Naquele dia, o despertador tocou por três vezes seguidas, em intervalos de cinco minutos. Acordou somente no terceiro intervalo. Quase todas as manhãs eram assim. Ele geralmente costumava despertar com o primeiro toque do despertador, mas em outras acabava deixando para acordar na última hora. Seguia para o banheiro para mijar, lavar o rosto e escovar os dentes. O café vinha logo em seguida, às vezes deixava para escovar os dentes depois do café, para não lhe tirar o sabor. O cigarro sempre o acompanhava nas manhãs. Uma forma de alívio matinal.
Os pais não estavam em casa, não voltariam tão cedo, ele teria no mínimo dois meses até que a mãe e seu pai retornasse de viagem. Isso era bom, estava acostumado a ficar sozinho. Não tão sozinho, já que na maioria das vezes, Max estava com ele. Seu melhor amigo. Seu único amigo, para ser sincero. Nunca entendeu como foi se aproximar de alguém como Max. Mas tão pouco fazia questão de entender. Mesmo que o garoto sempre estivesse o observando de longe, quando não estavam próximos, sempre podia sentir os olhos de Max o seguindo. Às vezes, Andrew sentia insegurança, receio e até medo. Aqueles olhos castanhos invioláveis que não demonstravam absolutamente nada fora curiosidade. Olhos selvagens e incompreensíveis. Por ser o único amigo dele, Andrew não se preocupava muito. Afinal, foi Max quem o manteve seguro desde o momento em que se encontrou com ele no meio do segundo semestre.
Andrew não era alguém muito popular, nem nos antigos colégios que estudou, nem no novo desde que se mudou para a nova cidade. Antro de pessoas mesquinhas, em uma escola da elite econômica do país, onde só tinha a juventude corrosiva, egoísta, chauvinista e retrógrada. Mas os pais insistiram para que ele entrasse para o colégio. Era menor de idade, não podia fazer nada para se opor. Apenas acatar. No final, faltava pouco meses para terminar o ano letivo, tinha que aguentar apenas mais dois meses, e então, não precisaria mais voltar para lá. Não precisaria retornar para o inferno que vivia no colégio.
Quando terminou de tomar café, foi tomar um banho rápido, ainda eram 7:15, conseguiria sair antes das 7:30 para poder chegar no colégio no horário certo. Demoraria quinze minutos andando da sua moradia até a escola. Talvez conseguisse se encontrar com Max antes de chegar na portaria. Pelo menos não teria que entrar sozinho. Talvez assim não precisasse dar de cara com nenhum dos malfeitores logo no início da manhã.
O vapor preenchia o banheiro quando desligou o chuveiro. Limpou o espelho, removendo o embaço, observando sua própria imagem refletida nele. Uma imagem decadente. Olhos escuros profundamente vazios, sem brilho ou alegria. Não era o olhar de um jovem de dezessete anos. Os olhos de um rapaz que mais pareciam de um velho que com o passar dos anos e a longa vida amontoou em seu coração amarguras que já não mais podia esquecer. No corpo, refletido na imagem do espelho, as velhas cicatrizes que tinha eram sinais e lembrete das violações que recebeu de alguns dos seus carrascos. Não cicatrizes visíveis, estas, Andrew não tinha. As marcas nunca ficavam, eles nunca o machucavam para deixá-lo marcado por muito tempo. Eram marcas mais profundas, cravadas em sua mente, na profundeza de seu ser. Marcas que via em si, mesmo que não fossem visíveis. Estavam lá, era só olhar direito.
Quando saiu do banho se trocou rapidamente. Ainda eram 7:23, saiu mais cedo do que o esperado. Pode caminhar devagar naquela manhã. O fluxo de pessoas era silencioso. Não havia muita gente caminhando, grande parte eram apenas estudantes, já que o complexo escolar onde morava era um imenso campus separado em três alas distritais: o distrito de moradias, o distrito escolar e o distrito comercial. O colégio era uma espécie reformatório, mesmo que não buscasse disciplinar ninguem. Grandes conglomerados de prédios, matas e cercado por imensos muros por toda extensão territorial que pertencia ao célebre colégio de Lá Mondri. Uma mini cidade, Andrew costumava se referir. Ele não tinha autorização para sair de dentro dos limites do campus, política da escola. Somente com autorização dos pais os estudantes podiam fazer visitas ao ambiente externo fora dos muros.
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O Amor que Floresce no Inverno
Historia Corta"O que ficou no passado estava destinado a ser esquecido. E aquilo que se recordava, como força, beleza e paixão, era que até o amor, como algumas flores, podiam florescer no inverno. No mais terrível e desesperador inverno." Avisos: Violência, agre...
