado uma voz tão grave e rouca quanto aquela. O calor que emanava daquele corpo, pelo visto masculino, em sua frente a impressionou.

- Eu mandei abrir os olhos. - A voz saiu como um rugido e ela estremeseu fechando suas mãos em punho. Ainda com medo, no entanto também curiosa, para descobrir de quem pertencia aquela voz, ela se forçou a abrir os olhos, olhando para cima. A primeira coisa que viu foi a boca do seu perseguidor, fina e rosada. Olhando mais para cima ela viu um nariz bem desenhado, continuando sua inspeção ela encontrou grandes olhos dourado a encarando, eles lembravam a cor âmbar, de whisky. Seu perseguidor devia ter entre 18 ou 19 anos, sua aparência era jovem, porém, seu olhar sobre ela era duro demais. Ele tinha uma feição conturbada, talvez estivesse com raiva. Mas porque ele teria raiva dela se nem a conhecia? Ela pensou, vendo que se o tivesse visto alguma vez em sua vida se lembraria.
Ela não conseguia desviar os olhos, estava hipnotizada.

- Quem... é você? - Ela perguntou com a voz baixa, entrecortada e duvidou que ele a tivesse ouvido.

Mas antes mesmo dele poder responde-la ela já estava de volta ao seu quarto sentada em sua cama com a respiração acelerada, seu coração batendo mais rápido que o normal e o suor escorrendo de sua testa. Era só um sonho. Ela disse a si mesma em sua mente. Um sonho . Mas havia sido tão real. Aquela voz, aqueles olhos. Ela nunca o tinha visto. Ainda conturbada ela se deitou novamente em sua cama e ficou olhando para o teto de seu quarto com medo que assim que pegasse no sono, novamente aquele pesadelo voltaria.

Kira não sabia.
Mas as coisas estavam prestes a tomar um rumo diferente em sua vida.

Mistérios irão ser revelados.
Paixões irão surgir.
E o destino já está traçado.

CorraWhere stories live. Discover now